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Terror na aldeia olímpica

“Os Jogos devem continuar”, decretou o Comité Olímpico Internacional, na sequência do dia mais negro da história do Olimpismo. Onze membros da delegação israelita tinham sido assassinados por um comando palestiniano, em Munique (1972). Na elegia fúnebre, o presidente do COI comparou o terrorismo à luta anti-“apartheid”. Este é o décimo nono de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

Margarida Mota

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O regresso dos Jogos à Alemanha era, para os alemães e para o mundo, uma oportunidade de superação das memórias de horror associadas aos Jogos de Berlim (1936), apropriados pela propaganda nazi. Mas, já com os Jogos de Munique em curso, a terça-feira 5 de setembro de 1972 tornar-se-ia o dia mais negro da história do Olimpismo.

Desde a fundação do Estado de Israel, em 1948, que já se tinham travado três guerras israelo-árabes e uma quarta — a de Yom Kippur, em 1973 — não tardaria. Criada em 1964, a Organização de Libertação da Palestina (OLP) vinha realizando ações terroristas para publicitar a causa. Os Jogos de Munique foram um alvo.

Pelas quatro da manhã do dia 5, seis homens em fato de treino e de mochila às costas escalaram a rede de arame em volta da aldeia olímpica. No interior, já lá estavam dois cúmplices que trabalhavam um como cozinheiro e o outro na construção. Pertenciam ao Setembro Negro, uma fação da OLP. Os intrusos dirigiram-se para o bloco 31 na Connollystrasse, onde estava alojada a delegação israelita. Dos 28 membros, sete estavam ausentes do edifício.

Os terroristas irromperam pelo prédio e, durante o ataque, mataram um treinador de wrestling e um atleta do levantamento do peso. Dois atletas conseguiram fugir no momento e, mais tarde, outros oito. Ficaram nove reféns.

Tentativa de diálogo entre um negociador alemão e um dos terroristas que mantinham cativos nove israelitas

Tentativa de diálogo entre um negociador alemão e um dos terroristas que mantinham cativos nove israelitas

Uma hora depois, os terroristas apresentaram as suas exigências: a libertação de 236 prisioneiros políticos palestinianos detidos em Israel e de dois alemães membros do Exército Vermelho. Deram um ultimato e ameaçaram executar um refém a cada hora se não fosse cumprido. “Não há concessões à chantagem dos terroristas”, defendeu a primeira-ministra israelita Golda Meir junto do chanceler alemão Willy Brandt.

Cerca das oito da noite, captores e reféns saíram do edifício e seguiram para o Aeroporto Militar Fürstenfeldbrück, onde os terroristas tinham a expectativa de seguirem de helicóptero para o Cairo. Só então se percebeu que eram oito atacantes. A emboscada montada no aeroporto incluía apenas cinco atiradores especiais.

Após aterrarem dois helicópteros, cerca das 22 horas, os atiradores começaram a disparar. Foram mortos três terroristas, os que escaparam começaram a executar os reféns, com armas automáticas e granadas. Pelas três da manhã, quase 24 horas após o início da crise, o chefe de segurança anunciou aquilo que ninguém queria ouvir: “Estão todos mortos”.

Membros da delegação israelita durante a cerimónia fúnebre, no estádio olímpico de Munique

Membros da delegação israelita durante a cerimónia fúnebre, no estádio olímpico de Munique

Às 10 horas de dia 6, realizou-se uma cerimónia fúnebre no estádio olímpico. Perante 80 mil pessoas em silêncio, a Orquestra Filarmónica de Munique interpretou a marcha fúnebre “Eroica”, de Beethoven. Junto aos 17 israelitas que sobreviveram à chacina, estavam 11 cadeiras vazias.

Quando o Rei Constantino II da Grécia, membro do COI, entrou no estádio uma figura aproximou-se dele. “Os Jogos não podem ser cancelados. Seria uma rendição.” Era Jesse Owens.

As competições estiveram suspensas durante 24 horas. Depois Avery Brundage, presidente do Comité Olímpico Internacional (COI), decretou: “Os Jogos devem continuar”. Alguns países consideraram retirar-se. “O meu sentimento coincidia com o de Brundage”, disse o irlandês Lorde Killanin, que após os Jogos assumiria a liderança do organismo. “Foi uma reação instintiva. Eu estava convencido que cancelar os Jogos só traria mais problemas.”

Avery Brundage, presidente do COI, discursa no estádio olímpico, após o massacre. Uma intervenção polémica...

Avery Brundage, presidente do COI, discursa no estádio olímpico, após o massacre. Uma intervenção polémica...

Os Jogos de Munique estavam fragilizados desde o começo. A seis dias do início, 21 comités olímpicos africanos ameaçaram com boicote se o COI não excluísse a Rodésia do Sul, onde o governo branco de Ian Smith era acusado de discriminação. O COI acedeu.

