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“Dentro de água mantenham a boca fechada”: canos rotos, piscinas verdes, algas, doping e poças de água

O porta-voz do Comité Olímpico Internacional disse que foram “os mais perfeitos dos Jogos imperfeitos” para caracterizar o maior evento desportivo do mundo que se realizou este ano no Rio de Janeiro e que tinha tudo para correr mal. No fim, feito o balanço, ninguém foi capaz de falar em descalabro ou insucesso. Mas houve falhas, muitas, que se esbateram com o tempo. A Tribuna Expresso apresenta-lhe outro dos 10 acontecimentos desportivos de 2016 que mais vale esquecer em 2017

Alexandra Simões de Abreu

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Os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro foram o evento deste ano cuja probabilidade de correr mal teve direito a pré-anúncio. Primeiro, os alertas sobre o vírus do zika, que levaram alguns atletas a desistir da participação olímpica;depois, o evidente atraso nas obras das infraestruturas; a seguir, temeram-se graves problemas de segurança; e, por fim, surgiram as queixas dos atletas sobre falta de água e de luz na Aldeia Olímpica.

Isto ainda antes dos JO terem início.

Com o decorrer da competição a memória destes problemas foi encurtando até que, no final, foi quase unânime a ideia de que os Jogos que tinham tudo para dar errado, afinal até nem correram tão mal assim. O presidente do Comité Olímpico Internacional (COI) considerou mesmo que o Brasil organizou “uns Jogos Olímpicos inesquecíveis e icónicos”.

Os brasileiros, com a sua descontração e alegria, conseguiram transformar o caos em êxito. Ainda assim houve situações caricatas, escandalosas, desesperantes ou vergonhos impossíveis de esquecer. Recordamos algumas.

Infraestruturas

Alguns dos primeiros atletas a instalarem-se na Aldeia Olímpica depararam-se com apartamentos que não tinham gás ou eletricidade, enquanto outros encontraram poças de água ao pé da cama. Depois das primeiras reclamações, tudo foi entrando nos eixos e as criticas sobre canos rotos e falta disto e daquilo desapareceram com o decorrer da competição para regressar apenas no último dia, com novos relatos de falta de água e de luz na Aldeia Olímpica.

Transportes

Foi talvez a maior dor de cabeça durante todo o evento para o público, os atletas, equipas e organização. Desde autocarros que não arrancavam porque não havia motoristas, condutores que não sabiam o caminho, horários que não eram cumpridos, trajetos que mudavam diariamente, enormes filas de espera, engano nos preços dos bilhetes, aconteceu de tudo em matéria de transportes. Nem as vias olímpicas criadas para fazer fluir o trânsito conseguiram evitar muitas vezes o caos, deixando muitos à beira de um ataque de nervos.

Comida

Em terra de abundância houve escassez. Em complexos como o do ténis, a comida e as bebidas além de serem vendidas a preços exorbitantes, esgotaram, por vezes, em menos de uma hora. Noutras arenas/pavilhões a comida chegou a esgotar antes de uma prova começar, sendo as pessoas obrigadas a sair para comprar e voltar depois.

Mario Tama

Águas poluídas

As águas poluídas da baía de Baía de Guanabara e da Lagoa Rodrigo de Freitas deixaram envergonhados os brasileiros. O alerta partiu dos próprios especialistas em saúde pública brasileiros que ao “The New York Times” deixaram um conselho a nadadores e velejadores: “Dentro de água mantenham a boca fechada”. Os testes realizados por entidades governamentais e cientistas independentes detetaram desde rotavírus (causador de diarreias e vómitos) a bactérias multirresistentes. A frase: “Os atletas irão nadar literalmente em fezes humanas, e correm o risco de adoecer”, dita ao “The New York Times” pelo pediatra Daniel Becker, causou grande impacto e embaraço, mas no final não houve sinais de contaminação.

Doping

A polémica já estava instalada. A suspensão de quase 70 atletas russos à beira do início dos JO, não evitou que outros casos surgissem durante o evento. Assim que vieram a público os resultados dos primeiros testes realizados durante a competição, apareceram casos. O halterofilista Izzat Artykov, do Quirguistão, foi o primeiro atleta a perder uma medalha devido a doping. Mas, verdade seja dita, comparados com os Jogos de Londres 2012, esta edição do Rio 2016 foi uma competição “mais limpa”. Foram apenas 11 casos de doping contra 39 ocorridos nos Jogos anteriores. Porém, já depois de terminarem, os JO do Rio ficaram ensombrados à conta de um grupo de hackers denominado Fancy Bears que revelou os laudos médicos confidenciais de 25 atletas. Os “Anonymous do doping” invadiram o site da WADA (Agência Mundial Antidoping) e distribuíram documentos sobre Exceções de Uso Terapêutico de atletas como, por exemplo, a ginasta norte-americana Simone Biles, que conquistou cinco medalhas no Rio. Mesmo que as substâncias usadas por aqueles atletas estejam justificadas, a verdade é que torna-se quase impossível eliminar a dúvida que ficou a pairar no ar.

CHRISTOPHE SIMON

Piscina verde e algas

No mínimo foi caricato. De uma dia para o outro a piscina de salto para a água passou misteriosamente de azul a verde. As imagens do mistério correram mundo e foram motivo de especulação e paródia (até pelos Simpsons). Até que veio a justificação: “proliferação inesperada de algas na piscina”. Segundo a organização, o problema agravou-se repentinamente por causa dos ventos fortes na região onde fica o Centro Aquático Maria Lenk.

Organização

Além dos problemas com as insfraestruturas, a impreparação dos voluntários que para quase todas as perguntas respondiam “Não sei”, foi outra das notas negativas dos JO do Rio. Assim como as filas. Quase sempre havia filas para tudo, para entrar no Parque Olímpico, nos pavilhões/arenas, para comer, para beber, para apanhar transporte. Outra nota muito negativa foram os casos de assaltos, mortes e balas perdidas nas proximidades de áreas olímpicas que evidenciaram problemas estruturais da cidade que o maior evento desportivo do mundo não conseguiu travar, embora também não tenha sido a desgraça que muitos chegaram a vaticinar.

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