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Jogos Olímpicos

Todos juntos, África do Sul incluída

Pela primeira vez em muito tempo, não houve qualquer boicote aos Jogos Olímpicos. Pelo contrário, o número de países participantes aumentou como consequência da nova geografia política nascida após a queda do Muro de Berlim. Para a África do Sul, Barcelona 1992 foi o princípio do fim do seu isolamento. Este é o vigésimo quarto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

Margarida Mota

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Os Jogos Olímpicos de Barcelona foram um sucesso ainda antes do seu início: nenhum país declarou que os ia boicotar. Para tal, foi fundamental a resolução da questão sul-africana, tantas vezes invocada para justificar ausências.

Sem hino, nem bandeira, a África do Sul apresentou-se em Espanha com 95 atletas. Na cerimónia de abertura, o porta-estandarte foi Jan Tau, um maratonista nascido em 1960, o último ano em que a África do Sul participara antes deste regresso.

Os sul-africanos ganhariam duas medalhas de prata: nos 10.000 metros femininos e no ténis (vertente de pares, sendo um dos tenistas o lusodescendente Wayne Ferreira). Regressada ao convívio olímpico — e com sucesso —, a África do Sul estava a caminho do fim do seu isolamento internacional, e os Jogos Olímpicos eram um aliado precioso nessa marcha.

Mandela na aldeia olímpica

“Tudo o que quero dizer é que a nossa presença aqui tem um grande significado para o nosso país, um significado que vai além dos limites do desporto”, afirmou Nelson Mandela, em liberdade desde 11 de fevereiro de 1990, durante uma visita à aldeia olímpica que arrastou multidões. “O nosso país tem estado isolado há muitos anos não só no desporto mas noutras áreas também. Aqui, dizemos: ‘Vamos esquecer o passado. Deixemos o passado ser passado’.”

Competições de saltos para a água, com a cidade de Barcelona como cenário

Competições de saltos para a água, com a cidade de Barcelona como cenário

A reabilitação da África do Sul recebera um impulso importante no verão de 1988 quando o presidente do Comité Olímpico Internacional (COI), Juan Antonio Samaranch, promoveu a criação da Comissão Apartheid e Olimpismo. A medida aumentou a confiança da África negra no COI, numa altura em que surgiam zunzuns àcerca de um possível novo boicote africano aos Jogos de Seul.

Os britânicos equacionavam incluir na sua equipa de atletismo a corredora Zola Budd, nascida na África do Sul e que já tinha competido pelos britânicos em Los Angeles (1984). Desde então, a atleta tinha passado largas temporadas no seu país natal ligada à organização de corridas. (Passou também por Portugal onde, em 1985, venceu o Mundial de Corta-Mato no Parque do Jamor.)

Zola Budd acabaria por não ir a Seul. Reapareceria em Barcelona nesse evento histórico que, para ela e para o país, significava o início de uma nova relação com o mundo.

Juan Antonio Samaranch, presidente do COI, participando no transporte da tocha olímpica em Barcelona, a sua cidade natal

Juan Antonio Samaranch, presidente do COI, participando no transporte da tocha olímpica em Barcelona, a sua cidade natal

A queda do Muro de Berlim, havia menos de três anos, criara toda uma nova geografia política na Europa. A desintegração da União Soviética dera origem a 15 novas entidades independentes — em Barcelona, 12 competiram juntas numa Equipa Unificada e três, os Estados bálticos (Estónia, Letónia e Lituânia), enviaram equipas próprias.

As Alemanhas tinham-se reunificado e surguram nos Jogos com um dos maiores contingentes: 463 atletas. Na Europa de Leste, a federação jugoslava percorria o trilho das independências de forma sangrenta. A guerra começara no ano anterior aos Jogos, mas Croácia, Eslovénia e Bósnia-Herzegovina já participaram como países independentes.

Cuba e Coreia do Norte regressavam após 12 anos de ausência. O Iémen, reunificado em 1990, apresentou uma equipa única. Em Barcelona, compareceu todo um novo mundo, que se refletiu num número recorde de países participantes: 169.

A mulher que desafiou os fundamentalistas

Na margem sul do Mediterrâneo, a Argélia vivia o início de uma década de grande violência em que 150 mil pessoas viriam a ser mortas às mãos de fundamentalistas islâmicos, furiosos com a anulação das eleições quando era previsível a vitória da Frente Islâmica de Salvação. Quando, em Barcelona, a argelina Hassiba Boulmerka venceu os 1500 metros, o seu triunfo foi a derrota do extremismo. Por correr de cabeça, pernas e braços destapados, a atleta era injuriada e ameaçada pelos islamitas.

A argelina Hassiba Boulmerka, vencedora dos 1500 m, em Barcelona

A argelina Hassiba Boulmerka, vencedora dos 1500 m, em Barcelona

Barcelona era a cidade natal de Juan Antonio Samaranch, que sentiu estes Jogos da mesma forma apaixonada como Pierre de Coubertin viveu os de Paris. Mas talvez com uma preocupação acrescida... as ações terroristas dos separatistas bascos da ETA, que elevavam os níveis de alerta à volta dos Jogos.

