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Muita neve, tecnologia 5G e um ‘c’ maiúsculo para guiar os atletas dos Jogos Olímpicos de Inverno até à Coreia certa

Nos anos 80, os Jogos Olímpicos de Seul foram, para a Coreia do Sul, um palco de debute internacional após décadas de ditadura. Consolidada a democracia, o país quer agora impressionar com a sua capacidade tecnológica. Os Jogos de Inverno, em PyeongChang (assim mesmo, com um 'c' maiúsculo pelo meio), que começam esta sexta-feira (a RTP2 transmite a abertura às 11h), são a montra

Margarida Mota

Durante o processo de candidatura aos Jogos, o “c” de PyeongChang foi transformado em maiúscula para que a cidade não fosse confundida com a capital norte-coreana, Pyongyang

Chung Sung-Jun / Getty Images

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Há precisamente 30 anos, a Coreia do Sul entrava para o clube restrito dos países organizadores dos Jogos Olímpicos. Seul acolhia a 24ª edição de verão, a última dos tempos da Guerra Fria, marcada pelo fim dos boicotes políticos em larga escala que feriram os Jogos de Montreal (1976), Moscovo (1980) e Los Angeles (1984). Marcada também pela entrada “em prova” do doping, que atiraria para fora das pistas o velocista canadiano Ben Johnson, que entrara no Olimpo precisamente em Seul.

Para os portugueses, Seul foi inesquecível pelo ouro conquistado por Rosa Mota, na maratona. Para os sul-coreanos, o evento foi, acima de tudo, uma festa de debutante para um país que acabara de conquistar a democracia, após décadas de governos autoritários, e uma montra das capacidades do seu povo.

“O principal objetivo dos Jogos de Seul foi o aumento da visibilidade global da Coreia do Sul. E uma das grandes consequências foi o acelerar da democratização da sociedade sul-coreana”, diz ao Expresso Alan Bairner, professor de Teoria do Desporto e da Vida Social, na Universidade Loughborough (Reino Unido). Inversamente, “os Jogos nada fizeram para melhorar as relações entre as duas Coreias e podem até ter contribuído para isolar ainda mais a Coreia do Norte e torná-la um país voltado para dentro.”

Em junho de 1987, a sensivelmente um ano dos Jogos, manifestações gigantescas por todo o país desafiaram o regime de Chun Doo-hwan que, aos olhos do povo, perdera toda a legitimidade moral desde o massacre de Kwangju, em 1980 (mais de 2000 mortos). Os protestos eram o culminar de anos de turbulência que chegaram a fazer soar os alarmes na sede do Comité Olímpico Internacional (COI), em Lausana (Suíça): se a desordem se generalizasse em Seul, os Jogos mudariam de local, alertou o presidente do COI, o catalão Juan Antonio Samaranch.

Em vésperas de ter sobre si as atenções do mundo, o regime sul-coreano acusou a delicadeza da situação e conteve-se na repressão aos protestos. A 29 de junho, chegava a tão aguardada notícia que acalmaria as ruas: ainda antes dos Jogos, haveria eleições presidenciais, por voto direto e universal.

Apresentação do país ao mundo

“Organizar os Jogos Olímpicos teve um grande efeito psicológico junto dos sul-coreanos que encararam o evento como ‘a prova do reconhecimento internacional de que a Coreia era uma nação a caminho do progresso’”, diz ao Expresso Lee Dae-teak, professor de Convergência de Engenharia Desportiva, na Universidade Kookmin, Seul. “O país estava, oficialmente, a ser apresentado ao mundo e a mostrar as suas capacidades. Governo e população deram o seu melhor e sentiram um grande orgulho” no que foi feito.

À semelhança do que acontecera com o Japão, o primeiro país asiático a organizar os Jogos, em 1964, que não se poupou a esforços para honrar a sua reintegração na comunidade das nações, após a derrota na II Guerra Mundial, e mostrar ao mundo o milagre económico — construindo recintos modernos e colocando a eletrónica ao serviço do desporto —, a Coreia do Sul esperava que os Jogos de 1988 confirmassem a sua maioridade democrática e o seu potencial económico. Não por acaso, quem liderou a comissão de candidatura de Seul foi Chung Ju-yung, fundador do grupo Hyundai, um dos famosos conglomerados sul-coreanos (“chaebol”), como a Samsung e a LG.