No discurso que preferiu no estádio olímpico durante a cerimónia fúnebre, Brundage misturou a ameaça de boicote com o ataque terrorista e deixou muita gente incomodada. “Os Jogos da XX Olimpíada foram sujeitos a dois ataques selvagens. Perdemos a batalha rodesiana contra uma chantagem política crua. Só temos a força de um grande ideal. Tenho a certeza que o público concorda que não podemos permitir que um punhado de terroristas destrua este centro de cooperação internacional e de boa vontade que nós temos no movimento olímpico. Os Jogos têm de continuar, e nós temos de continuar os nossos esforços para os mante-los limpos, puros e honestos.” Os africanos presentes e muitos membros do COI ficaram estupefactos. Brundage associara a luta anti-“apartheid” a terrorismo.

Na véspera do ataque aos israelitas, o nadador norte-americano Mark Spitz disputou a sua última final em Munique, de onde saiu com sete medalhas de ouro.

Quando lhe perguntaram o que sentia por, sendo judeu, ter tanto sucesso em solo alemão, ele deu uma resposta chocante: “Sempre gostei deste país, apesar de este abajur ser feito provavelmente [com a pele] de uma das minhas tias”. Durante muito tempo, acreditou-se que, durante as atrocidades do Holocausto, tinha sido feito um abajur com pele humana.

No dia seguinte à sua última final, o feito desportivo de Spitz foi destronado nas notícias pelo ataque terrorista. A organização dos Jogos considerou que por ser judeu Spitz corria riscos. Colocou-o no primeiro avião para Londres, onde foi fotografado em fato de banho com as sete medalhas ao pescoço. Nos EUA, a foto tornou-se um dos pósteres mais vendidos de sempre.

Mark Spitz ganhou sete medalhas de ouro e saiu apressadamente de Munique

Mark Spitz ganhou sete medalhas de ouro e saiu apressadamente de Munique

Em Munique, o basquetebol proporcionou o duelo mais dramático de que há memória entre os rivais da Guerra Fria. Até ao momento, os EUA tinham ganho todas as 62 partidas que disputaram naquela modalidade em várias edições dos Jogos. Chegados à final de 1972, encontraram uma URSS combativa, que liderou a partida o tempo todo. A três segundos do fim, os soviéticos ganhavam por 49-48, o norte-americano Doug Collins intercetou a bola, iniciou um ataque perigoso e foi derrubado. Chamado a marcar os dois lances livres, o próprio concretizou-os, colocando o resultado em 49-50 para os EUA. Pela primeira vez no jogo, os norte-americanos conseguiam liderar, e já não escondiam a euforia. Mas o jogo ainda não terminara…

O treinador soviético pediu um desconto de tempo, gerou-se confusão e o jogo parou. Foi retomado da linha de fundo, os soviéticos tentaram um lançamento longo, soou o apito e os norte-americanos ficaram eufóricos. Mais do que a vitória, celebravam o alívio de não terem entrado para a história como “aqueles que perderam” com os arquirrivais.

Subitamente, com o campo de jogo invadido por apoiantes dos norte-americanos, surgiu o anúncio de que ainda faltavam disputar três segundos. Os norte-americanos continuavam confiantes, a possibilidade de os soviéticos marcarem um cesto era diminuta… Mas aconteceu. O lituano Modestas Paulauskas fez um lançamento longo e, junto ao cesto, Sergei Belov, marcou, fixando o resultado em 51-50 para a URSS.

Os EUA protestaram e os juízes passaram grande parte da noite a analisar o recurso. Apenas na tarde do dia seguinte, o resultado foi confirmado. Os atletas norte-americanos faltaram à cerimónia de atribuição de medalhas.

  • Os Jogos do orgulho grego

    Tribuna

    Ao atribuir à Grécia os primeiros Jogos da era moderna, em 1896, os pioneiros do movimento olímpico quiseram homenagear o país que os criou. Os cofres do erário grego não tinham verba suficiente, mas um benfeitor chegou-se à frente e tornou o sonho possível. Este é o primeiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Competir aos domingos não é para cristãos

    Tribuna

    Os II Jogos Olímpicos, realizados em Paris, na pátria de Pierre de Coubertin, em 1900, ficaram na sombra de uma exposição universal e quase passaram despercebidos. Para complicar, atletas cristãos recusaram-se a competir aos domingos. Este é o segundo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • “Dias” da vergonha

    Tribuna

    À terceira edição, os Jogos rumaram ao “Novo Mundo”, integrados, pela segunda vez, no programa de uma exposição comercial. Um conjunto de competições destinadas a “povos primitivos” manchou o evento em St. Louis, em 1904, e envergonhou Pierre de Coubertin. Este é o terceiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Organização inglesa, regras inglesas

    Tribuna

    Numa corrida contra o tempo, os britânicos puseram de pé os IV Jogos, em 1908, sem gastar dinheiro dos contribuintes. À revelia do Comité Olímpico Internacional (COI), a organização de Londres definiu as regras das provas, arbitradas por juízes exclusivamente ingleses. Houve reclamações. Este é o quarto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • A morte saiu à estrada

