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Jogos Olímpicos

Os aborígenes também sabem ganhar

Quatro anos após os Jogos do Centenário, os do Milénio foram entregues à Austrália que assim organizou o evento pela segunda vez. Sidney 2000 homenageou os povos nativos e eles, olhados com discriminação, responderam na pista, provando ter talento. Este é o vigésimo sexto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

Margarida Mota

© STR New / Reuters

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O grande sucesso comercial que vinham sendo os Jogos Olímpicos, sobretudo da década de 90 em diante, alargou a quantidade de interessados em realizar o evento. Se anos houve em que não havia grande concorrência, nas vésperas do século XXI eram cada vez mais as cidades candidatas.

A edição de 2000 — os Jogos do Milénio, como foram designados — foi cobiçada por cinco: Sidney, Pequim, Berlim, Istambul e Manchester. Dois países procuravam a organização pela primeira vez: China e Turquia.

Antevia-se que o novo século fosse voltado para o Pacífico. Nesse sentido, e apesar da escolha ter acontecido em 1993 quando ainda estava fresca na memória (do público e dos membros do COI) o massacre na Praça Tiananmen, Pequim era uma forte candidata. Liderou todas as votações e morreu na praia: na última ronda, perdeu para Sidney por 45 contra 43 votos.

A equipa de natação dos Estados Unidos, ainda sem Michael Phelps, agradece a hospitalidade australiana

A equipa de natação dos Estados Unidos, ainda sem Michael Phelps, agradece a hospitalidade australiana

Sidney tinha a seu favor a reputação desportiva da Austrália — uma presença regular nos lugares cimeiros do medalheiro olímpico. E as características geográficas únicas da cidade, com o porto pitoresco, a ponte e o edifício da Ópera – um postal que, anualmente, todo o mundo aprecia pela televisão quando a Austrália se torna o primeiro país a entrar num novo ano.

‘Cos I’m Free

Depois de Melbourne 1956, os Jogos regressavam à Austrália, como o lema “Partilhar o espírito, desafiar o sonho”. Foi o que fez Cathy Freeman, uma australiana de origem aborígene, como mais de 700 mil pessoas no país (em 24 milhões de habitantes), e que tinha tatuado no braço direito — o braço que estava mais próximo das bancadas sempre que corria — uma declaração: ‘Cos I’m Free (Porque sou livre).

A atleta venceu os 400 metros, naquele que alguém considerou “o minuto mais longo dos 200 anos de história da Austrália”. Perante 102.254 espectadores presentes no estádio e milhões pelo mundo fora que viam pela televisão, aquela era a primeira medalha de ouro ganha por um aborígene — povo nativo da Austrália, vítima de massacres ao longo da História.

“O desporto é o maior palco para o drama, é um reflexo da vida”, diria ela. “Às vezes, os favoritos não ganham. O meu sonho olímpico tornou-se realidade quando cruzei aquela linha. Apenas senti alívio, estava totalmente esmagada porque ouvia a multidão à minha volta. Sentia a felicidade e a alegria de toda a gente. Tive de me sentar para voltar a sentir-me normal.”

Após cortar a meta, Cathy não expressou qualquer euforia, inversamente ao que se passava nas bancadas em delírio. Meia atordoada, sentou-se na pista durante um minuto, tentando interiorizar o que acabara de alcançar.

Depois levantou-se e deu a volta de honra ao estádio levando consigo duas bandeiras: a australiana e uma outra com duas listas horizontais (uma preta, outra vermelha) e um círculo amarelo no centro, a bandeira dos aborígenes.

A australiana Cathy Freeman, durante a volta de honra, levando consigo a bandeira australiana e a aborígene

A australiana Cathy Freeman, durante a volta de honra, levando consigo a bandeira australiana e a aborígene

© Reuters Photographer / Reuter

Cathy era uma pessoa respeitada na Austrália. Na cerimónia de abertura dos Jogos de Sidney — onde a coreografia “Awakening” (Despertar) evocou a herança aborígene — coube-lhe a ela a honra de acender a pira.

