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Foi o último dos últimos, mas festejou como se tivesse conquistado uma medalha

Nos Jogos Olímpicos, os festejos normalmente estão reservados para os primeiros lugares do pódio, mas há sempre exceções. Alguma vez viu os últimos classificados a fazer uma festa? Foi o que aconteceu no cross country, com um mexicano que aprendeu a esquiar aos 42 anos, com um português que ficou em 113º e com outros três atletas felizes da vida

Cátia Leitão

Os festejos de German Madrazo

Matthias Hangst/Getty

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É transversal a todos os desportos e a tudo o resto na vida: os primeiros lugares são os melhores. Certo? Talvez não. Ou pelo menos nem toda a gente pensa assim. Aquela história que nos contavam em crianças, dizendo que o mais importante é participar, nunca fez tanto sentido como agora. Porquê?

Porque os últimos cinco atletas da prova de esqui cross-country, ou esqui de fundo, nos Jogos Olímpicos de inverno 2018, ficaram tão contentes por acabar a prova que festejaram - e não foi pouco.

Foi um momento marcante em PyeongChang, na Coreia do Sul. Afinal de contas, os últimos lugares geram sempre tristeza e desilusão. Mas, felizmente, há quem não pense assim: Klaus Jungbluth (Equador), Kequyen Lam (Portugal), Pita Taufatofua (Tonga), Sebastian Uprimny (Colômbia) e German Madrazo (México).

Os cinco fantásticos

A prova de esqui de fundo tinha 15 km e 116 participantes. No pódio ficaram o suíço Dario Cologna, o norueguês Simen Hegstad Krueger e o russo Denis Spitsov, mas mesmo assim não conseguiram ser as estrelas da prova, ou pelo menos não o foram durante muito tempo.

Já tinham passado 15 minutos desde a chegada do primeiro classificado e 110 atletas tinham já cortado a meta, mas mesmo assim ainda faltavam cinco - sem contar com o italiano Dietmar Nöckler e com o espanhol Martí Vigo del Arco que desistiram, nem com o chinês Wang Quiang, que foi desclassificado.

Os cinco fantásticos - ou os cinco últimos - só chegaram 10 minutos depois, ou seja, 25 minutos depois do primeiro classificado, mas tristeza definitivamente não fez parte desta chegada.

A festa foi dos cinco homens que se seguem - com especial destaque para o último dos últimos, mas já lá vamos.

Quando os últimos se sentem os primeiros, há festa desta - e o português Kequyen Lam (número 112) também lá estava

Quando os últimos se sentem os primeiros, há festa desta - e o português Kequyen Lam (número 112) também lá estava

Matthias Hangst/Getty

O equatoriano Klaus Jungbluth, que estuda Psicologia na Universidade de Sunshine Coast, na Austrália, ficou em 112º lugar de 116 atletas.

Logo depois, um português: Kequyen Lam, farmacêutico de 36 anos que nasceu em Macau e em 2006 conseguiu também nacionalidade portuguesa. Viveu no Canadá, onde descobriu o esqui de fundo e decidiu que queria ir aos Jogos Olímpicos. E não é que conseguiu mesmo? Ficou em 113º lugar, mas fez a festa na mesma.

Em 114º lugar, Pita Taufatofua, que competiu pelo Tonga e era já conhecido, ou melhor, já tinha tido os seus 15 minutos de fama. Quando? Nos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, em 2016, quando decidiu entrar na cerimónia de abertura em tronco nu. E, como uma vez não chegou, decidiu repetir a proeza na Coreia do Sul, desta vez com dois graus negativos.

O 115º classificado foi Sebastian Uprimny, que nasceu em Paris, mas agora, aos 42 anos, viajou até à Coreia do Sul para representar a Colômbia. Mas não foi lá que se apaixonou pelo esqui. Viveu na Europa dois anos, depois foi para a Colômbia com os pais, que eram de lá, e mais tarde foi para os Estados Unidos: e aí sim, descobriu o esqui de fundo. Esta manhã, foi o penúltimo classificado da prova.

O último dos últimos

Está então a faltar o verdadeiro "último", aquele que passou a meta em 116º lugar e que mesmo assim ficou (muito) contente.

German Madrazo é mexicano, tem 43 anos e aprendeu a esquiar aos 42. Agora é empresário, mas quando era mais novo sonhava ser nadador. Participou em vários torneios no México e mais tarde decidiu virar-se para o triatlo. Em 2014, durante os Jogos Olímpicos de inverno em Sochi, questionou-se sobre a participação - ou a falta dela - de atletas mexicanos nos jogos de inverno.

Foi assim que Madrazo decidiu vender as bicicletas, pedir um empréstimo para conseguir mudar-se para a Europa, mais propriamente para a Irlanda, e aí dedicar-se ao esqui para conseguir alcançar o seu novo sonho: a qualificação para os Jogos de PyeongChang.

German conseguiu alcançar o seu sonho e ainda teve direito a um extra: protagonizar o verdadeiro símbolo do espírito olímpico quando chegou à meta, com a bandeira do México no ar, e teve direito a um comité de receção pela parte dos outros quatro (últimos) atletas, que durante 10 minutos, festejaram o facto de terem acabado a prova. Tudo isto num enorme clima de festa e com muitos abraços à mistura. São os Jogos Olímpicos.