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Ana Rita, a miúda que parte a louça (quase) toda

Jogos Olímpicos

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Rui Duarte Silva

Ainda em miúda, Ana Rita Rodrigues, 25 anos, trocou a “facilidade” de dar chutos na bola pelo desafio de acertar num prato de cerâmica lá bem ao fundo. Foi o pai que a apresentou à modalidade. Lembra-se do primeiro tiro certeiro como se fosse hoje e tem um recorde de 74 tiros certeiros numa série de 75 pratos. Esteve à beira do apuramento para os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, mas faltava-lhe o “estofo e a experiência”. Daqui a quatro anos deverá ser a vez dela em Tóquio. A maria-rapaz de outrora fez-se atleta à séria. Não vive só para o tiro porque em Portugal ainda “é muito difícil e não há seguranças”. É fisioterapeuta e trata muitos homens da bola que ficam pior tratados do que os atiradores, embora o tiro seja muitas vezes visto como “uma modalidade agressiva e má”.

Como é começaste a praticar tiro?
Foi por influência do meu pai, que já praticava a modalidade a nível regional. Como era sempre perto da zona onde moramos, normalmente ia com ele. Aos 11 anos, por brincadeira, incentivaram-me a experimentar, viram que tinha jeito e então o meu pai comprou-me uma espingarda para começar a aprender. Entretanto, fui-me preparando para o exame de tiro [por lei, só é permitido realizar a partir dos 14 anos]. Até lá treinava o mais possível. Apesar de ser uma modalidade difícil de experimentar antes dos 14 anos, deve-se começar sempre antes para ir corrigindo a postura e ir conhecendo as armas de pressão de ar. Depois, quando cheguei a essa idade já estava pronta para fazer a competição.

O que é que gostaste no tiro que te fez continuar?
Há uma componente engraçada que é o facto de ser muito difícil de acertar. Na altura fazia futebol, que é mais acessível, enquanto no tiro para acertar no primeiro prato… Aquilo não é nada fácil. Via os outros a partirem razoavelmente bem e também queria. Ficava a pensar: “Bolas… então fazer um passe de futebol é tão fácil e partir um prato afinal é tão difícil”. Sem dúvida que foi a dificuldade que me fez continuar na modalidade. E depois de perceber que tinha algum jeito e que poderia conquistar alguma coisa também motiva, claro. Gosto sempre de ganhar. Como se costuma dizer, não gosto de perder nem a feijões.

Lembras-te quando partiste o primeiro prato?
Ao início, carregava os meus cartuchos com uma gramagem muito baixa porque como era pequena o meu pai não me deixava abusar e eu só fazia dois ou três pratos e nunca conseguia partir nenhum. A primeira vez que me puseram a fazer uma pranchada (uma série de 25 pratos), no Campo de Tiro de Vila Verde, parti o meu primeiro prato. Na altura, um prato em 25 era uma vitória enorme. Há quem treine dois e três meses e não consiga logo começar a acertar. Antigamente, os atiradores estavam mais associados aos caçadores e já sabiam pegar na espingarda, era diferente. No meu caso, e na maioria das situações atualmente, nunca tinha caçado e era uma aprendizagem totalmente nova. Tinha muita dificuldade, aliás a espingarda era quase maior que eu.

Rui Duarte Silva

No que é que consiste uma competição de tiro com arma de caça? De certeza não será apenas pegar na arma e disparar…
Dentro do tiro com armas de caça existem várias modalidades, tal como no atletismo, por exemplo. Há as modalidades não olímpicas, que pratiquei numa fase inicial por serem mais acessíveis, e as olímpicas, que são as que pratico atualmente. Cada disciplina tem uma distância, peso de cartucho e quantidade de pratos diferentes. Até aos 18 anos fiz todas.

Para fazer tiro não basta ter pontaria. O que é que preciso fazer e aprender nesta modalidade?
Para partir os pratos por brincadeira é preciso ter jeito, isso é essencial. Já no alto rendimento, mais do que pontaria – e penso que isto é uma opinião comum entre a maioria dos atletas -, é a capacidade de concentração. Eu não penso que tenho de apontar para o prato, já é mecânico. Às vezes penso que é um bocadinho como dizia Ayrton Senna, que ia a 200 km/h na pista e parecia que à volta estava tudo parado. E no tiro, quando conseguimos fazer em frames e compassado sai tudo bem e parece que está tudo em câmara lenta. Essa é a grande dificuldade: conseguir um pico máximo de concentração em cada prato. Basta um simples erro e um prato falhado e é o fim.

Qual é o teu treino habitual?
Neste momento, estou a treinar à quinta-feira e ao sábado. Por vezes, ao domingo também. O que normalmente faço são três pranchadas, que dura mais ou menos 1h30. Mas não há tempo definido. E depois há o treino de casa. Quase todos os dias, apesar de não poder ir ao campo, treino em casa, onde tenho um esquema feito numa parede em que simula mais ou menos a distância do fosso. Pego na arma e consigo tentar atingir o ponto de concentração, encaixar a arma e pensar que está ali o prato. Basicamente é um treino imaginário.

