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“O Rui sacrificou a juventude para chegar aos Jogos”

Professor de educação física, apaixonado pelo Taekwondo, Hugo Serrão, de 37 anos, é um dos responsáveis, talvez o principal responsável, pelo sucesso de Rui Bragança. Foi praticante da modalidade durante 20 anos e o melhor que conseguiu foi o quinto lugar no europeu de juniores e de seniores. Também foi pentacampeão nacional numa categoria (-62kg) que já nem existe. O percurso de treinador começa quando entra para a faculdade, no curso de educação física. Aos 18 anos já dava treinos a sério, em acumulação com as funções de professor. Atualmente é só treinador de taekwondo profissional

rui duarte silva

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Conheceu o Rui Bragança há 11 anos. Viu logo talento nele?
Não, nem pensar. Vi qualidades básicas que um atleta tem de ter. Dedicação, trabalho, esforço, inteligência, humildade, capacidade de sacrifício. Tudo o resto veio por consequência. E gostava muito, quando ele treinava era o rapaz mais feliz do mundo.

Quem é o Rui Bragança?
É um atleta que do ponto de vista intelectual tem uma capacidade mental muito forte. É um atleta muito racional, calmo, frio, competitivo e com uma grande capacidade de concentração e de trabalho.

Quais são os seus pontos fortes em combate?
Ele fica à espera do momento certo para fazer o ponto. Tem muita paciência. Joga muito bem, consegue interpretar muito bem o que o adversário está a fazer e a partir daí consegue construir o seu jogo, a sua forma de estar.

O que significa chegar aos Jogos?
Significa literalmente sacrificar a juventude, aquilo que vivemos na juventude. Ele colocou isso de lado para tentar chegar aos Jogos. E teve de encontrar um equilíbrio para conseguir ser feliz, apesar de não estar a viver a juventude na sua plenitude. Felizmente chegou aos Jogos. Se não tivesse chegado, penso que terá valido a pena o caminho porque julgo que foi feliz.

De que forma o Hugo contribuiu para essa felicidade e esse caminho?
O treinador tentou gerir as cargas de treino, tentou gerir o lado emocional durante o treino durante as competições, procurou que houvesse esse tal equilíbrio em todas as áreas da sua vida para que essa sobrecarga não o fizesse desistir.

Mas foi um árduo caminho para aqui chegar. Passaram por muitas dificuldades…
É verdade. Não quero que o meu filho passe por aquilo que eles passaram, porque sem apoios é impossível continuar a ter estes resultados. Para competir lá fora tivemos de pedir às pessoas que nos aniversários, no Natal, na Páscoa, nos dessem dinheiro em vez de presentes. Angariávamos dinheiro junto dos familiares. E estamos a falar de atletas que estão na faculdade, com rendimento, o Rui está no 6º ano de medicina, o Nuno Costa no 5º de arquitetura…

Porque não existem esses apoios?
É uma pergunta para dirigentes e presidentes.

Mudou muita coisa nos treinos ao longo dos anos?
Sim, foi uma aprendizagem. Ao inicio estudávamos muito os adversários, a cara, os ombros, a forma como saltita, como coloca os pés. Íamos para casa ver vídeos para saber aquilo tudo. Mas depressa percebemos que psicologicamente estávamos a valorizar demasiado o adversário. O pior adversário éramos nós próprios e por isso passámos a concentrar-nos mais no que tínhamos de fazer. Hoje faço vários treinos, táticos, físicos, de ritmo, e dentro de cada um há imenso trabalhos.

Quais são agora os objetivos?
Ser feliz. Ter sucesso não é mais importante do que ser feliz. Por isso, espero que continue a ser ele próprio, a dar tudo o que tem para dar. Da mesma forma que conseguiu atingir os seus objetivos até aqui.

Mas uma medalha está nos vossos horizontes ou fora de questão?
As hipóteses de medalha são iguais para todos os atletas que lá estão. Só estão 16, cada combate é uma final.

Como é que se define o melhor atleta?
O melhor atleta é o que faz a “poker face”, não demonstra o que está a pensar, o que vai fazer a seguir. Isto é como um jogo xadrez em que há observação, interpretação e resolução.