Uma carruagem do metro de Seul “transformada” numa pista de “curling”, uma das modalidades olímpicas de inverno

Uma carruagem do metro de Seul “transformada” numa pista de “curling”, uma das modalidades olímpicas de inverno

Chung Sung-Jun / Getty Images

Trinta anos depois, a Coreia do Sul volta a organizar uns Jogos Olímpicos, desta vez de inverno, entre 9 e 25 de fevereiro, na cidade de PyeongChang, 700 metros acima do nível do mar.

“Não há tanto entusiasmo como antes. Na verdade, antes de ser anunciada a participação da Coreia do Norte, a popularidade do evento em PyeongChang era muito baixa”, continua Lee Dae-teak. “Em 1988, muitos coreanos pensavam que os Jogos eram necessários, já que nos davam uma oportunidade para aparecermos e nos afirmarmos. Com essa experiência, os coreanos abriram os olhos ao mundo e perceberam que faziam parte dele. Hoje, com PyeongChang, factores como ‘os primeiros Jogos’ ou ‘a nossa apresentação’ ou ainda ‘a competitividade da Coreia’ não são mais atrativos. Talvez o único interesse seja os Jogos de inverno em si mesmos. Julgo que estes serão os últimos Jogos que os coreanos organizam desta maneira... ou seja, ‘organizar primeiro e pensar depois’! Gastámos demais e estamos pouco conscientes de que não valem tanto como os de 1988.”

A mascote dos Jogos, Soohorang, um tigre branco. Na mitologia coreana, o tigre simboliza confiança, força e proteção

A mascote dos Jogos, Soohorang, um tigre branco. Na mitologia coreana, o tigre simboliza confiança, força e proteção

Kim Hong-Ji / Reuters

A convite da Korea Foundation, o Expresso visitou o Parque Desportivo de Alpensia, onde decorrerão provas de esqui. Numa apresentação para jornalistas europeus, Nancy Park, a porta-voz do evento, salientou a forte aposta na tecnologia com que PyeongChang pretende deslumbrar o mundo. “Seremos os primeiros Jogos a providenciar serviços de telecomunicações em 5G, que presentemente é 20 vezes mais rápido do que 4G”, disse.

Haverá um autocarro com acesso à quinta geração de telemóveis, realidade virtual de 360 graus (com óculos que permitem envolver num cenário virtual), visão omnidirecional a partir do ponto em que se encontram os atletas, imagens 3D sem óculos e hologramas. Robôs humanoides farão tarefas de relações públicas, prestarão informações e trabalharão como porteiros. Um robô já participou no transporte da tocha olímpica.

No plano desportivo, PyeongChang organizará provas em 15 modalidades, para atletas de 93 países — os russos competirão sob bandeira olímpica. Portugal estará presente com dois atletas: Ke Quyen Lam, em Esqui Cross Country, e Arthur Hanse, em Esqui Alpino.

Em Alpensia, saltam à vista alguns cuidados com os custos do evento. Com 150 metros de altura, a torre dos saltos de esqui, por exemplo, está integrada no complexo do Gangwon Football Club. Após descerem a pista de saltos, os esquiadores caem sobre o relvado daquele clube da primeira divisão sul-coreana, por estes dias sob um manto de neve.

Após descerem a pista de saltos, no Parque Desportivo de Alpensia, os esquiadores caem sobre o relvado do Gangwon Football Club, por estes dias coberto de neve

Após descerem a pista de saltos, no Parque Desportivo de Alpensia, os esquiadores caem sobre o relvado do Gangwon Football Club, por estes dias coberto de neve

Margarida Mota

Nancy Park refere que as infraestruturas já têm destino após o evento. “Dos 12 locais de competição, seis já existiam anteriormente, estão a ser utilizados há anos. Em relação aos outros, temos planos para todos. Os apartamentos onde vão ficar os atletas e a ‘aldeia dos media’ já foram totalmente vendidos. Depois dos Jogos, haverá gente a ocupá-los.”

