Tribuna Expresso

Perfil

Jogos Olímpicos

As lágrimas do urso Misha

Os primeiros Jogos realizados num país socialista foram boicotados por 65 países do bloco capitalista. “Brilhantemente organizados”, disse o presidente do Comité Olímpico Internacional, os Jogos Olímpicos de Moscovo, em 1980, “foram tristes”. Este é o vigésimo primeiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

Margarida Mota

Partilhar

Quatro anos após 28 países boicotarem os Jogos de Montreal, mais do dobro repetira o gesto em Moscovo, os primeiros realizados num país do bloco socialista. Numa iniciativa liderada pelos EUA, 65 países recusaram competir na URSS, em protesto contra a invasão soviética do Afeganistão.

Os primeiros alarmes soaram em dezembro de 1979 quando, na véspera do Natal, a pedido do Governo de Cabul, tropas soviéticas começaram a ser enviadas para o país. À incógnita de como os rivais norte-americanos iriam reagir, somavam-se muitos receios relativos às consequências que essa guerra poderia ter nos Jogos previstos para a capital soviética dali a uns meses.

Nos Estados Unidos, o Presidente Jimmy Carter era um acérrimo defensor de um boicote aos Jogos de Moscovo. Câmara dos Representantes e Senado aprovaram, por esmagadora maioria, posições no mesmo sentido que, não sendo vinculativas, exerciam uma grande pressão sobre o comité olímpico americano e sobre os próprios atletas.

O Comité Olímpico Internacional (COI) não admitia interferências políticas e o seu presidente, Lorde Killanin, recordava aos norte-americanos que os Jogos não tinham parado quando os EUA estavam em guerra na Coreia (1950-1953) e no Vietname (1955-1975). Em vão.

A 21 de março de 1980, um dia após os soviéticos falharem o cumprimento do ultimato dado por Jimmy Carter para retirarem do Afeganistão, os EUA anunciaram que boicotariam os Jogos de Moscovo. Seriam retirados os passaportes aos desportistas que recusassem acatar a ordem.

Vai e vém entre Moscovo e Washington

O COI enfrentava a ameaça de um segundo boicote massivo consecutivo e tudo fez para o evitar. A 7 de maio de 1980, Killanin visitou Leonid Brejnev no Kremlin e alertou-o para que não esperasse mais do que 50 respostas positivas aos convites que a organização tinha endereçado. Uma semana depois, voou até Washington para se encontrar com Jimmy Carter, junto de quem descartou o adiamento do evento ou o recurso a uma cidade alternativa. Os Jogos seguiriam em Moscovo, “mesmo que eu tenha de competir sozinho contra mim próprio”, garantiu Killanin.

Ginastas executam uma torre humana, durante a cerimónia de inauguração dos Jogos de 1980

Ginastas executam uma torre humana, durante a cerimónia de inauguração dos Jogos de 1980

Com um debilitado Leonid Brejnev na tribuna (tinha 73 anos e morreria dali a dois), a cerimónia de abertura dos Jogos de Moscovo impressionou pela cor e pela precisão. Dois cosmonautas soviéticos surgiram no ecrã a saudar a XXII Olimpíada desde o espaço.

À luz da geografia política dos dias de hoje, estes Jogos realizaram-se em quatro países: Moscovo (Rússia) foi o centro do evento, Talin (Estónia) recebeu as regatas e o torneio de futebol estava disperso por S. Petersburgo (Rússia), Kiev (Ucrânia) e Minsk (Bielorrússia).

Europa presente em Moscovo. Portugal também

Em Moscovo, competiram 80 países, um número equivalente à participação em Roma, vinte anos antes. Entre os 65 ausentes, para além dos EUA, estivavam Canadá, China, Irão, Israel e Japão. A Europa não seguiu a posição do aliado norte-americano: só Albânia, Mónaco, Noruega e RFA boicotaram. Alguns governos, como o britânico, estavam solidários com os norte-americanos, mas deram liberdade de escolha aos respetivos comités nacionais. “Acreditamos que o desporto deve ser uma ponte e não um contratorpedeiro”, afirmava Sir Denis Follows, presidente do comité britânico.

Sem apoio governamental — o primeiro-ministro Francisco Sá Carneiro defendia o boicote —, Portugal fez-se representar em seis modalidades, com 11 atletas.

“Muitos atletas perderam a sua única oportunidade de participarem na maior e mais desafiante competição desportiva do mundo”, recordaria Killanin nas suas memórias. “Os próprios Jogos, apesar de terem sido brilhantemente organizados, foram tristes. Havia demasiadas caras ausentes, demasiadas dúvidas e hesitações da parte de quem marcou presença. Jimmy Carter e os seus assessores estavam mal informados acerca do funcionamento do movimento olímpico.”

