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Jogos Olímpicos

O persistente, o ambicioso, o tímido e o sonhador juntos a caminho do pódio

Fernando Pimenta, Emanuel Silva, João Ribeiro e David Fernandes uniram forças no K4 e querem mostrar ao mundo de que força é feita a canoagem portuguesa. Vão atacar as medalhas este sábado, depois de se terem apurado esta sexta-feira para a final

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Antes de partirem para o Rio de Janeiro, os quatro atletas que vão participar na prova de K4 1000 dos Jogos Olímpicos passaram mais tempo juntos do que aquele que estiveram individualmente com as suas famílias. O sonho de colocar uma medalha ao peito obrigou-os a um percurso de muito sacrifício, em que foram limando as arestas da amizade e construindo uma força que, esperamos, os leve ao tão ambicionado pódio.

Eles sabem que têm os olhos de um país inteiro em cima deles, sobretudo depois de Fernando Pimenta ter saído em lágrimas da lagoa Rodrigo de Freitas por não ter conseguido chegar às medalhas e de Emanuel Silva e João Ribeiro terem falhado por centésimos a medalha em K2 1000. Foram dois murros no estômago - e mais do que ninguém, eles querem cumprir o objetivo e vingar as deceções anteriores. Não interessa se foram as algas, as folhas - só Fernando sabe realmente o que aconteceu -, todos têm a certeza de que o trabalho, o esforço e o sacrifício que cada um e em conjunto fizeram não merece outro desfecho que não seja um dos lugares cimeiros.

“A expectativa primeira é chegar à final, depois tudo é possível”, afirmam em uníssono. Já conseguiram: foram segundos na meia-final de K4 1000 esta sexta-feira e este sábado é dia de lutar pelas medalhas.

“Sonhamos com o lugar mais alto, o mais baixo, com todos”, revelava David Fernandes, ainda em solo nacional. É o mais velho da equipa, 32 anos, mas não é ele quem manda dentro do caiaque.

“O ritmo é comandado pelo Fernando, que vai à frente, mas as ordens durante a prova são dadas pelo Emanuel. Ele é que diz quando devemos baixar ou aumentar o ritmo. Dentro do caiaque só tenho de fazer força e acompanhá-los.”

josé caria

David andou pelo K1 e K2, foi dos primeiros atletas portugueses a dar nas vistas na canoagem, num tempo em que não havia sequer seleção nacional - “havia uma prova seletiva nacional e quem ganhava ia às provas internacionais” - e por isso esteve quase a desistir da modalidade. “A partir da primeira presença do Emanuel nos Jogos Olímpicos, as pessoas começaram a olhar para a modalidade de outra maneira. Em 2005 veio o selecionador Ryszard Hoppe, que revolucionou a canoagem portuguesa.”

Com 12 títulos de campeão nacional e 44 internacionalizações no currículo, a sua preferência vai para o K4 porque é nesta que David alcançou os melhores resultados (foi campeão europeu em 2011 e vice-campeão mundial em 2014). Mas alicia-o sobretudo o facto de ser uma prova rápida, muito competitiva, em que o mínimo descuido pode ser fatal na tripulação.“Prefiro trabalhar com eles porque dependemos uns dos outros, temos de estar os quatro bem fisicamente e em sintonia. Gosto desse desafio.”

Natural do Funchal, onde vive, David Fernandes já se habituou a passar pelo menos duas semanas do mês no continente para treinar com os companheiros. Mas “é complicado”, sai-lhe, baixando a cabeça. A família ressente-se. E ele também. “Gosto de estar com a minha filha Diana. Está com 18 meses, aquela fase em que começa a andar e a dizer as primeiras palavras”, explica, orgulhoso, para concluir: “Pesa-me saber que abdiquei de muita coisa, que muitas pessoas apostam em mim. Que ninguém fique desiludido com a minha prestação e que no final toda a gente possa festejar”.

josé caria

“O Fernando tem pilhas que nunca mais acabam”

Do mais velho passamos aos mais novos da equipa, João Ribeiro e Fernando Pimenta. Este último fez os 27 anos já em terras brasileiras, a 13 de agosto, e João apanhou-o na idade precisamente no dia em se apuraram para a final de K4, esta sexta-feira, depois de ter falhado a medalha em K2 devido àqueles centésimos inesquecíveis. A qualificação para a final do K4 foi sem dúvida a melhor prenda de aniversário para o mais tímido do grupo, que tal como David faz a sua estreia em Jogos Olímpicos.

João andava entretido com o futebol quando num verão, aos 12 anos, foi aliciado pelo namorado da irmã para experimentar a canoagem. “Ainda hoje o que me custa é treinar no inverno com temperaturas negativas. Ficamos com as mãos geladas e às vezes não sentimos o corpo”. Foi a entrada para a seleção, em 2005, que o fez dedicar-se em definitivo à modalidade.