Mas PyeongChang não escapa ao desperdício. Com capacidade para 35 mil lugares — na cidade vivem pouco mais de 40 mil pessoas —, o estádio olímpico será desmantelado após o evento. Servirá apenas para acolher as cerimónias de abertura e encerramento (também dos Jogos Paralímpicos, que decorrerão entre 9 e 18 de março).

“Gastamos muito orçamento, algo que não é razoável nem explicável”, diz o professor Lee Dae-teak. “Construímos várias infraestruturas novas que poderiam ter sido construídas ou reconstruídas noutras cidades” — uma possibilidade viabilizada pela Agenda 2020, do COI, que visa, entre outros, racionalizar custos com a organização dos Jogos Olímpicos. “A província de Gangwon e o Governo não aceitaram essa opção. Muitas infraestruturas não terão um uso efetivo após os Jogos. E exigirão gastos com manutenção. Decidiram construir uma nova encosta alpina para ser usada apenas cinco dias e numa montanha que era área natural protegida há 500 anos.”

Fatura emitida aos contribuintes

Nos dias que correm, organizar os Jogos Olímpicos não é mais (apenas) uma questão de orgulho e poder. O dispêndio de milhões em infraestruturas, que muitas vezes ficam depois ao abandono, e a degradação das aldeias olímpicas, que transformam locais de glória em cidades fantasma, é cada vez mais questionado pelas populações de potenciais cidades anfitriãs.

A própria ideia de que os Jogos arrastam benefícios sem fim para os municípios que os acolhem foi sendo contrariada por experiências mal sucedidas. A maioria dos países organizadores sofreu o chamado “efeito de vale”, recebendo grandes investimentos no período que antecedeu o evento e uma queda abrupta dos mesmos no período subsequente. Nalguns casos, os contribuintes foram chamados a pagar pesadas faturas durante muitos anos, como os canadianos que só em 2006 acabaram de pagar o imposto relativo aos custos dos Jogos Olímpicos de Montreal, realizados em... 1976.

Recolha de assinaturas, no centro de Budapeste, contra a candidatura da capital húngara aos Jogos Olímpicos de 2024

Recolha de assinaturas, no centro de Budapeste, contra a candidatura da capital húngara aos Jogos Olímpicos de 2024

Laszlo Balogh / Reuters

No ano passado, os habitantes de Budapeste mostraram um cartão vermelho à realização dos Jogos na capital da Hungria. A cidade tinha em curso uma candidatura à edição de 2024 quando uma petição assinada por mais de 250 mil pessoas e manifestações nas ruas questionaram esse interesse. A Hungria acabaria por retirar-se da corrida, deixando o “sprint” final para Paris e Los Angeles: numa decisão inédita, a capital francesa ficou com os Jogos de 2024 e a cidade norte-americana com a edição seguinte, de 2028. Com esta fórmula de atribuição dos Jogos, o COI esquece-se, durante algum tempo, que o rol de cidades interessadas em receber o evento é cada vez mais pequeno.

“Ironicamente, um dos exemplos mais antigos de uma derrota de uma potencial cidade anfitriã em grande parte devido à oposição popular foi Nagoya, no Japão, que abriria caminho à vitória de Seul. Nagoya não se retirou mas simplesmente não tinha apoio local como Seul”, explica Alan Bairner. “É cada vez mais difícil para cidades pequenas justificar a organização de grandes eventos desportivos devido aos custos envolvidos e à necessidade de pesadas medidas de segurança. Isso pode explicar por que razão estes eventos estão, mais do que nunca, a realizar-se em países mais autoritários, como a Rússia [Jogos de inverno de 2014, em Sochi, e Mundial de Futebol de 2018] e a China [Jogos de verão de 2008 e de inverno em 2022, ambos em Pequim] que podem dar-se ao luxo de os acolher e já têm grandes operações de segurança dentro de portas.” O Mundial do Qatar em 2022 é outro exemplo.

Coreia do Sul 1 — Portugal 0

Entre as duas jornadas olímpicas, a Coreia do Sul acolheu também o Mundial de Futebol de 2002 (co-organizado com o Japão) e o Campeonato do Mundo de Atletismo, em 2011, em Daegu. Em todo o mundo, apenas mais quatro países tiveram capacidade organizativa para montar todos estes grandes eventos: Alemanha, França, Itália e Japão.