Numa atitude pacificadora, o rei Juan Carlos falou em catalão, num estádio batizado oficialmente com o nome de um nacionalista catalão, Lluis Companys i Jover, executado pelo franquismo. (O recinto também ficaria conhecido como Estádio de Montjuic.)

Os Jogos decorreriam sem incidentes e, na cerimónia de encerramento, após respirar fundo de alívio, Juan Antonio Samaranch expressou a sua felicidade e agradeceu aos patrocinadores. O presidente do COI era um grande defensor da comercialização do desporto, ainda que houvesse atletas a queixarem-se dos horários das provas, determinados por conveniências publicitárias.

Nas vésperas do século XXI, o amadorismo nos Jogos Olímpicos — a joia moral de Pierre de Coubertin — era um mito cada vez mais indisfarçável. O próprio COI deixara de ser crédulo e, em 1989, aprovou com todas as letras a participação de atletas profissionais nos Jogos, o que acontecia pela primeira vez em Barcelona.

No torneio de basquetebol, os Estados Unidos não facilitaram e enviaram o seu “Dream Team”, uma constelação de estrelas da liga profissional norte-americana (NBA). Michael Jordan, Magic Johnson, Larry Bird e companhia, naturalmente, não deram qualquer hipótese à concorrência.

  • Os Jogos do orgulho grego

    Tribuna

    Ao atribuir à Grécia os primeiros Jogos da era moderna, em 1896, os pioneiros do movimento olímpico quiseram homenagear o país que os criou. Os cofres do erário grego não tinham verba suficiente, mas um benfeitor chegou-se à frente e tornou o sonho possível. Este é o primeiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Competir aos domingos não é para cristãos

    Tribuna

    Os II Jogos Olímpicos, realizados em Paris, na pátria de Pierre de Coubertin, em 1900, ficaram na sombra de uma exposição universal e quase passaram despercebidos. Para complicar, atletas cristãos recusaram-se a competir aos domingos. Este é o segundo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • “Dias” da vergonha

    Tribuna

    À terceira edição, os Jogos rumaram ao “Novo Mundo”, integrados, pela segunda vez, no programa de uma exposição comercial. Um conjunto de competições destinadas a “povos primitivos” manchou o evento em St. Louis, em 1904, e envergonhou Pierre de Coubertin. Este é o terceiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Organização inglesa, regras inglesas

    Tribuna

    Numa corrida contra o tempo, os britânicos puseram de pé os IV Jogos, em 1908, sem gastar dinheiro dos contribuintes. À revelia do Comité Olímpico Internacional (COI), a organização de Londres definiu as regras das provas, arbitradas por juízes exclusivamente ingleses. Houve reclamações. Este é o quarto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • A morte saiu à estrada

    Tribuna

    Nuns Jogos bem organizados em que pela primeira vez participaram atletas dos cinco continentes — em 1912, em Estocolmo —, um português entrou para a história pelas piores razões. Ainda hoje, o drama de Francisco Lázaro é recordado na Suécia. Houve reclamações. Este é o quinto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Sem Jogos nem tréguas

    Tribuna

    A eclosão da I Guerra Mundial levou ao cancelamento dos VI Jogos previstos para 1916, em Berlim. A política levou a melhor sobre o desporto, violando um dos princípios sagrados dos Jogos da Antiguidade: as tréguas olímpicas. Este é o sexto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Retomar as Olimpíadas para ajudar à paz

    Tribuna

    Com alguns campeões mortos nas trincheiras da Grande Guerra e a preparação de muitos mais prejudicada pelo conflito, os Jogos de Antuérpia, em 1920, foram parcos em grandes marcas. A bordo do navio que transportou os norte-americanos, exigências relativas ao alojamento quase geraram um motim. Este é o sétimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Momentos de glória, como no filme

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    Em 1924, vivia-se em todo o mundo a tranquilidade entre guerras. Paris assegurou a organização dos VIII Jogos Olímpicos e, à segunda, não comprometeu. As prestações de alguns atletas despertaram o interesse do cinema. Este é o oitavo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • O casamento com a Coca Cola

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    No pós-guerra, a Europa tornou-se a zona de conforto dos Jogos Olímpicos. Após Bélgica e França, o evento seguiu para a Holanda, que assegurou a IX edição, em Amesterdão (1928). Para as mulheres, a saída de Pierre de Coubertin da presidência do movimento olímpico foi uma boa notícia. Este é o nono de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Luxos e “glamour”, apesar da Grande Depressão

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    A crise financeira mundial e a distância física até aos Estados Unidos fez diminuir o número de participantes nos Jogos de 1932. Para chegar a Los Angeles, atletas brasileiros tiveram de vender sacos de café pelo caminho. Amantes do desporto e talentosos para o espetáculo, os norte-americanos não pouparam nos luxos para os atletas. Este é o décimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Ao serviço da propaganda nazi

