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Nelson: o saltador do tempo perdido

O atleta português está na final de triplo salto nos Jogos Olímpicos do Rio. Voltamos a partilhar um artigo sobre Nelson Évora originalmente publicado em março de 2015 no Expresso

Carolina Reis

FRANCK FIFE/AFP/Getty Images

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Sejamos francos: praticamente ninguém acreditava que Nelson Évora fosse capaz de voltar a competir em alto nível, quanto mais regressar ao pódio.

À exceção do atleta, de João Ganço, o fiel treinador que o acompanha desde criança, e do resto da equipa, Évora era dado como morto para a competição.

“Nunca desisti. As dores foram muitas e desanimei, mas sempre acreditei que ia voltar a saltar”, disse ao Expresso poucos dias depois de se ter sagrado campeão europeu de triplo salto. Os 17,21 metros, à sexta tentativa, no Campeonato Europeu de Pista Coberta, em Praga, são o momento de viragem na carreira do medalhado olímpico que desde 2010 vinha sofrendo lesões atrás de lesões. E, de repente, tudo mudou.

Para melhor.

"Nunca pus a pressão de ganhar. Não era esse o meu foco, queria ir à competição e fazer uma boa prova." Sabiase que tinha "fome de saltos", que não pretendia arrumar os ténis, mas o sucesso era uma incógnita. Daí que esta vitória, além de ser para os amigos e família, é também para todos os que não acreditaram no seu regresso. E, desses, ele não se esquece.

Perigo de perder a perna

Para trás ficaram as três lesões e cinco cirurgias a que teve de se submeter. Foi um longo calvário que começou em 2010 na tíbia da perna direita, devido ao esforço e impacto da mo- dalidade, e se prolongou até janeiro de 2014. No ano mais crítico, em 2012, quando foi operado três vezes e correu o risco de ficar sem a perna, manteve a esperança. Uma infeção causada pelos ferros colocados como suporte podia ter provocado um desfecho trágico.

"Mas, atenção, não foi culpa de ninguém", conta Nelson. E como sobrevive um atleta de alta competição à notícia de que pode ficar sem uma perna? Pela tranquilidade com que fala dos quase três anos fora das pistas de tartan, das dores (que não deseja ao pior inimigo), do ter de reaprender a andar, parece que foi um caminho natural. "Tive uma equipa médica muito positiva que sempre me disse, mesmo nos piores momentos, que ia fazer tudo para que eu voltasse a ter uma perna boa e saudável."

Do zero ao ouro

E, sim, foi difícil. "Não foram só as dores e as operações, tive de recomeçar tudo do zero." A reviravolta começou em maio do ano passado, já depois de ter sido operado à perna saudável, a esquerda, novamente devido ao esforço. Foi aí que preparou o regresso ao alto nível e os Europeus de Zurique em agosto foram o primeiro arzinho da sua nova graça. Saltou, chegou à final da prova que acabou em sexto. Não foi mau. Não foi bom. Foi o que foi. E Nelson aceita o que a vida lhe dá e prepara-se melhor para aquilo que quer dela.

Voltou a pôr os pés no chão e no ar e a pular até ao Europeu de Pista Coberta. Que ganhou.

Completou o círculo.

Títulos internacionais

27 DE AGOSTO DE 2007 Medalha de Ouro nos Mundiais de Atletismo de Osaca (Japão)

9 DE MARÇO DE 2008 Medalha de Bronze nos Mundiais de Atletismo de Pista Coberta de Valencia (Espanha)

21 DE AGOSTO DE 2008 Medalha de Ouro nos Jogos Olímpicos de Pequim (China)

10 DE JULHO DE 2009 Medalha de Ouro nas Universíadas de Belgrado (Sérvia) 18 DE AGOSTO DE 2009 Medalha de Prata nos Mundiais de Berlim (Alemanha)

18 DE AGOSTO DE 2011 Medalha de Ouro nas Universíadas de Shenzhen (China)

AGOSTO DE 2012 Falhou os Jogos Olímpicos em agosto

AGOSTO DE 2014 Regresso à competição nos Europeus de Zurique (Suíça) 7 DE MARÇO DE 2015 Medalha de Ouro nos Europeus de Pista Coberta de Praga (Rep. Checa)

Lesões, operações e interrupções

JANEIRO DE 2010 Fratura de stresse na tíbia da perna direita que levou a uma operação

18 DE JANEIRO DE 2012 Lesiona-se gravemente durante um treino no Centro de Alto Rendimento do Jamor É operado à tíbia e são-lhe colocados ferros e parafusos. Na altura, previase que o tempo de paragem fosse de 9 a 12 semanas. Faz fisioterapia com manipulação da tibiotársica

MAIO Operação para retirar os ferros e parafusos que estavam a infetar, correndo o risco de ser amputado

24 DE JULHO Última operação da lesão para fazer uma "limpeza" e retirar os parafusos que ainda restavam. Os médicos retiraram também uma hérnia que estava junto ao perónio

8 DE JANEIRO DE 2014 Fez uma artroscopia, desta vez ao joelho esquerdo, devido a uma lesão condral