    Tribuna

    Nuns Jogos bem organizados em que pela primeira vez participaram atletas dos cinco continentes — em 1912, em Estocolmo —, um português entrou para a história pelas piores razões. Ainda hoje, o drama de Francisco Lázaro é recordado na Suécia. Houve reclamações. Este é o quinto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Sem Jogos nem tréguas

    Tribuna

    A eclosão da I Guerra Mundial levou ao cancelamento dos VI Jogos previstos para 1916, em Berlim. A política levou a melhor sobre o desporto, violando um dos princípios sagrados dos Jogos da Antiguidade: as tréguas olímpicas. Este é o sexto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Retomar as Olimpíadas para ajudar à paz

    Tribuna

    Com alguns campeões mortos nas trincheiras da Grande Guerra e a preparação de muitos mais prejudicada pelo conflito, os Jogos de Antuérpia, em 1920, foram parcos em grandes marcas. A bordo do navio que transportou os norte-americanos, exigências relativas ao alojamento quase geraram um motim. Este é o sétimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Momentos de glória, como no filme

    Tribuna

    Em 1924, vivia-se em todo o mundo a tranquilidade entre guerras. Paris assegurou a organização dos VIII Jogos Olímpicos e, à segunda, não comprometeu. As prestações de alguns atletas despertaram o interesse do cinema. Este é o oitavo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • O casamento com a Coca Cola

    Tribuna

    No pós-guerra, a Europa tornou-se a zona de conforto dos Jogos Olímpicos. Após Bélgica e França, o evento seguiu para a Holanda, que assegurou a IX edição, em Amesterdão (1928). Para as mulheres, a saída de Pierre de Coubertin da presidência do movimento olímpico foi uma boa notícia. Este é o nono de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Luxos e “glamour”, apesar da Grande Depressão

    Tribuna

    A crise financeira mundial e a distância física até aos Estados Unidos fez diminuir o número de participantes nos Jogos de 1932. Para chegar a Los Angeles, atletas brasileiros tiveram de vender sacos de café pelo caminho. Amantes do desporto e talentosos para o espetáculo, os norte-americanos não pouparam nos luxos para os atletas. Este é o décimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Ao serviço da propaganda nazi

    Tribuna

    Ao atribuir os Jogos de 1936 a Berlim, o Comité Olímpico Internacional deu um passo no sentido da normalização da relação com a Alemanha, rejeitada pelo mundo olímpico após Grande Guerra. A subida ao poder de Adolf Hitler trocou as voltas. O Führer encarou os Jogos como um palco de demonstração da superioridade ariana sobre os “inferiores” judeus e negros. Um afroamericano do Alabama provou na pista que Hitler estava errado. Este é o décimo primeiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • A guerra e o sonho de Hitler

    Jogos Olímpicos

    A II Guerra Mundial inviabilizou duas edições dos Jogos Olímpicos, em 1940 e em 1944. E motivou o Führer a tentar concretizar um sonho: tornar a Alemanha a sede permanente do evento. Este é o décimo segundo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Londres, a cidade dos momentos difíceis

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    Símbolo da resistência aos totalitarismos, a capital inglesa foi escolhida para resgatar os Jogos das cinzas da II Guerra Mundial, em 1948. Ficariam conhecidos como os “Jogos da austeridade”. Este é o décimo terceiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • O regresso dos russos, 40 anos depois

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    Os Jogos de Helsínquia, em 1952, marcaram o retorno da União Soviética ao convívio olímpico. Com o mundo dividido em comunistas e capitalistas, os Estados Unidos ganharam um adversário à altura. Este é o décimo quarto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Os Jogos do “sangue na água”

    Jogos Olímpicos

    Um mês após a intervenção militar soviética na Hungria, um jogo de polo aquático, entre os dois países, nos Jogos de Melbourne de 1956 transformou-se num facto político. Os primeiros Jogos realizados a sul do Equador foram menos participados do que os anteriores, pela distância a que fica a Austrália e pela conflitualidade que se vivia no mundo. Este é o décimo quinto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

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    Jogos Olímpicos

    A organização dos Jogos de Roma adaptou locais históricos às exigências das competições e com isso encheu-os de classe. O evento de 1960 marcou também o início dos chorudos contratos televisivos. Este é o décimo sexto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • A chama de Hiroxima

    Jogos Olímpicos

    Tóquio não se poupou a esforços para concretizar os primeiros Jogos no continente asiático, em 1964. Para os japoneses, o evento foi, a vários níveis, inesquecível, desde logo porque constataram, em choque, que não eram imbatíveis no judo. Este é o décimo sétimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

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    Jogos Olímpicos

    A foto icónica dos Jogos de 1968, na Cidade do México — a do protesto, no pódio dos 200 m, de dois atletas norte-americanos — tem um segredo escondido... A história do atleta branco que, não parecendo, está solidário com os dois negros. Este é o décimo oitavo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época