Apontado como o mais reservado, o próprio reconhece, diz que “o facto do Fernando e do Emanuel serem os atletas mediáticos da equipa, com as atenções todas viradas para eles”, ajuda-o a ele e a David a suportar melhor a pressão psicológica porque estão “mais resguardados”.

João, que tem o ritual de fazer 10 agachamentos e molhar o pescoço antes de cada prova, é o oposto de Fernando Pimenta, “o mais extrovertido, o mais brincalhão, que parece ter pilhas duracel”, caracteriza David.

E Fernando Pimenta, antes de partir para o Rio, era o otimismo em pessoa, seguro do seu trabalho e capacidades. Dizia ele que para conseguir o apuramento para uma final e lutar pelas medalhas “todos os pormenores contam” e que é importante “dormir bem antes das provas, recuperar e não ter nada em termos psicológicos” que os afete.

josé caria

No Rio, depois da desilusão no K1, Fernando Pimenta fez questão de avisar quem duvida da sua força psicológica: “Estou mais do que em condições para o K4. Acho que isto vai jogar a meu favor e podem ter a certeza que vão ter um Fernando Pimenta ainda mais forte. Vai dar-me ainda mais energia. Espero que os meus colegas do K4 confiem em mim. Acreditem que eu vou estar a mais de 100%, porque eu não gosto de perder. Vou estar ainda mais furioso, mas a fazer provas com cabeça e não só com o coração”.

Por outro lado, como ele própria dizia ainda em Avis, onde foi realizado o último estágio, “não podemos encarar as provas como uma coisa de vida ou de morte”. “Estamos no Rio porque gostamos e por direito, porque conquistámos a vaga. Claro que há aquele grau de adrenalina positiva que nos vai dar a verdadeira pica para competir e depois é usufruir do momento. As provas são fantásticas e a envolvência é muito boa. Recordo-me que em Londres, quando eu e o Emanuel entrámos nos últimos 500 metros, já não conseguimos ouvir praticamente mais nada a não ser o público. Um barulho arrasador. E é gratificante sentir grande parte do Brasil a vibrar com as nossas prestações.”

josé caria

“Não conto abandonar tão cedo”

Os parceiros são unânimes - o Emanuel “é perspicaz, ambicioso e bem focado”. E ele sabe o que quer. “Nos meus planos estão ainda mais dois Jogos Olímpicos”, atira em inicio de conversa. O atleta do Sporting estreou-se em Atenas 2004 e recorda que foi um “impacto muito forte”.

Também porque a modalidade tinha “caído num poço muito fundo” e os resultados não apareciam. “Em 2003 fui campeão do mundo, em 2004 consegui o apuramento quando ninguém pensaria ser possível. Trabalhámos, alcançámos uma final K1, ficamos em 7º e tivemos um diploma olímpico. Foi um arranque para que a modalidade crescesse, para que o David voltasse a treinar e a acreditar, para que o João e o Fernando vissem que era possível fazerem algo do género. 2004 foi uma rampa de lançamento para todos os resultados que temos vindo a conseguir até hoje.”

E se em Pequim 2008 as coisas não lhe correram tão bem (ficou em 10º no K1 1000 e em 15º nos 500m), em Londres 2012 o sonho começou a concretizar-se com a medalha de prata em K2 1000.

“O melhor momento foi subir ao pódio, porque cortar a meta é igual em qualquer lado. A aquele pódio é diferente, o espírito é diferente, a medalha é diferente e o peso dela é diferente. Vivi um conjunto de emoções. Terminar o ciclo olímpico com uma medalha é um orgulho. A minha família viu que saí recompensado pelo esforço que fiz e eles foram recompensados pelos esforço que fizeram. Os portugueses também, porque Portugal não saiu de lá de saco vazio, saiu com uma medalha da canoagem.”

Para que o sonho de Emanuel atinja a sua plenitude, é preciso alcançar mais dois objetivos: “Ser campeão olímpico e ser o atleta com mais presenças olímpicas da canoagem”. Por isso, avisa, não tenciona “abandonar tão cedo”. “Tenho três palavras sempre em mente: gosto de treinar, gosto de competir e gosto de ganhar. Enquanto isso estiver na minha cabeça e enquanto houver um suporte por trás, tanto técnico como familiar, de patrocinadores, clube, COP, federação, enquanto houver isso, o Emanuel vai continuar.”

E este sábado, quem sabe, Emanuel pode cumprir um dos dois objetivos.

texto atualizado às15h07 de 19/08/2016 com a informação do apuramento dos quatro atletas para a final