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Jogos Olímpicos

Medalha de ouro para a iniciativa privada

A ausência da União Soviética e de mais uns quantos aliados, em retaliação ao boicote capitalista aos Jogos de Moscovo, não impediu que Los Angeles 1984 fosse um enorme sucesso. Desportivo e comercial... O transporte do facho olímpico, no tradicional percurso desde Olímpia, foi vendido a 3000 dólares por quilómetro. Este é o vigésimo segundo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

Margarida Mota

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Após o mega boicote aos Jogos de Moscovo, liderado pelos Estados Unidos, e sendo a norte-americana Los Angeles a organizadora seguinte, o Comité Olímpico Internacional (COI) logo se mentalizou que um novo boicote seria inevitável — o terceiro consecutivo. O bloco socialista não iria perder a oportunidade para retaliar.

Leonid Brejnev tinha morrido em 1982 e o seu sucessor, Iuri Andropov, morrera em fevereiro de 1984, decorriam os Jogos Olímpicos de Inverno, em Sarajevo. Sucedeu-lhe Konstantin Chernenko, político da velha guarda, para um breve mandato (morreria em 1985). Só depois surgiria o reformador Mikhail Gorbatchov.

A decisão de ir ou não a Los Angeles estava nas mãos do Kremlin (e não do comité olímpico soviético), que explorava a possibilidade de anunciar um boicote justificando-o com a falta de segurança em Los Angeles.

Ronald Reagan à prova de bala

“O Comité Central perguntou a Constantin Andrianov [membro soviético do COI] e a mim qual era a nossa opinião”, recordaria o delegado soviético do COI, Vitaly Smirnov. “Eu disse que tínhamos de ir, que se não fossemos não ganharíamos nada, perderíamos o efeito político de termos heróis desportivos, entre 600 homens e mulheres, ali mesmo entre rivais ideológicos. Porquê sacrificar os atletas? É interessante, respondeu o Comité, mas já está decidido. Tenho de admitir que na Rússia Soviética o medo à volta da segurança era genuíno. Até a minha mãe me perguntava porque é que eu queria ir.”

Como que a confirmar os receios de segurança dos soviéticos, os Jogos foram inaugurados a 28 de julho pelo chefe de Estado norte-americano, Ronald Reagan, que falou protegido por um vidro à prova de bala.

O Los Angeles Coliseum recebeu duas edições dos Jogos Olímpicos: em 1932 e em 1984

O Los Angeles Coliseum recebeu duas edições dos Jogos Olímpicos: em 1932 e em 1984

O boicote socialista haveria de concretizar-se, embora com menos impacto do que aquele que visou Moscovo. Em Los Angeles, apresentaram-se a competir 140 países, mais 60 do que em Moscovo. Apenas 14 alinharam com a URSS, mas muitos potenciais campeões olímpicos ficaram de fora.

Da Europa de Leste, a Roménia de Nicolae Ceausescu foi o único país a furar o boicote. Em boa hora, para a ginasta Ecaterina Szabo que arrebatou quatro medalhas de ouro e uma de prata.

Para satisfação dos organizadores, o grande herói dos Jogos foi um norte-americano: Carl Lewis repetiu a proeza de Jesse Owens em 1936 e ganhou quatro medalhas de ouro (100 metros, 200 metros, salto em comprimento e estafeta 4x100 metros).

Para Portugal, que assistia às provas de madrugada, foi a época áurea do atletismo: Carlos Lopes venceu a maratona, Rosa Mota ganhou o bronze na prova feminina e, nos 5000, António Leitão foi também bronze.

Em Los Angeles, Carlos Lopes deu ao atletismo português a primeira medalha de ouro de sempre. Rosa Mota e António Leitão foram bronze, na maratona e nos 5000 m

Em Los Angeles, Carlos Lopes deu ao atletismo português a primeira medalha de ouro de sempre. Rosa Mota e António Leitão foram bronze, na maratona e nos 5000 m

Empenhado em receber na sua cidade os segundos Jogos da história, o “mayor” de Los Angeles, Tom Bradley, estava determinado em não gastar um único dólar do erário. Não só cumpriu aquilo a que se propôs, como ainda tornou o evento um grande sucesso comercial com lucros a rondar os 215 milhões de dólares.

Ao todo, a organização chefiada pelo executivo Peter Ueberroth angariou 470 milhões de dólares, entre a venda dos direitos televisivos à ABC (225 milhões de dólares) — em Moscovo, a NBC tinha pago “apenas” 87 milhões —, patrocínios (115 milhões de dólares), venda de bilhetes (85 milhões de dólares), licenças comerciais (13 milhões de dólares), entre outros.

