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Jogos Olímpicos

O primeiro boicote em massa

A ausência de 26 países africanos em protesto contra a participação da Nova Zelândia, a quem acusavam de cumplicidade com a segregacionista África do Sul, empobreceu os Jogos de Montreal (1976). Com quenianos e etíopes fora do atletismo, a estrela dos Jogos foi uma ginasta romena de 14 anos que não tardaria a tornar-se uma bandeira do regime ditatorial de Nicolae Ceausescu. Este é o vigésimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

Margarida Mota

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Quando a cidade canadiana de Montreal conquistou o direito de organizar os Jogos de 1976, já soviéticos e norte-americanos, através das cidades de Moscovo e Los Angeles, disputavam esse privilégio. Os Jogos Olímpicos eram, em todos os seus aspetos, um palco de grandes duelos entre ambos num contágio ao desporto da tensão geopolítica que se vivia no mundo. Mas em Montreal não foi essa rivalidade que mais abalou e prejudicou o evento.

No continente africano, a discriminação racial era uma ferida aberta. Desde 1964 que a África do Sul estava ausente dos Jogos. A resolução 1761 da Assembleia Geral das Nações Unidas apelava ao corte de relações diplomáticas com o país e à aplicação de um boicote internacional, que o Comité Olímpico Internacional (COI) decidiu acatar. Pelas mesmas razões, a Rodésia (futuro Zimbabwe) tinha sido expulsa pelo COI após a declaração de independência por parte do regime branco de Ian Smith (1970). Em Montreal, o cerco anti-“apartheid” apertou-se em torno de um terceiro país, a distante Nova Zelândia.

A provocação dos All Blacks

No verão de 1976, os All Blacks (equipa neozelandesa de râguebi) quebraram o embargo internacional à África do Sul e fizeram uma digressão pelo país, o que foi interpretado na África negra como um apoio implícito àquele regime segregacionista.

Na África do Sul, o verão estava quente. A 16 de junho, um mês antes do início, mais de 350 manifestantes anti-“apartheid” foram mortos quando a polícia abriu fogo sobre um protesto no Soweto, subúrbios de Joanesburgo, contra a imposição do afrikaans como língua de ensino num conjunto de disciplinas nas escolas secundárias.

A dias do arranque dos Jogos, 26 países africanos anunciaram que se retirariam do evento se a Nova Zelândia fosse autorizada a competir. Pouco importava que o râguebi não fosse modalidade olímpica. O COI não cedeu e o boicote foi avante.

Voluntárias dos Jogos Olímpicos de Montreal, 1976

Voluntárias dos Jogos Olímpicos de Montreal, 1976

A ausência de parte de África — a que se juntaram Iraque e Guiana — fez diminuir o interesse do público em relação aos Jogos. A organização viu-se obrigada a reembolsar milhares de bilhetes de espectadores descontentes com ausências anunciadas em cima da hora.

Pôr de pé os Jogos Olímpicos tinha sido uma tarefa complicada para o Governo de Pierre Trudeau, o pai do atual primeiro-ministro, Justin. O choque petrolífero de 1973 agravara a saúde da economia mundial e, no caso específico do Canadá, gastos acrescidos com a segurança — a tragédia de Munique estava muito presente — e disputas laborais prolongadas tinham originado derrapagens orçamentais.

A cidade de Montreal passaria a carregar uma pesada dívida de 1500 milhões de dólares que só seria saldada em... 2006.

Apesar das dificuldades, ou talvez por causa delas, os organizadores procuraram idealizar um momento simbólico que celebrasse o multiculturalismo do país e a união entre os canadianos. Dois jovens oriundos, ele, de Toronto e, ela, da província do Quebec acenderam juntos a pira olímpica: Stéphane Préfontaine representava os canadianos falantes de língua inglesa e Sandra Henderson de língua francesa.

Junto à pira olímpica, Sandra Henderson e Stéphane Préfontaine representaram a unidade do Canadá

Junto à pira olímpica, Sandra Henderson e Stéphane Préfontaine representaram a unidade do Canadá

Nas pistas de Montreal, o boicote africano privou os Jogos de alguns atletas brilhantes, nomeadamente ugandeses, tanzanianos, etíopes e quenianos. O fundista finlandês Lasse Virén aproveitou e recuperou a imagem dos “finlandeses voadores” conquistando a medalha de ouro nos 5000 e 10.000 metros.

Para Portugal, a corrida dos 10.000 metros foi um momento histórico. Carlos Lopes ganhou a primeira medalha para o atletismo nacional, concluindo a prova no segundo lugar. Montreal significou para Portugal a primeira participação a seguir ao 25 de Abril: na comitiva lusa seguiram apenas 19 atletas.

