Tribuna Expresso

Perfil

Jogos Olímpicos

Emanuel e os 28 centésimos a mais: “Não era dia de medalhas”

“Abdicámos de tantas coisas nas nossas vidas, família, amigos, para lutar por um objetivo, e chegas aqui e és quarto? Nada melhor do que chegar a Portugal com uma medalha e dizer ‘está aqui o esforço recompensado’. Infelizmente, é assim a vida”, disse, emocionado o canoista

MURAD SEZER / Reuters

Partilhar

O canoísta Emanuel Silva lamenta ter ficado ficado no primeiro lugar dos últimos na prova de K2 1000 metros dos Jogos Olímpicos Rio 2016, reconhecendo a frustração por chegar a Portugal sem a recompensa do seu esforço.

"O quarto lugar? É o primeiro lugar dos últimos, infelizmente. Só depois de cortar a meta, quando olho para o meu lado esquerdo, onde estavam os candidatos, é que reparei que tínhamos sido ultrapassados pelos australianos. Nós, durante a prova, sabíamos que vínhamos nos lugares da frente, eu estava a ter essa noção, tive de acreditar. O João tinha ordens para não olhar para o lado, tinha de seguir o meu ritmo e a minha estratégia. Foi quase perfeito, porque perfeito teria sido uma medalha. É frustrante", assumiu.

Emanuel Silva, que há quatro anos conquistou a medalha de prata na mesma prova ao lado de Fernando Pimenta, e que no Rio 2016 fez dupla com João Ribeiro, frisou que por 28 centésimos se ganha, por 28 centésimos se perde, aludindo à diferença a que a embarcação lusa ficou do bronze da Austrália. "Por isso mesmo, hoje não foi o dia das medalhas para Portugal. Não vou dizer que estou triste, estou contente, um bocado frustrado. É uma mistura de sensações e emoções. Agora é descansar, amanhã [sexta-feira] nasce um novo dia, novas oportunidades. Temos o K4, vamos descansar, vamo-nos juntar ao Fernando e ao David e vamos procurar um melhor resultado", promete.

O mais experiente dos canoístas nacionais revelou que a primeira frase que dirigiu ao seu parceiro, estreante em Jogos Olímpicos, foi: "'Tá bom, não deu para mais". "Ele sabe o que eu sinto, ambos sentimos o mesmo. Sentimos aquela angústia do 4.º lugar, é aquele lugar que ninguém deseja. Nós abdicámos de tantas coisas nas nossas vidas, família, amigos, para lutar por um objetivo e chegas aqui e és quarto? Nada melhor que chegar a Portugal com uma medalha e dizer 'Está aqui o esforço recompensado'. Infelizmente é assim a vida", disse, emocionado.

Emanuel Silva defendeu que esta quinta-feira os adversários foram simplesmente mais fortes, recusando apresentar desculpas por não terem chegado às medalhas. "Fizemos a nossa estratégia, fizemos a nossa tática de prova, era isto que tínhamos de fazer, ir com os alemães que eram os grandes candidatos. Eles vinham ao nosso lado, eram uma boa referência. Treinámos para isso, sabíamos que os candidatos eram eles, tentámos não os deixar fugir. Possivelmente, sei lá, se a meta fosse a 998 metros teríamos a medalha de bronze. Mas foram 1000, não chegou, os outros foram mais fortes", completou.

O canoísta do Sporting garantiu que tanto ele como João Ribeiro renderam o máximo, uma vez que estavam preparados física e emocionalmente para isso. "As pessoas que nos rodeiam estão do nosso lado, desde 2013 que estão connosco, quando esta dupla foi campeã do Mundo de K2 500. Desde que esta dupla se juntou que acreditámos sempre um no outro. O João é um bom atleta. Cada vez gosto mais de pagaiar, cada vez gosto mais desta adrenalina da competição, eu adoro treinar, adoro competir e adoro ganhar. Esta dupla tem sucesso e é continuar a trabalhar. Isto não é o fim do mundo. Existe mais vida para lá desta regata. Esta regata já é passado", sublinhou.

Recordado de que Fernando Pimenta, ao ser 5.º no K1 1000 metros, disparou que estaria ainda mais furioso no K4, Silva respondeu "Ainda bem". "Eu em todos os barcos que entro estou sempre com raiva, furioso, é esse o meu instinto animalesco que está em cada pagaiada que dou, porque eu nunca fico satisfeito com os resultados. Já tenho 31 anos e não estou cansado disto, cada vez me dá mais prazer representar o meu país, os portugueses. É o meu maior orgulho. Por isso, cada tripulação que faço vou com tudo, vou com a minha experiência, aproveito a motivação dos meus parceiros para fazer o barco andar mais rápido possível", confessou.

O K2 1000 metros, formado pelos canoístas Emanuel Silva e João Ribeiro, ficou esta tarde na quarta posição da final nos Jogos Olímpicos Rio2016. Os canoístas lusos ficaram a 2,108 segundos da Alemanha, medalha de ouro, em 3.10,781 minutos. A prata foi para Sérvia, a 0,188 segundos, e o bronze para a Austrália, a 1,812.