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A terceira mulher da história a patinar, saltar, fazer três rotações e meia no ar e aterrar no gelo

É o único salto na patinagem artística no gelo em que a atleta parte de frente e executa três rotações e meia antes de - e se - aterrar. Mirai Nagasu, de 24 anos, aterrou um triplo Axel, o salto mais difícil que há, e tornou-se a primeira americana, e apenas a terceira mulher, a consegui-lo na história dos Jogos Olímpicos de inverno

Diogo Pombo

ARIS MESSINIS

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“A nível internacional, sou eu e a Tonya Harding.”

Para despachar já quem menos interessa para esta história, Tonya Harding é uma ex-campeã americana, competiu nos anos 80 e 90 do século passado, esteve nos Jogos Olímpicos de inverno e foi uma grande atleta, tão grande quanto a polémica maldosa em que esteve envolvida, em 1994: ela e o marido orquestraram um plano para que, após um treino, um tipo atacasse Nancy Kerrigan, a sua maior rival, para lhe partir uma perna e retirá-la da competição.

Sobre a controvérsia, o frenesim mediático e o feitio peculiar da antiga patinadora existe um filme, “I, Tonya”, que teve honras de nomeação para os Óscares e que pode ir ver se quiser aprofundar o seu conhecimento sobre Harding. Para já, importa reter que ela é uma de oito mulheres na história da patinagem artística no gelo, e a primeira americana, a lograr um triplo axel a nível internacional - e por isso foi mencionada por Mirai Nagasu.

Elas são as únicas americanas que já aterraram, em competição, o salto mais difícil que há na patinagem artística sobre o gelo. “É diferente de tudo o resto, porque o ponto de partida é frontal. Quando estou no ar, tenho de rodar três vezes e meia, esperar pelo melhor e depois aterrar no meu pé direito, sempre”, resumiu Mirai Nagasu, ao site Players’ Tribune, algo profeticamente, sobre a manobra que iria “ser a única a tentar”.

E, pelos vistos, a aterrar - na madrugada desta segunda-feira, a patinadora americana tornou-se na terceira mulher a lograr este salto na história dos Jogos Olímpicos de inverno.

No evento por equipas, Mirai tentou, e aterrou, o saltou logo nos primeiros segundos do seu ensaio, acabando com uma pontuação de 137.53 que ajudou os EUA a conquistarem a medalha de bronze, atrás da Rússia e do Canadá, que venceu a prova. Nagasu fechou o salto e, ao terminar o seu ensaio, rasgou um sorriso e atirou os braços para o ar de contentamento (como dá para intuir na imagem deste artigo). "Sabia que tinha de ter algo especial. Ser a primeira americana a aterrar o tripo axel nos Jogos Olímpicos e ninguém me pode tirar isso", exaltou, no final.

O feito ter-lhe-á sido ainda mais especial por vários motivos, além dos óbvios.

Há quatro anos, Mirai Nagasu falhou os Jogos Olímpicos de Sochi, na Rússia, ao ser preterida pela patinadora que ficara em quatro lugar nas provas de qualificação americanas, apesar de ela ter registado um terceiro lugar (em 2010, esteve presente nos Jogos de Vancouver, no Canadá) .

Depois, o triplo axel, fora toda a dificuldade inerente - a maioria dos saltos na patinagem artística são à retaguarda - é um salto que a americana aterrou com sucesso, pela primeira vez, apenas em setembro último.

Nagasu partilha algo com as duas patinadoras anteriores que aterraram o salto em Jogos Olímpicos de inverno: têm genes japoneses e o triplo axel não lhe chegou para levarem a medalha de ouro para casa. Midori Ito, em 1992, teve de se contentar com a prata em Altertville, França, antes de Mao Asada, em 2010, aterrar o salto por três ocasiões e, mesmo assim, sair de Vancouver, no Canadá, também apenas coberta em prata.

Mirai Nagasu, a patinadora de 24 anos, filha de emigrantes japoneses nos EUA, que até têm um restaurante de sushi na Califórnia, onde batizaram um prato como "olympic roll", em sua honra, está na história com elas. Que era tudo o que pretendia, após a desilusão que sofreu há quatro anos.