Mas não fosse o seu estatuto olímpico — que na Austrália como em qualquer outra parte do mundo lhe conferia uma aceitação social de que a esmagadora maioria dos aborígenes não beneficiava —, ela estava destinada a ser uma australiana menor.

“Quando chegávamos a novos locais, sentíamo-nos totalmente intimidados”, escreveu na sua autobiografia, “porque sentíamos que, sendo negros, não tínhamos direito de ali estar. É estranho, mas sentíamo-nos mal por sermos negros.”

Prova de saltos de trampolim, em Sidney

Prova de saltos de trampolim, em Sidney

Em Sidney, as duas Coreias — criadas em 1953, crescidas em separado e que partilham a fronteira mais militarizada do mundo — desfilaram em conjunto, na cerimónia de abertura. Depois competiram cada qual por si: o Sul conquistou 28 medalhas e o Norte quatro.

Beneficiando de um acordo especial, Timor Leste foi autorizado a participar com quatro atletas, que competiram sob bandeira olímpica. Em 2002, o país seria reconhecido como Estado independente — o primeiro do século XXI.

Num e noutro caso, o desporto — e os Jogos Olímpicos em especial — provava estar um passo à frente, tornando possível aquilo que, politicamente, não era a realidade: a união das Coreias e a independência de Timor Leste.

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    Tribuna

    Ao atribuir à Grécia os primeiros Jogos da era moderna, em 1896, os pioneiros do movimento olímpico quiseram homenagear o país que os criou. Os cofres do erário grego não tinham verba suficiente, mas um benfeitor chegou-se à frente e tornou o sonho possível. Este é o primeiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Competir aos domingos não é para cristãos

    Tribuna

    Os II Jogos Olímpicos, realizados em Paris, na pátria de Pierre de Coubertin, em 1900, ficaram na sombra de uma exposição universal e quase passaram despercebidos. Para complicar, atletas cristãos recusaram-se a competir aos domingos. Este é o segundo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

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    Tribuna

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  • Organização inglesa, regras inglesas

    Tribuna

    Numa corrida contra o tempo, os britânicos puseram de pé os IV Jogos, em 1908, sem gastar dinheiro dos contribuintes. À revelia do Comité Olímpico Internacional (COI), a organização de Londres definiu as regras das provas, arbitradas por juízes exclusivamente ingleses. Houve reclamações. Este é o quarto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

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    Tribuna

    Nuns Jogos bem organizados em que pela primeira vez participaram atletas dos cinco continentes — em 1912, em Estocolmo —, um português entrou para a história pelas piores razões. Ainda hoje, o drama de Francisco Lázaro é recordado na Suécia. Houve reclamações. Este é o quinto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Sem Jogos nem tréguas

    Tribuna

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    Tribuna

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  • Momentos de glória, como no filme

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  • Luxos e “glamour”, apesar da Grande Depressão

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    A crise financeira mundial e a distância física até aos Estados Unidos fez diminuir o número de participantes nos Jogos de 1932. Para chegar a Los Angeles, atletas brasileiros tiveram de vender sacos de café pelo caminho. Amantes do desporto e talentosos para o espetáculo, os norte-americanos não pouparam nos luxos para os atletas. Este é o décimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

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    Tribuna

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  • A guerra e o sonho de Hitler

    Jogos Olímpicos

    A II Guerra Mundial inviabilizou duas edições dos Jogos Olímpicos, em 1940 e em 1944. E motivou o Führer a tentar concretizar um sonho: tornar a Alemanha a sede permanente do evento. Este é o décimo segundo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Londres, a cidade dos momentos difíceis

    Jogos Olímpicos

    Símbolo da resistência aos totalitarismos, a capital inglesa foi escolhida para resgatar os Jogos das cinzas da II Guerra Mundial, em 1948. Ficariam conhecidos como os “Jogos da austeridade”. Este é o décimo terceiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • O regresso dos russos, 40 anos depois

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    Os Jogos de Helsínquia, em 1952, marcaram o retorno da União Soviética ao convívio olímpico. Com o mundo dividido em comunistas e capitalistas, os Estados Unidos ganharam um adversário à altura. Este é o décimo quarto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Os Jogos do “sangue na água”