Se Carlos Lopes entrou para a história do desporto português, uma ginasta romena de 14 anos entraria para a história do Olimpismo. Produto do rigoroso e severo sistema de treino dos regimes comunistas, Nadia Comaneci ganhou três medalhas de ouro e tornou-se a primeira atleta de sempre a obter nota 10, nas paralelas assimétricas. A delegação soviética protestou. “Eu sei que não tive falhas”, garantia a jovem Nadia. “Já fiz isto 15 vezes…”

Em 1981, Nadia participaria numa digressão aos EUA, durante a qual os seus treinadores, Bela e Marta Karolyi, bem como o coreógrafo da equipa romena, Geza Pozsar, desertaram. De regresso ao país, a ginasta passaria a viver sob vigilância apertada. Fortemente pressionada no seu papel de “bandeira do regime” de Nicolae Ceausescu, seria autorizada a competir nos Jogos de Los Angeles (1984), onde foi seguida de perto durante toda a viagem.

Passariam cinco anos e Nadia daria o salto ela também. Na noite de 27 de novembro de 1989, quando o Muro de Berlim já começara a abrir brechas, arriscou conquistar a liberdade. Fugiu da Roménia na direção da Hungria, rastejando por lama e gelo. Seguiu para a Áustria e depois para os Estados Unidos, onde obteria a cidadania norte-americana e onde vive ainda hoje.

Nadia Comaneci foi a primeira ginasta da História a obter uma nota 10. Aconteceu nos Jogos de Montreal

Nadia Comaneci foi a primeira ginasta da História a obter uma nota 10. Aconteceu nos Jogos de Montreal

Na década de 70, o COI tinha a atormenta-lo dois problemas que cresciam de edição para edição: a questão do amadorismo e o doping.

Quando se demitiu do cargo de chanceler do COI, em 1964, Otto Mayer afirmara: “Todo o conceito de amadorismo mudou tanto durante os 18 anos em que fui chanceler que tem de haver algumas mudanças nas ideias olímpicas acerca do que é o amadorismo hoje em dia”.

No Congresso de Varna (Bulgária), em 1973, o COI removera a palavra “amador” do artigo 26 da Carta Olímpica, relativo à elegibilidade dos atletas para participarem nos Jogos. Então, “amador” implicava encarar o desporto como um “hobby”, sem ganhos materiais ou de qualquer outro tipo. O próprio presidente do COI, Lorde Killanin, reconhecia que a norma 26 forçava os atletas a mentirem. “Temos de ser mais racionais quanto à elegibilidade”, admitiu.

Corpos massacrados com picadas de agulha

Quanto ao doping, já desde os Jogos na Cidade do México (1968) que se faziam controlos, mas muitos desempenhos anormalmente extraordinários passavam no crivo. Em 1973, Harold Connolly, campeão olímpico do lançamento do martelo, testemunhou no Senado dos EUA que, em 1968, na equipa norte-americana, havia atletas que tinham tantos buracos de agulha no corpo que era difícil encontrar espaço para levarem uma injeção. Ele próprio admitiu ter sido picado durante oito anos para levar esteroides.

Em Montreal, quem ficou sob suspeita foi a equipa de natação feminina da RDA. Anteriormente, nunca tinha ganho qualquer medalha de ouro. Nestes Jogos, só não venceu duas das 13 provas...

Desde 1968 que, nos Jogos, se realizavam testes de determinação de género para comprovar a elegibilidade de algumas atletas para disputarem o programa feminino. Em Montreal, uma atleta britânica da equipa equestre recusou fazer o teste. Tinha poder para o fazer... Era a princesa Ana de Inglaterra.

  • Os Jogos do orgulho grego

    Tribuna

    Ao atribuir à Grécia os primeiros Jogos da era moderna, em 1896, os pioneiros do movimento olímpico quiseram homenagear o país que os criou. Os cofres do erário grego não tinham verba suficiente, mas um benfeitor chegou-se à frente e tornou o sonho possível. Este é o primeiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Competir aos domingos não é para cristãos

    Tribuna

    Os II Jogos Olímpicos, realizados em Paris, na pátria de Pierre de Coubertin, em 1900, ficaram na sombra de uma exposição universal e quase passaram despercebidos. Para complicar, atletas cristãos recusaram-se a competir aos domingos. Este é o segundo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • “Dias” da vergonha

    Tribuna

    À terceira edição, os Jogos rumaram ao “Novo Mundo”, integrados, pela segunda vez, no programa de uma exposição comercial. Um conjunto de competições destinadas a “povos primitivos” manchou o evento em St. Louis, em 1904, e envergonhou Pierre de Coubertin. Este é o terceiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Organização inglesa, regras inglesas

    Tribuna

    Numa corrida contra o tempo, os britânicos puseram de pé os IV Jogos, em 1908, sem gastar dinheiro dos contribuintes. À revelia do Comité Olímpico Internacional (COI), a organização de Londres definiu as regras das provas, arbitradas por juízes exclusivamente ingleses. Houve reclamações. Este é o quarto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • A morte saiu à estrada

    Tribuna

    Nuns Jogos bem organizados em que pela primeira vez participaram atletas dos cinco continentes — em 1912, em Estocolmo —, um português entrou para a história pelas piores razões. Ainda hoje, o drama de Francisco Lázaro é recordado na Suécia. Houve reclamações. Este é o quinto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Sem Jogos nem tréguas