Muita gente dentro do estádio, mas muitas ausências também. Em Moscovo, faltaram 65 países

Muita gente dentro do estádio, mas muitas ausências também. Em Moscovo, faltaram 65 países

Enquanto decorriam os Jogos, disputaram-se nos Estados Unidos os campeonatos nacionais de natação. Comparados os resultados dos nadadores norte-americanos dentro de portas com aqueles obtidos na piscina de Moscovo, os EUA teriam ganho metade das 66 medalhas em disputa.

Apesar das ausências, em Moscovo foram batidos 36 recordes mundiais e 79 olímpicos, que todo o mundo pode testemunhar pela televisão. A crispação da América em relação aos comunistas não impediu a NBC de fazer negócio com a organização moscovita, garantindo os direitos de transmissão dos Jogos por 87 milhões de dólares.

Contra uma oposição diminuída, os soviéticos ganharam 80 medalhas de ouro, em 195 conquistadas. Em segundo ficou a RDA com 47 ouros e 126 no total e em terceiro a Bulgária (oito ouros em 41 medalhas).

Britânico contra britânico

No medalheiro, o Reino Unido de Margaret Thatcher ficou no nono lugar, com 21 medalhas, cinco delas de ouro. Os britânicos ganharam também o título do duelo mais emocionante destes Jogos. À partida, eles “tinham garantidos” o ouro nos 800 e nos 1500 metros, tal era o favoritismo de Sebastian Coe e Steve Ovett, velhos conhecidos desde as corridas de crosse escolar e que agora disputavam vitórias e recordes mundiais nas corridas de meio fundo. A única dúvida era saber qual deles levaria a melhor sobre o outro. Repartiram a glória entre ambos: Coe ganhou nos 1500 (Ovett foi terceiro) e Ovett venceu os 800 (Coe foi segundo).

Um dos grandes ausentes nestes Jogos foi o neozelandês John Walker, medalha de ouro quatro anos antes nos 1500 metros. “Se estivéssemos todos lá”, recordaria o atleta, “com norte-americanos e alemães ocidentais, penso que os 1500 metros teriam sido uma das maiores corridas da história”.

O britânico Sebastian Coe, cortando a meta dos 1500 metros. O compatriota Steve Ovett foi terceiro

O britânico Sebastian Coe, cortando a meta dos 1500 metros. O compatriota Steve Ovett foi terceiro

Durante a cerimónia de encerramento dos Jogos de Moscovo, uma coreografia numa bancada do estádio fez a mascote do evento, o simpático urso Misha, verter várias lágrimas. Refletia o estado de espírito de quem viveu os Jogos e então lhes dizia adeus, mas também de todos aqueles que, por razões políticas, foram privados de participar.

  • Os Jogos do orgulho grego

    Tribuna

    Ao atribuir à Grécia os primeiros Jogos da era moderna, em 1896, os pioneiros do movimento olímpico quiseram homenagear o país que os criou. Os cofres do erário grego não tinham verba suficiente, mas um benfeitor chegou-se à frente e tornou o sonho possível. Este é o primeiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Competir aos domingos não é para cristãos

    Tribuna

    Os II Jogos Olímpicos, realizados em Paris, na pátria de Pierre de Coubertin, em 1900, ficaram na sombra de uma exposição universal e quase passaram despercebidos. Para complicar, atletas cristãos recusaram-se a competir aos domingos. Este é o segundo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • “Dias” da vergonha

    Tribuna

    À terceira edição, os Jogos rumaram ao “Novo Mundo”, integrados, pela segunda vez, no programa de uma exposição comercial. Um conjunto de competições destinadas a “povos primitivos” manchou o evento em St. Louis, em 1904, e envergonhou Pierre de Coubertin. Este é o terceiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Organização inglesa, regras inglesas

    Tribuna

    Numa corrida contra o tempo, os britânicos puseram de pé os IV Jogos, em 1908, sem gastar dinheiro dos contribuintes. À revelia do Comité Olímpico Internacional (COI), a organização de Londres definiu as regras das provas, arbitradas por juízes exclusivamente ingleses. Houve reclamações. Este é o quarto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • A morte saiu à estrada

    Tribuna

    Nuns Jogos bem organizados em que pela primeira vez participaram atletas dos cinco continentes — em 1912, em Estocolmo —, um português entrou para a história pelas piores razões. Ainda hoje, o drama de Francisco Lázaro é recordado na Suécia. Houve reclamações. Este é o quinto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Sem Jogos nem tréguas

    Tribuna

    A eclosão da I Guerra Mundial levou ao cancelamento dos VI Jogos previstos para 1916, em Berlim. A política levou a melhor sobre o desporto, violando um dos princípios sagrados dos Jogos da Antiguidade: as tréguas olímpicas. Este é o sexto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Retomar as Olimpíadas para ajudar à paz

    Tribuna

    Com alguns campeões mortos nas trincheiras da Grande Guerra e a preparação de muitos mais prejudicada pelo conflito, os Jogos de Antuérpia, em 1920, foram parcos em grandes marcas. A bordo do navio que transportou os norte-americanos, exigências relativas ao alojamento quase geraram um motim. Este é o sétimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Momentos de glória, como no filme