Em 1932, Los Angeles lançara a moda das aldeias olímpicas. Agora, 52 anos depois, os atletas ficaram acomodados em “campus” universitários. Poupar era a palavra de ordem.

McDonald’s paga pavilhão da natação

As duas únicas infraestruturas novas foram patrocinadas: o pavilhão da natação (a McDonald’s pagou 3,6 milhões de dólares) e o velódromo (a Southland Corp. desembolsou 3,12 milhões). O Memorial Coliseum, que já tinha recebido os Jogos de 1932, foi renovado pela petrolífera Atlantic Richfield.

O transporte do facho olímpico, no tradicional percurso desde Olímpia, foi vendido a 3000 dólares por quilómetro. O primeiro troço em território norte-americano foi percorrido por Bill Thorpe, neto do lendário Jim, e o último por Gina Hemphill, neta do igualmente inesquecível Jesse Owens.

Ueberroth gostava de citar Winston Churchill: “Algumas pessoas consideram a iniciativa privada um tigre predador, outras uma vaca que podem ordenhar, mas poucos veem-na como um cavalo saudável a puxar uma carroça”. O organizador chefe dos Jogos de Los Angeles seria eleito “Personalidade do Ano” pela revista “Time”.

  • Os Jogos do orgulho grego

    Tribuna

    Ao atribuir à Grécia os primeiros Jogos da era moderna, em 1896, os pioneiros do movimento olímpico quiseram homenagear o país que os criou. Os cofres do erário grego não tinham verba suficiente, mas um benfeitor chegou-se à frente e tornou o sonho possível. Este é o primeiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Competir aos domingos não é para cristãos

    Tribuna

    Os II Jogos Olímpicos, realizados em Paris, na pátria de Pierre de Coubertin, em 1900, ficaram na sombra de uma exposição universal e quase passaram despercebidos. Para complicar, atletas cristãos recusaram-se a competir aos domingos. Este é o segundo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • “Dias” da vergonha

    Tribuna

    À terceira edição, os Jogos rumaram ao “Novo Mundo”, integrados, pela segunda vez, no programa de uma exposição comercial. Um conjunto de competições destinadas a “povos primitivos” manchou o evento em St. Louis, em 1904, e envergonhou Pierre de Coubertin. Este é o terceiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Organização inglesa, regras inglesas

    Tribuna

    Numa corrida contra o tempo, os britânicos puseram de pé os IV Jogos, em 1908, sem gastar dinheiro dos contribuintes. À revelia do Comité Olímpico Internacional (COI), a organização de Londres definiu as regras das provas, arbitradas por juízes exclusivamente ingleses. Houve reclamações. Este é o quarto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • A morte saiu à estrada

    Tribuna

    Nuns Jogos bem organizados em que pela primeira vez participaram atletas dos cinco continentes — em 1912, em Estocolmo —, um português entrou para a história pelas piores razões. Ainda hoje, o drama de Francisco Lázaro é recordado na Suécia. Houve reclamações. Este é o quinto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Sem Jogos nem tréguas

    Tribuna

    A eclosão da I Guerra Mundial levou ao cancelamento dos VI Jogos previstos para 1916, em Berlim. A política levou a melhor sobre o desporto, violando um dos princípios sagrados dos Jogos da Antiguidade: as tréguas olímpicas. Este é o sexto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Retomar as Olimpíadas para ajudar à paz

    Tribuna

    Com alguns campeões mortos nas trincheiras da Grande Guerra e a preparação de muitos mais prejudicada pelo conflito, os Jogos de Antuérpia, em 1920, foram parcos em grandes marcas. A bordo do navio que transportou os norte-americanos, exigências relativas ao alojamento quase geraram um motim. Este é o sétimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Momentos de glória, como no filme

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    Em 1924, vivia-se em todo o mundo a tranquilidade entre guerras. Paris assegurou a organização dos VIII Jogos Olímpicos e, à segunda, não comprometeu. As prestações de alguns atletas despertaram o interesse do cinema. Este é o oitavo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • O casamento com a Coca Cola

    Tribuna

    No pós-guerra, a Europa tornou-se a zona de conforto dos Jogos Olímpicos. Após Bélgica e França, o evento seguiu para a Holanda, que assegurou a IX edição, em Amesterdão (1928). Para as mulheres, a saída de Pierre de Coubertin da presidência do movimento olímpico foi uma boa notícia. Este é o nono de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Luxos e “glamour”, apesar da Grande Depressão

