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Jogos Olímpicos

Ele vive para aqueles seis minutos em que o mundo desaparece

O miúdo que aprendeu a dar pontapés e gritos como o Bruce Lee quer trazer uma medalha para casa. A de ouro

Alexandra Simões de Abreu e Rui Duarte Silva

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Se os atletas fossem obrigados a viajar para os Jogos Olímpicos com todas as medalhas e taças conquistadas até ao momento, Rui Bragança ia ver-se aflito, apesar da juventude dos seus 24 anos, para carregar com o peso real e simbólico das mais de seis dezenas de troféus ganhos nos dez anos que leva de competição de taekwondo. Entre os mais importantes destacam-se os títulos de pentacampeão nacional, bicampeão europeu, vice-campeão do mundo, campeão da Europa de Categorias Olímpicas e a medalha de ouro na primeira edição dos Jogos Europeus, que confirmou o apuramento para o Rio2016 no final do ano passado.

Não só carrega aqueles títulos como chegou dia 12 à Aldeia Olímpica com um pé no segundo lugar da hierarquia mundial e o outro no terceiro do ‘ranking’ olímpico (-58kg). Mais. Aterrou quase doutor, pois já entregou a tese do curso de medicina, que termina este ano na Universidade do Minho.

Alto, esguio, de olhos azuis e sorriso fácil, carrega o sonho de trazer para casa a medalha de ouro no taekwondo, modalidade que segundo o próprio é uma mistura de xadrez com esgrima.

Para chegar aqui foi uma aventura que mete viagens em low cost para poupar dinheiro, toalhas enroladas à cabeça para dormir, tatuagens, cumplicidades, fome, ambição, sacrifícios e trabalho, sobretudo muito trabalho, entre muitas outras coisas, como o próprio explica.

O que é o taekwondo para si?
São os seis minutos em que o mundo desaparece. Em que sou eu, o outro atleta e o Hugo Serrão (treinador) na minha cadeira, e é aquilo que ouço e vejo, o resto desaparece. Posso estar num pavilhão com 10 mil pessoas a gritar e na verdade há silêncio, estou a tentar olhar para tudo e para nada do meu adversário. A tentar perceber o que ele vai fazer a seguir, a tentar ler-lhe os pensamentos. Isto é como xadrez e esgrima misturados. Na esgrima usam espadas, nós usamos as pernas, no xadrez mexem peças, nós vamos fazer jogadas para chegar ao ponto. Eu posso oferecer o colete, parecer que estou distraído e na verdade estou à espera que o adversário venha para defender e ir à cabeça. Ou é o fazer de conta que vou atacar quando na verdade pretendo evitar que ele me ataque e só quero fazer passar o tempo.

Tem tanto de psicológico como de físico.
Se calhar até tem mais de psicológico que de físico. Com a tática podemos superar qualquer atleta.

E a tática é o seu ponto mais forte?
Acho que sim. É o que mais gosto. Não sou o mais rápido, não sou o mais forte, não sou o mais alto, mas tento ser pelo menos o mais inteligente para fazer a melhor gestão, minha e do adversário, tentar manter-me calmo e ser frio para conseguir ver as coisas mesmo quando tudo parece perdido.

Falhou a qualificação para os Jogos de Londres por uma “unha negra”. Estes Jogos vêm com um atraso de quatro anos?
Espero que não. Claro que era bom ter ido aos jogos com 19 anos, mas acho que agora mereço mais. Trabalhei muito mais. Estou mais confiante. Agora sei que fiz o trabalho certo, ganhei por mérito, não foi um dia em que as coisas aconteceram.

Foi exigido muito sacrifício. O que custou mais?
As dietas, sem dúvida (gargalhada). Mas também o estar longe da família e dos amigos muitas vezes. O taekwondo rouba-nos muito tempo.

Quantos quilos tem de perder antes das competições?
O meu peso normal é de 62kg, portanto às vezes numa semana tenho de perder quatro quilos.

Como faz?
Tenho a ajuda do nutricionista Vítor Teixeira. Naqueles dias é um sofrimento… É uma dieta que se aplica aos atletas mas que se a tirarmos do contexto não faz sentido, porque não é assim tão saudável, por isso não a vou revelar. Aquilo é uma perda de peso irreal, só queremos enganar a balança.

Sente que a medalha de ouro é um sonho ao seu alcance?
O que qualquer atleta quer ser é o melhor. Nem é ser melhor que os outros, mas ser o melhor atleta que pode ser e não há nada que mostre melhor que chegamos lá do que o ouro olímpico. Era bom tê-lo em casa.