Rui Duarte Silva

Qual é a tua relação com a arma?
Costumo dizer que eu e a arma temos de ser só uma. Não sou eu e ela, somos nós. É quase como se fosse uma extensão do mau braço. Às vezes mexo-lhe um milímetro e aquilo ao toque já é diferente. Há uma ligação esquisita, que só quem experimenta e passa muitos anos com uma espingarda tem noção disso. Aliás, há três anos roubaram-me a minha espingarda no campeonato de Portugal, no campo de tiro, e nesse ano deixei de atirar e queria desistir porque tinha uma ligação com a arma muito forte.

Como se cria uma ligação dessas?
É tocar e saberes que é tua. Nós vamos ao prato com os olhos e apontamos e a arma segue-nos. Nunca lhe dei um nome, mas se calhar é bom pensar nisso [risos]. Mas quando ela se porta bem, limpo-a mais e dou-lhe mais miminhos, isso é certo.

Por vezes, há uma ideia do tiro como modalidade um bocado agressiva...
[Interrompe] Como uma modalidade má. Neste desporto só tenho pensamentos positivos e nunca vi nenhum acidente nos campos. E isso é muito relevante. No futebol, por exemplo, vejo a malta a aleijar-se constantemente – o que é bom para mim, que como fisioterapeuta tenho mais trabalho [risos] -, mas no tiro não tenho conhecimento de algum acidente. Acho que o problema é associar-se as armas à criminalidade, só que as pessoas esquecem-se que quem quer fazer mal não anda com armas todas documentadas como nós temos. O desporto, seja a que nível for, é sempre saudável.

O tiro ajudou a moldar a tua personalidade?
A nível da concentração sempre foi uma mais-valia para a escola. Ajudou-me sobretudo a ser mais confiante, saber lidar melhor com as derrotas. Era como em qualquer desporto: a vitória traz confiança. Não é facto de ter a arma na mão. O tiro exige muita concentração e saber lidar sozinho com as dificuldades, estamos na prancha basicamente sozinhos. Estamos ali a fazer uma série por nós, aprendemos a ser melhores por nós. Saber lidar e gerir todas as emoções ao longo da pranchada tornámos mais fortes pessoalmente.

É possível um atleta viver só do tiro em Portugal?
Infelizmente, nesta modalidade não dá para sermos profissionais cá. Saio às 21h30 do trabalho como fisioterapeuta e tento tirar os tempos possíveis durante o dia e fazer alguns treinos. Em 90% dos países que competem connosco, neste momento, os atletas são profissionais. Abdicam dos trabalhos e são remunerados. Muitos estão ligados ao Estado para poderem treinar todo o ano… são polícias, militares e conseguem fazer um treino diário. No nosso país ainda não. Mas penso que já se está a trabalhar para isso.

O que falta fazer?
Olho para os países que são grandes referências. No caso do tiro, é Itália, onde há várias fábricas de munições e armas. Além disso, a experiência mostra-me que estão quase sempre ligados à polícia. Enquanto competem têm total disponibilidade para o fazer, quando abandonam as competições têm o trabalho à espera. Isso dá-lhes garantias de emprego, o que é impossível ter em Portugal. A questão nem é as despesas que a modalidade implica, mas o facto de ir treinar implicar perder um dia de trabalho. E a longo prazo não é fácil. Quero ter uma profissão mais segura, enquanto o tiro só me ia dar pelo menos até aos 40 anos. Mas depois o que faço da minha vida? Só o Cristiano Ronaldo é que ganha milhões para sustentar até aos 80 ou 90 anos. Sei que há atletas que abdicam da vida toda para ganharem €400 ou €500, mas tenho uma perspetiva diferente. Isso é essencial para mim, mas também porque gosto muito da minha profissão. Tinha que ter outras seguranças para me dedicar exclusivamente ao tiro.

Até agora qual foi o momento mais marcante na tua carreira como atiradora? Pela positiva e pela negativa.
A vitória é, sem dúvida, a primeira prova internacional de juniores que fiz. Foi o campeonato da Europa de juniores, em 2008, e fui logo campeã. Na primeira internacionalização venci. Foi aquela competição que venci e não estava preparada para nada, nem para ir participar quanto mais para ganhar. É inexplicável… mas foi uma surpresa muito grande. É a proa que mais me marca e que me faz meter na cabeça que quero continuar, que tenho de treinar mais e chegar aos Jogos Olímpicos. O pior momento foi o ano passado. Não considero uma derrota, mas não deixa de ser um sétimo lugar que faz com que fique à porta de entrada para os Jogos. O quinto classificado deu lugar olímpico. Perdi no desempate para entrar na prova da final. Fui até ao fim mas no mata-mata fiquei de fora. Alguém tinha que ser. Faltou o estofo de mais provas.

A nível desportivo quais são os teus objetivos?
No ano passado fechei as portas do ciclo olímpico Rio 2016. O apuramento para Tóquio é dois anos antes, portanto em 2018 e é nisso que me estou a focar. Estou a preparar-me para estar bem nesse período.

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