O Mundial de Futebol foi especial a vários níveis. Um misto de orgulho nacional e de dinâmica de grupo empurrou a seleção da casa até às meias finais. “Foi talvez o símbolo mais forte da nova era. O sucesso imprevisto da equipa nacional no campo correspondia à extraordinária energia dos cidadãos na demonstração do seu apoio coletivo, traduzido em multidões de pessoas nas ruas quando a seleção nacional jogava”, lê-se no livro “A History of Korea”, de Kyung Moon Hwang (Palgrave Macmillan, 2010).

Treinada pelo holandês Guus Hiddink, a equipa sul-coreana excedeu as expectativas, levando milhões a encherem praças, parques e outros espaços públicos para assistir às partidas em ecrãs gigantes. “Quando a equipa nacional, um competidor insignificante, venceu Portugal [1-0], um dos favoritos do Mundial, e avançou para os oitavos de final, essas multidões entraram em erupção, e cresceram ainda mais no jogo seguinte contra a Itália, outra potência perene”, continua o autor. A Coreia do Sul venceu a fase de grupos — deixando pelo caminho Portugal, treinado por António Oliveira —, nos oitavos derrotou a Itália de Cannavaro, Gattuso e Del Piero e nos quartos de final a Espanha de Casillas, Hierro e Raúl.

À medida que as ruas se enchiam de ansiedade e euforia, “tornava-se claro que essas grandes concentrações de pessoas iam muito além do futebol; diziam respeito a um desejo incontrolável de experimentar diretamente um novo modelo de conexão social”. A Coreia do Sul ficaria em quarto lugar (perdeu o último lugar do pódio para a Turquia) e o torneio seria ganho pelo Brasil, que conquistou o penta após derrotar a Alemanha por 2-0.

Festejos em Seul, após a vitória da Coreia do Sul sobre Portugal, a 14 de junho de 2002, no Mundial de futebol

Festejos em Seul, após a vitória da Coreia do Sul sobre Portugal, a 14 de junho de 2002, no Mundial de futebol

Getty Images

Para os sul-coreanos, estes grandes eventos são também uma forma de esclarecerem equívocos em relação à sua identidade. Quando Pyeongchang se aventurou na corrida olímpica, “o comité de candidatura decidiu transformar em maiúscula o ‘c’ do nome da cidade”, diz ao Expresso Songjae Lim, membro do comité organizador. A medida visou criar uma distinção, pelo menos visual, que minimizasse uma confusão recorrente entre Pyeongchang e Pyongyang, a capital norte-coreana, e acautelar que todas as delegações aterrassem na Coreia certa...

A medida não foi 100% eficaz e, ainda no ano passado, um jato empresarial da Gulfstream, transportando patrocinadores dos Jogos, foi notícia ao aterrar por engano na Coreia do Norte. “Paramos na pista e o piloto comunicou-nos o erro. Ficamos estarrecidos com o que nos poderia acontecer”, recordaria um dos oito passageiros. “Ele disse-nos que ficassemos sentados e calmos. Um tripulante de cabine abriu a porta e pudemos ver homens armados em uniforme em frente ao avião.”

Foram mandados descer do aparelho e as malas inspecionadas. O profuso “merchandising” olímpico que transportavam contribuiu para um rápido esclarecimento do equívoco. E lá seguiram viagem para a Coreia do Sul.

Pior sorte teve o queniano Daniel Olomae Ole Sapit, membro da tribo maasai, registado para participar numa conferência das Nações Unidas sobre Biodiversidade, em outubro de 2014, em PyeongChang. Quando o avião em que seguia iniciou a descida, começou a temer o pior ao não conseguir vislumbrar a grande e moderna cidade de Seul que tinha em mente. Aterrou em Pyongyang, foi detido durante mais de quatro horas, mas tudo se resolveu a bem. Pagou cerca de 500 dólares para garantir o regresso e assinou um documento prometendo jamais voltar a entrar na Coreia do Norte sem visto. Em declarações ao jornal “The Wall Street Journal”, diria: “Pyongyang, PyeongChang... para um africano, que diferença faz?”