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O imigrante ilegal que vivia num quarto com 11 pessoas tentou, tentou, tentou... e chegou aos Jogos Olímpicos

É o primeiro atleta do Gana a chegar aos Jogos Olímpicos de inverno, para competir na modalidade de skeleton, e estreia-se esta quinta-feira. Chama-se Akwasi Frimpong - e por trás deste nome esconde-se uma triste (e dura) história de vida

Cátia Leitão

Akwasi Frimpong, atleta olímpico do Gana, em plena prova

MARK RALSTON

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"Eu nunca tinha visto uma pessoa branca na minha vida". Pode parecer estranho para nós, europeus, que todos os dias vemos pessoas de todas as raças e feitios, mas aquela frase era perfeitamente normal para alguém que começou a vida num cubículo, no Gana, com outras dez pessoas.

A vida pode ter sido madrasta para Akwasi Frimpong, mas agora está a sorrir-lhe - e não é pouco. O atleta de 32 anos é o primeiro do Gana a chegar aos Jogos Olímpicos de inverno para descer uma pista de gelo em trenó, e não, não é o Pai Natal, é skeleton.

Não é das modalidades mais faladas do mundo, mas é deveras interessante, não consistisse ela num piloto que se lança pista abaixo deitado de bruços sobre um trenó de metal. Agora é o momento em que se pensa: então e o trenó trava? A resposta é: não, não trava. Mas coragem nunca faltou a Akwasi Frimpong.

11 pessoas e um quarto de 4m²

O sonho dos Jogos Olímpicos chegou cedo para este rapaz que ainda se lembra do Natal em que pôde apreciar algo raro: uma lata de Coca-Cola. Akwasi Frimpong vivia em Kumasi, no Gana, com a avó, o irmão e mais oito crianças - tudo isto numa casa só com um quarto de 4m². Desporto? Nem vê-lo.

Só por aqui já se podem imaginar os obstáculos que Frimpong teve de ultrapassar para chegar, hoje, a Pyeongchang, onde estão a decorrer os Jogos Olímpicos de inverno. Mas ele nunca desistiu.

Um início de vida difícil fez com que a mãe de Akwasi emigrasse para a Holanda, para tentar ajudar a família, deixando o filho com a avó. Eventualmente, aos oito anos, o miúdo juntou-se à mãe. Até aqui tudo bem, não fosse o facto de o ter feito de forma ilegal.

Frimpong foi à procura de uma vida melhor e encontrou algo perfeito para consegui-lo: o desporto.

Ainda antes de se aventurar num trenó, descobriu a corrida de velocidade. "Depois de 18 meses de treino, eu já era não só o melhor na minha cidade, mas também o melhor no meu país. Foi aí que ganhei a primeira medalha de ouro", contou Frimpong, campeão júnior nos 200m. "A partir daquele dia, percebi que tudo era possível desde que acreditemos em nós próprios."

O ganês Akwasi Frimpong

O ganês Akwasi Frimpong

MOHD RASFAN/GETTY

A vida já não estava confinada a um quarto mínimo, mas, mesmo nesta altura, também não era um sonho cor de rosa para o jovem atleta, que continuava a sentir-se preso, por estar ilegal. Algo que o obrigava a dizer (ou melhor, mentir) aos treinadores que não podia competir no estrangeiro porque... tinha perdido o passaporte. "Ser o rapaz mais rápido dos Países Baixos deixou-me desesperado e triste. Chorava todos os dias porque sentia que vivia isolado numa jaula. Uma grande parte da minha infância foi tirada de mim", disse, mais tarde.

Tal como todos os contos de fadas, a história teve um final feliz. Em 2008, Akwasi conseguiu o visto de residente na Holanda. As coisas pareciam estar a endireitar-se e o atleta estava pronto para voar para Londres para os Jogos Olímpicos de 2012, pela seleção local... até ter uma lesão no tendão de Aquiles.

Foi aí que decidiu trocar a pista de atletismo por uma de gelo.

Akwasi Frimpong, a rena Rodolfo dos trenós

Ainda antes de decidir deitar-se num trenó, Akwasi começou por fazer bobsleigh: tem o trenó na mesma, e o gelo também, mas não vai deitado - é basicamente essa a diferença. A prova consiste numa descida em trenó de duas ou quatro pessoas por uma pista de gelo estreita e com várias curvas. O trenó é movido pela gravidade e atinge 140km/h. O piloto controla-o com as mãos por um mecanismo de direção debaixo do cockpit.

Mas ainda não tinha sido desta que Akwasi encontrava a sua verdadeira paixão. Esteve perto de integrar a equipa holandesa de bobsleigh nos Jogos Olímpicos de inverno 2014, mas acabou por não ser selecionado. Aí, baixou os braços, vendeu o trenó e foi vender aspiradores. Parece uma anedota, mas não é. Aconteceu mesmo.

Mas houve alguém que não desistiu dele: o treinador Nicola Minichiello. Mostrou-lhe o mundo do skeleton e foi amor à primeira vista. Normalmente são precisos entre quatro a seis anos para dominar a modalidade, mas o jovem ganês conseguiu fazê-lo em dois. No final de 2016, já era o 95º no ranking mundial.

Não foi preciso muito para daí passar para o 60º, completar cinco provas e... qualificar-se para os Jogos Olímpicos de inverno, a 15 de janeiro de 2018. Ou seja, apenas dois anos depois de se iniciar no skeleton, conseguiu qualificar-se. E cumprir um sonho que um dia parecia (im)possível: ser um atleta olímpico.