    Tribuna

    Ao atribuir os Jogos de 1936 a Berlim, o Comité Olímpico Internacional deu um passo no sentido da normalização da relação com a Alemanha, rejeitada pelo mundo olímpico após Grande Guerra. A subida ao poder de Adolf Hitler trocou as voltas. O Führer encarou os Jogos como um palco de demonstração da superioridade ariana sobre os “inferiores” judeus e negros. Um afroamericano do Alabama provou na pista que Hitler estava errado. Este é o décimo primeiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • A guerra e o sonho de Hitler

    Jogos Olímpicos

    A II Guerra Mundial inviabilizou duas edições dos Jogos Olímpicos, em 1940 e em 1944. E motivou o Führer a tentar concretizar um sonho: tornar a Alemanha a sede permanente do evento. Este é o décimo segundo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Londres, a cidade dos momentos difíceis

    Jogos Olímpicos

    Símbolo da resistência aos totalitarismos, a capital inglesa foi escolhida para resgatar os Jogos das cinzas da II Guerra Mundial, em 1948. Ficariam conhecidos como os “Jogos da austeridade”. Este é o décimo terceiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • O regresso dos russos, 40 anos depois

    Jogos Olímpicos

    Os Jogos de Helsínquia, em 1952, marcaram o retorno da União Soviética ao convívio olímpico. Com o mundo dividido em comunistas e capitalistas, os Estados Unidos ganharam um adversário à altura. Este é o décimo quarto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Os Jogos do “sangue na água”

    Jogos Olímpicos

    Um mês após a intervenção militar soviética na Hungria, um jogo de polo aquático, entre os dois países, nos Jogos de Melbourne de 1956 transformou-se num facto político. Os primeiros Jogos realizados a sul do Equador foram menos participados do que os anteriores, pela distância a que fica a Austrália e pela conflitualidade que se vivia no mundo. Este é o décimo quinto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Tradição e modernidade na Cidade Eterna

    Jogos Olímpicos

    A organização dos Jogos de Roma adaptou locais históricos às exigências das competições e com isso encheu-os de classe. O evento de 1960 marcou também o início dos chorudos contratos televisivos. Este é o décimo sexto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • A chama de Hiroxima

    Jogos Olímpicos

    Tóquio não se poupou a esforços para concretizar os primeiros Jogos no continente asiático, em 1964. Para os japoneses, o evento foi, a vários níveis, inesquecível, desde logo porque constataram, em choque, que não eram imbatíveis no judo. Este é o décimo sétimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • O protesto depois da vitória

    Jogos Olímpicos

    A foto icónica dos Jogos de 1968, na Cidade do México — a do protesto, no pódio dos 200 m, de dois atletas norte-americanos — tem um segredo escondido... A história do atleta branco que, não parecendo, está solidário com os dois negros. Este é o décimo oitavo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Terror na aldeia olímpica

    Jogos Olímpicos

    “Os Jogos devem continuar”, decretou o Comité Olímpico Internacional, na sequência do dia mais negro da história do Olimpismo. Onze membros da delegação israelita tinham sido assassinados por um comando palestiniano, em Munique (1972). Na elegia fúnebre, o presidente do COI comparou o terrorismo à luta anti-“apartheid”. Este é o décimo nono de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • O primeiro boicote em massa

    Jogos Olímpicos

    A ausência de 26 países africanos em protesto contra a participação da Nova Zelândia, a quem acusavam de cumplicidade com a segregacionista África do Sul, empobreceu os Jogos de Montreal (1976). Com quenianos e etíopes fora do atletismo, a estrela dos Jogos foi uma ginasta romena de 14 anos que não tardaria a tornar-se uma bandeira do regime ditatorial de Nicolae Ceausescu. Este é o vigésimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • As lágrimas do urso Misha

    Jogos Olímpicos

    Os primeiros Jogos realizados num país socialista foram boicotados por 65 países do bloco capitalista. “Brilhantemente organizados”, disse o presidente do Comité Olímpico Internacional, os Jogos Olímpicos de Moscovo, em 1980, “foram tristes”. Este é o vigésimo primeiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Medalha de ouro para a iniciativa privada

    Jogos Olímpicos

    A ausência da União Soviética e de mais uns quantos aliados, em retaliação ao boicote capitalista aos Jogos de Moscovo, não impediu que Los Angeles 1984 fosse um enorme sucesso. Desportivo e comercial... O transporte do facho olímpico, no tradicional percurso desde Olímpia, foi vendido a 3000 dólares por quilómetro. Este é o vigésimo segundo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Do céu ao inferno por causa do doping

    Jogos Olímpicos

    Nos Jogos de Seul (1988), que a certa altura a Coreia do Norte quis coorganizar, o canadiano Ben Johnson atingiu o olimpo após derrotar o seu grande rival, Carl Lewis, nos 100 metros. Horas depois, era mandado para casa, vergado ao vexame do doping. Este é vigésimo terceiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época