    Tribuna

    Em 1924, vivia-se em todo o mundo a tranquilidade entre guerras. Paris assegurou a organização dos VIII Jogos Olímpicos e, à segunda, não comprometeu. As prestações de alguns atletas despertaram o interesse do cinema. Este é o oitavo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • O casamento com a Coca Cola

    Tribuna

    No pós-guerra, a Europa tornou-se a zona de conforto dos Jogos Olímpicos. Após Bélgica e França, o evento seguiu para a Holanda, que assegurou a IX edição, em Amesterdão (1928). Para as mulheres, a saída de Pierre de Coubertin da presidência do movimento olímpico foi uma boa notícia. Este é o nono de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Luxos e “glamour”, apesar da Grande Depressão

    Tribuna

    A crise financeira mundial e a distância física até aos Estados Unidos fez diminuir o número de participantes nos Jogos de 1932. Para chegar a Los Angeles, atletas brasileiros tiveram de vender sacos de café pelo caminho. Amantes do desporto e talentosos para o espetáculo, os norte-americanos não pouparam nos luxos para os atletas. Este é o décimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Ao serviço da propaganda nazi

    Tribuna

    Ao atribuir os Jogos de 1936 a Berlim, o Comité Olímpico Internacional deu um passo no sentido da normalização da relação com a Alemanha, rejeitada pelo mundo olímpico após Grande Guerra. A subida ao poder de Adolf Hitler trocou as voltas. O Führer encarou os Jogos como um palco de demonstração da superioridade ariana sobre os “inferiores” judeus e negros. Um afroamericano do Alabama provou na pista que Hitler estava errado. Este é o décimo primeiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • A guerra e o sonho de Hitler

    Jogos Olímpicos

    A II Guerra Mundial inviabilizou duas edições dos Jogos Olímpicos, em 1940 e em 1944. E motivou o Führer a tentar concretizar um sonho: tornar a Alemanha a sede permanente do evento. Este é o décimo segundo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Londres, a cidade dos momentos difíceis

    Jogos Olímpicos

    Símbolo da resistência aos totalitarismos, a capital inglesa foi escolhida para resgatar os Jogos das cinzas da II Guerra Mundial, em 1948. Ficariam conhecidos como os “Jogos da austeridade”. Este é o décimo terceiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • O regresso dos russos, 40 anos depois

    Jogos Olímpicos

    Os Jogos de Helsínquia, em 1952, marcaram o retorno da União Soviética ao convívio olímpico. Com o mundo dividido em comunistas e capitalistas, os Estados Unidos ganharam um adversário à altura. Este é o décimo quarto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Os Jogos do “sangue na água”

    Jogos Olímpicos

    Um mês após a intervenção militar soviética na Hungria, um jogo de polo aquático, entre os dois países, nos Jogos de Melbourne de 1956 transformou-se num facto político. Os primeiros Jogos realizados a sul do Equador foram menos participados do que os anteriores, pela distância a que fica a Austrália e pela conflitualidade que se vivia no mundo. Este é o décimo quinto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Tradição e modernidade na Cidade Eterna

    Jogos Olímpicos

    A organização dos Jogos de Roma adaptou locais históricos às exigências das competições e com isso encheu-os de classe. O evento de 1960 marcou também o início dos chorudos contratos televisivos. Este é o décimo sexto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • A chama de Hiroxima

    Jogos Olímpicos

    Tóquio não se poupou a esforços para concretizar os primeiros Jogos no continente asiático, em 1964. Para os japoneses, o evento foi, a vários níveis, inesquecível, desde logo porque constataram, em choque, que não eram imbatíveis no judo. Este é o décimo sétimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • O protesto depois da vitória

    Jogos Olímpicos

    A foto icónica dos Jogos de 1968, na Cidade do México — a do protesto, no pódio dos 200 m, de dois atletas norte-americanos — tem um segredo escondido... A história do atleta branco que, não parecendo, está solidário com os dois negros. Este é o décimo oitavo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Terror na aldeia olímpica

    Jogos Olímpicos

    “Os Jogos devem continuar”, decretou o Comité Olímpico Internacional, na sequência do dia mais negro da história do Olimpismo. Onze membros da delegação israelita tinham sido assassinados por um comando palestiniano, em Munique (1972). Na elegia fúnebre, o presidente do COI comparou o terrorismo à luta anti-“apartheid”. Este é o décimo nono de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • O primeiro boicote em massa

    Jogos Olímpicos

    A ausência de 26 países africanos em protesto contra a participação da Nova Zelândia, a quem acusavam de cumplicidade com a segregacionista África do Sul, empobreceu os Jogos de Montreal (1976). Com quenianos e etíopes fora do atletismo, a estrela dos Jogos foi uma ginasta romena de 14 anos que não tardaria a tornar-se uma bandeira do regime ditatorial de Nicolae Ceausescu. Este é o vigésimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época