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Quem é a mulher sobre a qual pouco se sabe e que pode fazer a diferença quando atravessar o Paralelo 38

Kim Yo-jong não tem mais de 30 anos e é a mais nova da dinastia Kim. A irmã do líder norte-coreano Kim Jong-un é provavelmente das pessoas que o conhece melhor, viveram juntos nos tempos de faculdade na Suíça. Mas Kim Yo-jong não é só a irmã do líder, é vice-presidente do departamento de propaganda e uma importante peça dentro do partido

Marta Gonçalves

Kim Yo-jong com o irmão

KCNA/EPA

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Parece uma menina que nas poucas vezes que surge em público anda sempre alguns passos atrás do irmão mais velho. Kim Yo-jong tem entre 28 e 30 anos – é pelo menos o que se diz, porque em assuntos da Coreia do Norte quase nunca há certezas – e é a irmã mais nova do homem que lidera o país mais fechado do mundo, Kim Jong-un. Dela há poucas imagens. Entrevistas não existem. Mas muito em breve, as atenções vão estar viradas para ela quando atravessar o paralelo 38 (a zona desmilitarizada da Coreia). Ela é “o verdadeiro poder” da delegação norte-coreana que viaja até à Coreia do Sul a propósito dos Jogos Olímpicos de Inverno.

Há uns dias que Pyongyang surpreendeu ao anunciar que o país iria participar na competição internacional. Esta quarta-feira, ficou a saber-se que entre o corpo diplomático que chega na próxima sexta-feira à Coreia do Sul está Kim Yo-jong, que mais do que irmã “do grande líder”, é uma figura importante dentro do partido no Governo, estando encarregue da imagem e propaganda do regime.

“Acreditamos que o anúncio do Norte mostra as suas intenções em aliviar a tensão na península coreana e passa também a mensagem de celebração dos Jogos Olímpicos de Inverno em PyeongChang”, considerou fonte da presidência da Coreia do Sul, citada pelo jornal “The Washigton Post”.

O facto de entre os 22 membros da delegação que participa na cerimónia de abertura estar um elemento da família Kim está a ser considerado na imprensa internacional como uma abertura do regime, mas por outro lado alguns analistas sublinham que Kim Yo-jong faz parte também do departamento de propaganda de Pyongyang. “Um dos aspetos positivos é que é alguém que consegue passar diretamente a mensagem em nome do irmão. O que é problemático é que viaja com Choe Hwi [vice-presidente do partido]. Deixa-me preocupada que queiram usar a visita como uma ferramenta de propaganda em vez de usar como uma possibilidade para dialogar com a Coreia do Sul”, refere Shin Beom-chul, professora da Korea National Diplomatic Academy, em Seoul, citada pelo “The Guardian”.

Quem é Kim Yo-jong?

Nem a idade certa de Kim Yo-jong se sabe. Será cerca de quatro anos mais nova que Kim Jong-un. Nos últimos tempos, sobretudo nos meses recentes, a sua importância dentro do Partido dos Trabalhadores, liderado pelo irmão, cresceu.

Começou por ser uma das responsáveis pela imagem de Kim Jong-un, juntamente com a meia irmã de ambos, Kim Sul-song. As duas fazem parte de um reduzido número de pessoas do núcleo pessoal do líder. Entretanto, foi-lhe entregue o cargo de vice-presidente do departamento de propagando do partido.

Quando em meados de 2014 Kim Jong-un desapareceu por uns tempos da vida pública – e muito se falou na possibilidade de estar gravemente doente -, Kim Yo-jong foi várias vezes falada para uma eventual substituição no cargo. Mas os rumores não passaram disso mesmo e Kim Jong-un continua à frente do país, e Kim Yo-jong, mantém-se como uma das suas peças centrais no gabinete do irmão.

Em outubro do ano passado, avançou a Reuters, foi promovida para o politburo, o órgão mais importante na tomada de decisões do Partido dos Trabalhadores da Coreia e, consequentemente, do país.

Segundo Michael Madden, investigador na área da política coreana, citado pela BBC, Kim Yo-jong é descrita como uma pessoa doce, naturalmente bem disposta com um toque de maria-rapaz. O seu percurso académico foi muito protegido – um pouco à semelhança do que aconteceu também com o irmão – e não mantém grandes relações com outros membros da família Kim. No entanto, é possivelmente uma das pessoas mais próximas do líder da Coreia do Norte, os dois estudaram e viveram juntos na Suíça no final dos anos de 1990.

Nesses tempos, estava sempre acompanhada por seguranças. Chegou a acontecer apanhar uma pequena constipação e ser retirada de imediato da instituição para ser levada ao hospital, recordaram alguns funcionários da escola suíça onde estudou.

Hoje, Kim Yo-jong é um dos nomes presentes na lista de sanções dos Estados Unidos, que alegam que está associada à violação de direitos humanos na Coreia do Norte. Qualquer cidadão norte-americano está proibido de fazer transações comerciais com ela e todos os seus bens e propriedades no país foram congelados.

Na próxima sexta-feira, irá ser uma das protagonistas da comitiva de Pyongyang nos Jogos Olímpicos de Inverno. O mundo estará de olhos postos nela. Por agora, ainda não é conhecida a agenda da irmã de Kim Jong-un, sabe-se apenas que irá estar muito próxima de Mike Pence, vice-presidente dos EUA, que também participará na cerimónia (mas para já não estão previstas conversas). Quanto a um possível encontro com Moon Jae-in, Presidente da Coreia do Sul, teremos que esperar.

Kim Jong-un será a primeira da dinastia Kim a atravessar o paralelo 38 desde o fim da Guerra da Coreia em 1953.