O que é mais difícil nos treinos?
O não desistir quando o ar nos falta, quando as pernas estão pior do que pesadas, quando o que nos apetece é deixarmo-nos cair no chão, continuar e fazer mais um pontapé, mais um, mais outro e mais outro.

É por isso que grita tanto? Faz lembrar o Bruce Lee.
(Risos) Os gritos são uma forma de libertar e potenciar a energia. E intimidam o adversário.

No Rio estão os 16 melhores do mundo. Tem alguma tática?
Só quero fazer um bom primeiro combate. Normalmente, o meu primeiro combate é o pior. Nos Jogos não posso dar-me ao luxo de ter um mau primeiro combate, senão acabou-se a festa. Um combate de cada vez, um round de cada vez, um ponto de cada vez. Se tiver pressas, se tentar dar um passo maior do que a perna, vou acabar por cair.

Rui Duarte Silva

Quem são os principais adversários?
O iraniano Farzan Fallah. Alguém que nem sequer estava no ranking e em seis meses passa para nº1! Tem 18 anos e basicamente limpou tudo o que havia para limpar. Ele praticamente não perdeu durante um ano. O coreano Tae-hun Kim, nº2 do ranking olímpico, é bicampeão mundial, portanto não vai ser fácil.

A seguir aos Jogos muda de categoria?
Claro. -58kg nunca mais! É muito duro, muito duro. As pessoas não têm a noção. Já nem falo daquela última semana antes da competição. E se na semana anterior for o almoço de aniversario do teu avô, ou o jantar de anos de casados dos teus pais, ou queres ir jantar fora com a tua namorada? Ainda por cima vivemos num país em que a primeira coisa que dizemos quando recebemos alguém em casa é ‘queres comer alguma coisa, queres beber alguma coisa?’. E dizer que não é quase um insulto. Por isso, quando voltar, vou deixar o meu corpo crescer e onde ele parar, parou.

O que mais gosta de comer?
O rosbife da minha avó. Marcha de qualquer maneira, seja frio, quente, com pão, com arroz, com batatas fritas…uma vez levei num tupperware para a Holanda e foi a primeira coisa que comi depois da pesagem.

Depois da pesagem já não há restrições?
Sim. A primeira coisa que fazemos é comer. Nunca passo fome depois da pesagem até ao dia seguinte (riso).

Como chegou ao taekwondo?
Eu comecei com seis anos no karaté, mas a turma era de adultos, num horário noturno e acabei por sair. Depois, como adorava água, fui para a natação. Cheguei a ser convidado para a equipa de competição, mas fiz uma forte alergia ao cloro quando aumentei a carga de treino. Ficava com a pele em crosta. Durante uns tempos ainda trocamos lençóis, mudamos detergentes, fizemos trinta por uma linha mas era impossível. Não dava mesmo. A seguir fiz andebol, BTT, até que aos 13 anos os meus pais e a minha irmã foram para um ginásio perto de casa e tive de escolher uma modalidade também. Como ainda não podia fazer musculação, sobrava o kickboxing e o taekwondo. Mas a turma de kickboxing era muito avançada e fui para o taekwondo. Nem sabia o que era.

Foi amor à primeira vista?
Não. Ao inicio era uma seca, mas como o mês estava pago, continuei. Entretanto, começámos a bater nas raquetes e a fazer uns jogos de combate, a coisa tornou-se mais lúdica, mais divertida e comecei a gostar. Eu adorava ver, com o meu pai, os filmes de artes marciais que davam na televisão no domingo à tarde.

Lembra-se do primeiro torneio?
Foi o Torneio Despertar, perto de Lisboa. Tinha uns 14/15 anos. Lembro-me que ainda era cinto amarelo e ganhei a um cinto castanho. Mas enquanto júnior nem ganhei assim tanta coisa. Fui logo campeão nacional e por isso fui ao europeu. Mas depois foram uns tempos, até 2010, em que só ficava em quintos lugares.

Mas no Europeu de juniores, em 2007, ficou em 3º lugar. Não foi importante?
Claro que sim, provavelmente sem esse resultado não estava aqui hoje, porque, além de mostrar a mim e aos meus pais que até tinha jeito para a coisa, deu-me também o estatuto de atleta de alta competição, o que me permitiu prosseguir os estudos sem que os professores tivessem de me fazer um favor sempre que faltava às aulas ou a um teste, como aconteceu antes desse Europeu.

Os seus pais foram o seu amor apoio, até financeiramente.
Sem dúvida. Até há bem pouco tempo, até ter sido campeão da Europa, em 2014, eram eles que pagavam tudo.

E a federação?
Só pagava as competições em europeus e mundiais, o resto era do bolso dos meus pais. Daí todas as maluqueiras que tivemos de fazer.