    Jogos Olímpicos

    Um mês após a intervenção militar soviética na Hungria, um jogo de polo aquático, entre os dois países, nos Jogos de Melbourne de 1956 transformou-se num facto político. Os primeiros Jogos realizados a sul do Equador foram menos participados do que os anteriores, pela distância a que fica a Austrália e pela conflitualidade que se vivia no mundo. Este é o décimo quinto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Tradição e modernidade na Cidade Eterna

    Jogos Olímpicos

    A organização dos Jogos de Roma adaptou locais históricos às exigências das competições e com isso encheu-os de classe. O evento de 1960 marcou também o início dos chorudos contratos televisivos. Este é o décimo sexto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • A chama de Hiroxima

    Jogos Olímpicos

    Tóquio não se poupou a esforços para concretizar os primeiros Jogos no continente asiático, em 1964. Para os japoneses, o evento foi, a vários níveis, inesquecível, desde logo porque constataram, em choque, que não eram imbatíveis no judo. Este é o décimo sétimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • O protesto depois da vitória

    Jogos Olímpicos

    A foto icónica dos Jogos de 1968, na Cidade do México — a do protesto, no pódio dos 200 m, de dois atletas norte-americanos — tem um segredo escondido... A história do atleta branco que, não parecendo, está solidário com os dois negros. Este é o décimo oitavo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Terror na aldeia olímpica

    Jogos Olímpicos

    “Os Jogos devem continuar”, decretou o Comité Olímpico Internacional, na sequência do dia mais negro da história do Olimpismo. Onze membros da delegação israelita tinham sido assassinados por um comando palestiniano, em Munique (1972). Na elegia fúnebre, o presidente do COI comparou o terrorismo à luta anti-“apartheid”. Este é o décimo nono de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • O primeiro boicote em massa

    Jogos Olímpicos

    A ausência de 26 países africanos em protesto contra a participação da Nova Zelândia, a quem acusavam de cumplicidade com a segregacionista África do Sul, empobreceu os Jogos de Montreal (1976). Com quenianos e etíopes fora do atletismo, a estrela dos Jogos foi uma ginasta romena de 14 anos que não tardaria a tornar-se uma bandeira do regime ditatorial de Nicolae Ceausescu. Este é o vigésimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • As lágrimas do urso Misha

    Jogos Olímpicos

    Os primeiros Jogos realizados num país socialista foram boicotados por 65 países do bloco capitalista. “Brilhantemente organizados”, disse o presidente do Comité Olímpico Internacional, os Jogos Olímpicos de Moscovo, em 1980, “foram tristes”. Este é o vigésimo primeiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Medalha de ouro para a iniciativa privada

    Jogos Olímpicos

    A ausência da União Soviética e de mais uns quantos aliados, em retaliação ao boicote capitalista aos Jogos de Moscovo, não impediu que Los Angeles 1984 fosse um enorme sucesso. Desportivo e comercial... O transporte do facho olímpico, no tradicional percurso desde Olímpia, foi vendido a 3000 dólares por quilómetro. Este é o vigésimo segundo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Do céu ao inferno por causa do doping

    Jogos Olímpicos

    Nos Jogos de Seul (1988), que a certa altura a Coreia do Norte quis coorganizar, o canadiano Ben Johnson atingiu o olimpo após derrotar o seu grande rival, Carl Lewis, nos 100 metros. Horas depois, era mandado para casa, vergado ao vexame do doping. Este é vigésimo terceiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Todos juntos, África do Sul incluída

    Jogos Olímpicos

    Pela primeira vez em muito tempo, não houve qualquer boicote aos Jogos Olímpicos. Pelo contrário, o número de países participantes aumentou como consequência da nova geografia política nascida após a queda do Muro de Berlim. Para a África do Sul, Barcelona 1992 foi o princípio do fim do seu isolamento. Este é o vigésimo quarto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Celebrar a herança grega, mas não na Grécia

    Jogos Olímpicos

    Cem anos após os primeiros Jogos da era moderna, a edição do Centenário escapou à Grécia por razões comerciais. Atlanta, a cidade da Cola Cola e da CNN, levou a melhor sobre a opção do coração e recebeu os Jogos de 1996. Este é o vigésimo quinto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época