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    A crise financeira mundial e a distância física até aos Estados Unidos fez diminuir o número de participantes nos Jogos de 1932. Para chegar a Los Angeles, atletas brasileiros tiveram de vender sacos de café pelo caminho. Amantes do desporto e talentosos para o espetáculo, os norte-americanos não pouparam nos luxos para os atletas. Este é o décimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Ao serviço da propaganda nazi

    Tribuna

    Ao atribuir os Jogos de 1936 a Berlim, o Comité Olímpico Internacional deu um passo no sentido da normalização da relação com a Alemanha, rejeitada pelo mundo olímpico após Grande Guerra. A subida ao poder de Adolf Hitler trocou as voltas. O Führer encarou os Jogos como um palco de demonstração da superioridade ariana sobre os “inferiores” judeus e negros. Um afroamericano do Alabama provou na pista que Hitler estava errado. Este é o décimo primeiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • A guerra e o sonho de Hitler

    Jogos Olímpicos

    A II Guerra Mundial inviabilizou duas edições dos Jogos Olímpicos, em 1940 e em 1944. E motivou o Führer a tentar concretizar um sonho: tornar a Alemanha a sede permanente do evento. Este é o décimo segundo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Londres, a cidade dos momentos difíceis

    Jogos Olímpicos

    Símbolo da resistência aos totalitarismos, a capital inglesa foi escolhida para resgatar os Jogos das cinzas da II Guerra Mundial, em 1948. Ficariam conhecidos como os “Jogos da austeridade”. Este é o décimo terceiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • O regresso dos russos, 40 anos depois

    Jogos Olímpicos

    Os Jogos de Helsínquia, em 1952, marcaram o retorno da União Soviética ao convívio olímpico. Com o mundo dividido em comunistas e capitalistas, os Estados Unidos ganharam um adversário à altura. Este é o décimo quarto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Os Jogos do “sangue na água”

    Jogos Olímpicos

    Um mês após a intervenção militar soviética na Hungria, um jogo de polo aquático, entre os dois países, nos Jogos de Melbourne de 1956 transformou-se num facto político. Os primeiros Jogos realizados a sul do Equador foram menos participados do que os anteriores, pela distância a que fica a Austrália e pela conflitualidade que se vivia no mundo. Este é o décimo quinto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Tradição e modernidade na Cidade Eterna

    Jogos Olímpicos

    A organização dos Jogos de Roma adaptou locais históricos às exigências das competições e com isso encheu-os de classe. O evento de 1960 marcou também o início dos chorudos contratos televisivos. Este é o décimo sexto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • A chama de Hiroxima

    Jogos Olímpicos

    Tóquio não se poupou a esforços para concretizar os primeiros Jogos no continente asiático, em 1964. Para os japoneses, o evento foi, a vários níveis, inesquecível, desde logo porque constataram, em choque, que não eram imbatíveis no judo. Este é o décimo sétimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • O protesto depois da vitória

    Jogos Olímpicos

    A foto icónica dos Jogos de 1968, na Cidade do México — a do protesto, no pódio dos 200 m, de dois atletas norte-americanos — tem um segredo escondido... A história do atleta branco que, não parecendo, está solidário com os dois negros. Este é o décimo oitavo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Terror na aldeia olímpica

    Jogos Olímpicos

    “Os Jogos devem continuar”, decretou o Comité Olímpico Internacional, na sequência do dia mais negro da história do Olimpismo. Onze membros da delegação israelita tinham sido assassinados por um comando palestiniano, em Munique (1972). Na elegia fúnebre, o presidente do COI comparou o terrorismo à luta anti-“apartheid”. Este é o décimo nono de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • O primeiro boicote em massa

    Jogos Olímpicos

    A ausência de 26 países africanos em protesto contra a participação da Nova Zelândia, a quem acusavam de cumplicidade com a segregacionista África do Sul, empobreceu os Jogos de Montreal (1976). Com quenianos e etíopes fora do atletismo, a estrela dos Jogos foi uma ginasta romena de 14 anos que não tardaria a tornar-se uma bandeira do regime ditatorial de Nicolae Ceausescu. Este é o vigésimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • As lágrimas do urso Misha

    Jogos Olímpicos

    Os primeiros Jogos realizados num país socialista foram boicotados por 65 países do bloco capitalista. “Brilhantemente organizados”, disse o presidente do Comité Olímpico Internacional, os Jogos Olímpicos de Moscovo, em 1980, “foram tristes”. Este é o vigésimo primeiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época