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Nacionalidade: nigeriana. Desporto: trenó no gelo. Objetivo: fazer história olímpica

Há um grupo de nigerianas que está a comover África – já não falta muito para se qualificar como a primeira equipa de “bobsled” daquele continente a chegar aos Jogos Olímpicos de inverno. À Tribuna Expresso, a condutora explica o que é isto de “andar numa montanha russa de olhos abertos” – e mostra-se confiante na qualificação

Mariana Lima Cunha

A primeira equipa africana de “bobsled”: Akuoma Omeoga, Seun Adigun e Ngozi Onwumere

Foto cortesia das atletas

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Já imaginou a sensação de andar numa montanha russa de olhos abertos, enquanto joga um videojogo de corridas de carros, montado num carrinho de choque? Provavelmente não, mas isso é porque não conhece o “bobsled” – um desporto olímpico de inverno que consiste em subir para um trenó que se desloca pela força da gravidade e percorrer uma pista de gelo apertada e cheia de curvas, com velocidades que chegam a uns impressionantes 130 quilómetros por hora.

“Não existe realmente outro sentimento que possa usar para descrever como é conduzir este trenó”, insiste à Tribuna Expresso Seun Adigun, autora da descrição que usámos para começar este texto. Afinal, ela deve ser a pessoa certa para nos descrever os sobressaltos de completar corridas destas, uma vez que a nigeriana está prestes a fazer história – se conseguir completar as próximas provas de qualificação, Seun levará a sua equipa de “bobsled” aos Jogos Olímpicos de Inverno de 2018, em Pyeongchang, na Coreia do Sul.

Foto cortesia das atletas

“Eu já sabia que nunca tinha havido atletas olímpicos de inverno pela Nigéria, mas apercebi-me de que nunca tinha havido nenhum país africano a competir neste desporto nuns Jogos Olímpicos de Inverno”, explica Seun sobre os tempos em que era a responsável pelos travões na equipa feminina norte-americana de “bobsled”. “Nesse momento, percebi que era minha missão iniciar o que se tornaria uma equipa feminina histórica”: é que esta não só é a primeira equipa desta especialidade na Nigéria, como também em todo o continente africano.

O primeiro passo foi arranjar parceiras de equipa que tivessem, como ela, a coragem de se aventurar num desporto em grande parte desconhecido, sem federação ou apoios na Nigéria. Seun começou por conhecer a colega Ngozi Onwumere quando era treinadora adjunta da equipa de atletismo da Universidade de Houston, em 2009. A elas acabou por se juntar Akuoma Omeoga, antiga estrela do atletismo na Universidade do Minnesota: “Para minha surpresa, não foi preciso muito para as convencer a juntarem-se a mim nesta aventura”. Ambas são, como Seun, de origem nigeriana e residentes nos Estados Unidos, estado do Texas.

150 mil dólares para fazer história

Seun não é uma novata nestas lides – a atleta, que quando era pequena sonhava tornar-se a primeira mulher a competir na NBA, representa desde 2009 a Nigéria em competições internacionais, tendo participado nos Jogos Olímpicos de 2012. Em 2015 sentia-se pronta para a reforma, sendo uma estudante a tempo inteiro (com um doutoramento em quiroprática e um mestrado em ciência do desporto). Mas foi então que Seun se viu atingida de novo pela “febre olímpica”, como descreve – e começou a reunir colegas e fundos para um desporto “extremamente caro”.

Foi por isso que criou, em novembro passado, uma página de crowdfunding onde tenta angariar 150 mil dólares no caminho que leva a Pyeongchang – os gastos estão detalhados, e incluem um trenó, tempo de treinos em gelo, transportes e alojamentos. A equipa tem treinado usando uma técnica que Seun inventou, a que deu o nome de “Mayflower”, usando um trenó de madeira, durante os treinos no Canadá. Planeia mudar-se para uma casa mais barata, para reduzir custos e conseguir financiar um sonho improvável.

Até 2018, a qualificação está nas mãos – e nos pés, e sobretudo na cabeça – de Seun, que, enquanto condutora, assume “o papel de líder da equipa”. “Dado que o desporto gira à volta da minha capacidade para qualificar a equipa, passo a maior parte do tempo a certificar-me de que tudo está em ordem. A parte mais difícil de me preparar enquanto condutora é ser capaz de limpar a mente e manter 100% de concentração durante um período de tempo consistente”.

A qualificação começou já na temporada 2016/2017, explica a condutora, mas ainda dura: “Tenho de completar cinco corridas em três pistas diferentes durante duas temporadas. Até agora estou a meio do caminho, com muitas oportunidades de completar isto antes do próximo mês de janeiro. Estou muito confiante em que consigo fazê-lo”, assegura. Essas corridas costumam acontecer durante “a temporada entre novembro e março, enquanto ainda está frio no exterior”, mas não há um tempo ideal que se queira atingir: “Não há tempo considerado ‘bom’, porque cada pista é diferente. Os condutores podem atingir os 130 quilómetros por hora numa corrida ou treino”.

Uma aventura “absolutamente inspiradora”

Por agora, o vento parece correr no melhor sentido para Seun, Onwumere e Omeoga, com metade das corridas feitas e o crowdfunding a ajudar – apesar de ainda não terem chegado ao objetivo, com 20 dos 150 mil dólares reunidos, a condutora garante: “a temporada de 2016 e 2017 foi em grande parte possível por causa de todo o apoio que recebemos na nossa campanha ”. A Nigéria também se entusiasma e dá apoio, “pelo menos moral”, a esta equipa e a uma federação que terá de ser construída de raiz, sem precedentes.

As três aventureiras já parecem ter criado uma espécie de movimento: nos jornais a história de ambição faz sucesso e nas redes sociais partilham vídeos dos treinos, mas também momentos de dança improvisada e muitas gargalhadas, para que os fãs acompanhem a aventura. “É absolutamente inspirador para nós e para as pessoas que têm seguido a nossa história”, explica Seun, dando esta batalha por ganha graças aos novos adeptos de “bobsled” que apareceram nos últimos meses. “As melhores reações até agora foram de crianças. Um miúdo pediu se eu podia autografar a testa dele com a minha caneta de tinta indelével!.”

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