    Tribuna

    A eclosão da I Guerra Mundial levou ao cancelamento dos VI Jogos previstos para 1916, em Berlim. A política levou a melhor sobre o desporto, violando um dos princípios sagrados dos Jogos da Antiguidade: as tréguas olímpicas. Este é o sexto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Retomar as Olimpíadas para ajudar à paz

    Tribuna

    Com alguns campeões mortos nas trincheiras da Grande Guerra e a preparação de muitos mais prejudicada pelo conflito, os Jogos de Antuérpia, em 1920, foram parcos em grandes marcas. A bordo do navio que transportou os norte-americanos, exigências relativas ao alojamento quase geraram um motim. Este é o sétimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Momentos de glória, como no filme

    Tribuna

    Em 1924, vivia-se em todo o mundo a tranquilidade entre guerras. Paris assegurou a organização dos VIII Jogos Olímpicos e, à segunda, não comprometeu. As prestações de alguns atletas despertaram o interesse do cinema. Este é o oitavo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • O casamento com a Coca Cola

    Tribuna

    No pós-guerra, a Europa tornou-se a zona de conforto dos Jogos Olímpicos. Após Bélgica e França, o evento seguiu para a Holanda, que assegurou a IX edição, em Amesterdão (1928). Para as mulheres, a saída de Pierre de Coubertin da presidência do movimento olímpico foi uma boa notícia. Este é o nono de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Luxos e “glamour”, apesar da Grande Depressão

    Tribuna

    A crise financeira mundial e a distância física até aos Estados Unidos fez diminuir o número de participantes nos Jogos de 1932. Para chegar a Los Angeles, atletas brasileiros tiveram de vender sacos de café pelo caminho. Amantes do desporto e talentosos para o espetáculo, os norte-americanos não pouparam nos luxos para os atletas. Este é o décimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Ao serviço da propaganda nazi

    Tribuna

    Ao atribuir os Jogos de 1936 a Berlim, o Comité Olímpico Internacional deu um passo no sentido da normalização da relação com a Alemanha, rejeitada pelo mundo olímpico após Grande Guerra. A subida ao poder de Adolf Hitler trocou as voltas. O Führer encarou os Jogos como um palco de demonstração da superioridade ariana sobre os “inferiores” judeus e negros. Um afroamericano do Alabama provou na pista que Hitler estava errado. Este é o décimo primeiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • A guerra e o sonho de Hitler

    Jogos Olímpicos

    A II Guerra Mundial inviabilizou duas edições dos Jogos Olímpicos, em 1940 e em 1944. E motivou o Führer a tentar concretizar um sonho: tornar a Alemanha a sede permanente do evento. Este é o décimo segundo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Londres, a cidade dos momentos difíceis

    Jogos Olímpicos

    Símbolo da resistência aos totalitarismos, a capital inglesa foi escolhida para resgatar os Jogos das cinzas da II Guerra Mundial, em 1948. Ficariam conhecidos como os “Jogos da austeridade”. Este é o décimo terceiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • O regresso dos russos, 40 anos depois

    Jogos Olímpicos

    Os Jogos de Helsínquia, em 1952, marcaram o retorno da União Soviética ao convívio olímpico. Com o mundo dividido em comunistas e capitalistas, os Estados Unidos ganharam um adversário à altura. Este é o décimo quarto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Os Jogos do “sangue na água”

    Jogos Olímpicos

    Um mês após a intervenção militar soviética na Hungria, um jogo de polo aquático, entre os dois países, nos Jogos de Melbourne de 1956 transformou-se num facto político. Os primeiros Jogos realizados a sul do Equador foram menos participados do que os anteriores, pela distância a que fica a Austrália e pela conflitualidade que se vivia no mundo. Este é o décimo quinto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Tradição e modernidade na Cidade Eterna

    Jogos Olímpicos

    A organização dos Jogos de Roma adaptou locais históricos às exigências das competições e com isso encheu-os de classe. O evento de 1960 marcou também o início dos chorudos contratos televisivos. Este é o décimo sexto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • A chama de Hiroxima

    Jogos Olímpicos

    Tóquio não se poupou a esforços para concretizar os primeiros Jogos no continente asiático, em 1964. Para os japoneses, o evento foi, a vários níveis, inesquecível, desde logo porque constataram, em choque, que não eram imbatíveis no judo. Este é o décimo sétimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • O protesto depois da vitória

    Jogos Olímpicos

    A foto icónica dos Jogos de 1968, na Cidade do México — a do protesto, no pódio dos 200 m, de dois atletas norte-americanos — tem um segredo escondido... A história do atleta branco que, não parecendo, está solidário com os dois negros. Este é o décimo oitavo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Terror na aldeia olímpica

    Jogos Olímpicos

    “Os Jogos devem continuar”, decretou o Comité Olímpico Internacional, na sequência do dia mais negro da história do Olimpismo. Onze membros da delegação israelita tinham sido assassinados por um comando palestiniano, em Munique (1972). Na elegia fúnebre, o presidente do COI comparou o terrorismo à luta anti-“apartheid”. Este é o décimo nono de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época