Que maluqueiras?
Tudo o que fosse possível poupar uns cêntimos, nós fazíamos. Viagens era só pelas low cost, não íamos no voo mais curto mas no mais barato e isso levava-nos a ter de fazer escalas de seis, sete horas. Ficávamos em hostels. Uma vez na Suíça, quando começamos a ver que as refeições eram muito caras, fomos a uma loja e comprámos um fervedor de água elétrico por 20 euros (o preço de uma refeição) e passamos quatro dias a comer massas instantâneas. Um dia comprámos uma lata de milho a dividir pelos quatro. Era assim.

rui duarte silva

Quem viajava consigo? O treinador e os seus pais?
Não. Éramos só nós, atletas. Nessa competição era eu, o Nuno Costa o José Fernandes e a Bia Fernandes. Nós é que fazíamos de treinadores uns dos outros. Eu era o “treinador” do Nuno e vice-versa, ou era “treinador” do Zé e vice-versa. Quem fosse o que estivesse mais longe de combater era o treinador. Na Suécia, por exemplo, chegamos os três à final e naquele dia fizeram as finais das quatro categorias de peso ao mesmo tempo. Nós estávamos em três. Fomos às bancadas, onde havia uns portugueses que não conhecíamos de lado nenhum, pedir-lhes que viessem ocupar a cadeira do treinador, que não pode estar vazia. Basicamente estávamos em modo de autogestão, a pensar em tudo, a ser atleta, a fazer de treinador, a tratar da logística, das viagens, das estadias, tudo. No combate anterior, na meia-final, eu fui à cadeira do Nuno, o Nuno ganhou e eu é que combatia a seguir no mesmo ringue - levantei-me e, enquanto tirava a camisola (tinha o fato por baixo), o Nuno baixava-me as calças do fato treino e tirava as luvas eletrónicas dos pés para me dar. Eu entrei e ele ocupou o lugar da cadeira. Ganhei e fomos à final. Histórias como estas temos muitas. Por isso, eu já levo a medalha ao peito, já tenho a medalha de ouro, porque chegar lá para um atleta português já é medalha de ouro.

Porque escolheu o curso de Medicina?
Na altura queria ficar na Universidade do Minho (UM), porque apoiaram-nos sempre muito. O Hugo já dava treinos aqui e eles deixaram-nos vir para cá, usar as instalações da universidade e os autocarros que faziam a ligação Guimarães-Braga, mesmo não sendo ainda estudantes da universidade. Quando chegou a altura escolhi naturalmente a UM. Queria investigação e medicina pareceu-me ser aquele que tinha mais saída na investigação. Mas já percebi que estou a adorar a parte clínica.

O seu treinador diz que costuma dormir com uma toalha enrolada na cabeça…
(Risos) Até ao início deste ano dormia na residência universitária e tinha um poste de luz mesmo em frente ao quarto, que não tinha persianas, só uma cortina, um pouco rasgada, por onde entrava muita luz. Como não conseguia dormir, punha uma toalha à volta da cabeça e os auscultadores nos ouvidos. Habituei-me e nas competições ainda durmo assim.

Que música ouve?
Para dormir é sempre o mesmo álbum, o “Wooden Arms”, do Patrick Watson. Na última vez em que liguei o iPod ao computador, já tinha tocado mais de 2800 vezes. Se acordar durante a noite, volto a pôr aquilo a tocar.

Porquê sempre a mesma música?
Gosto muito de música, desde jazz, clássica, rock, hip hop, heavy metal, tudo, e decoro as letras com muita facilidade. Comecei a pôr musica para dormir, a coisa resultava mas ao fim de uma semana já sabia o álbum de cor e começava a cantar a música em vez de dormir. Depois encontrei aquele álbum do Watson no Facebook, vi que era calmo, e comecei a ouvir para dormir. Como até hoje ainda não decorei as músicas, continua. Entro num tipo de transe e acabo por adormecer. E só ouço a dormir (risos). Nunca ouvi acordado, nem quero, porque tenho medo de decorar as letras. Já nas competições, para dormir, normalmente costumo ouvir música tecno.

Nunca mudou de treinador. O que tem o Hugo Serrão de especial?
Para mim é o melhor professor de taekwondo. É certo que não conheço outro, mas o facto de ele ter sido atleta, de ter começado a dar treinos tão cedo… Ele simplesmente percebe de taekwondo. Percebe do planeamento de treino, sabe quando pode puxar mais ou deve baixar a intensidade. Por outro lado, ele faz parte da minha vida, conhece-me desde os 13 anos. É quase como um irmão mais velho que me ensinou muito daquilo que sei.

É supersticioso?
Não, mas acho que no dia dos combates todos somos. Não tenho nenhum ritual, mas posso pensar que da última vez dormi 10 minutos antes, ou bebi aquela bebida mal acabei, vesti aquela camisola, e se calhar faço a mesma coisa. Não digo que se vir um gato preto à frente fico com medo, nada disso, mas nesta pequenas coisas, se posso escolher…mas também se a camisola estiver para lavar ou se não tiver o mesmo sumo, não fico a pensar nisso ou a achar que vou perder por causa disso.

Há alguma coisa que leva sempre contigo?
O iPod.

Tem uma tatuagem na perna. O que é?
É um tigre coreano, que foi feito em janeiro deste ano na perna esquerda por ser aquela que bate mais.

Ser canhoto é uma vantagem?
Antes era, porque quase não havia atletas canhotos e eu era o atleta surpresa. Agora já não é assim.

Vai fazer mais alguma a seguir aos Jogos?
Pensei fazer os anéis olímpicos, não a típica dos cinco aros, mas alguma coisa diferente com eles. A seguir aos Jogos logo se vê.

E lesões?
Tenho uma tendinose no rotuliano, que já dura há três anos e é parte do quotidiano.

Tem dores?
Algumas, mas já estou habituado a elas.

É crente?
Acredito que existe alguma coisa, mas acreditar em Deus e ir à igreja não.

Quando é que vamos ter o Rui médico?
Posso acabar o curso este ano, mas médico acho que só serei quando acabar o taekwondo, pelo menos enquanto desporto olímpico. Enquanto houver esta intensidade de treinos é impossível. Neste momento não sou o melhor estudante de medicina e o melhor médico que posso ser porque não me dedico 100% à medicina. Só quando isso acontecer é que vou querer ser médico. Até lá não quero ter a vida das pessoas na mão e falhar porque não me dediquei. Quero ter a certeza que sei tudo aquilo que podia saber para praticar medicina.

Tem ideia de quando isso vai acontecer?
Os Jogos têm uma cortina preta para mim. Não sei o que é que se vai passar para lá dos Jogos. Nem sei o que vai acontecer no dia a seguir. Não sei se vou conseguir chegar a Tóquio 2020, se vou ser médico já para o ano. Prefiro não pensar nisso para já. O taekwondo é aquilo de que mais gosto. Eu vivo para aqueles seis minutos de cada vez. Claro que adorava poder fazer só isto, pelo menos até ao auge da minha capacidade física.

O que é o taekwondo?

É uma arte marcial de defesa pessoal de origem coreana, cujos princípios são cortesia, integridade, perseverança, autodomínio e espírito indomável. Tem algumas semelhanças com o karaté, mas na verdade são muito diferentes, tanto na parte técnica como tática. Traduzindo literalmente a palavra “Tae Kwon Do”, vemos que TAE significa saltar, voar ou esmagar com o pé, KWON indica bater ou destruir com a mão ou com o punho e DO é a arte em si, é o caminho ou o método.

Portanto, o taekwondo é um modo de pontapear e golpear em que as mãos e os pés são utilizados para vencer o opositor, embora o que distingue o desporto é a conjugação dos movimentos de pontapeio.

No taekwondo olímpico são permitidos coletes e pantufas eletrónicos, que comunicam aos juízes se o golpe aplicado foi suficientemente forte para ser considerado ponto. Também é usado capacete, já que, ao contrario do karaté, os golpes na cara são permitidos.

Cada combate é composto por três rondas de dois minutos, com um minuto de intervalo entre elas. A vitória vai para quem conquistar mais pontos, sendo que o combate pode terminar antes do tempo previsto por diferença de 12 pontos ou por KO.

A modalidade teve o seu batismo nos Jogos Olímpicos de Verão de 1988, enquanto desporto de exibição, passando a integrar o programa olímpico a partir dos Jogos de 2000.

Pedro Póvoa foi o primeiro atleta português a ir aos Jogos, em Pequim 2008, tendo alcançado um 7º lugar na categoria (-58kg) em que Rui Bragança tenta agora, no Rio, chegar às medalhas.

  • “O Rui sacrificou a juventude para chegar aos Jogos”

    Jogos Olímpicos

    Professor de educação física, apaixonado pelo Taekwondo, Hugo Serrão, de 37 anos, é um dos responsáveis, talvez o principal responsável, pelo sucesso de Rui Bragança. Foi praticante da modalidade durante 20 anos e o melhor que conseguiu foi o quinto lugar no europeu de juniores e de seniores. Também foi pentacampeão nacional numa categoria (-62kg) que já nem existe. O percurso de treinador começa quando entra para a faculdade, no curso de educação física. Aos 18 anos já dava treinos a sério, em acumulação com as funções de professor. Atualmente é só treinador de taekwondo profissional