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Jogos Paralímpicos

Do Olimpo à destruição da democracia (ou uma história brasileira)

Os Jogos Paralímpicos começaram esta quarta-feira, a segunda parte do maior evento desportivo do mundo, que este ano foi organizado pelo Rio de Janeiro. Entre a falta de dinheiro para os atletas com deficiência, potenciais violações da lei eleitoral e a destituição da Presidente Dilma Rousseff, o Brasil fica para a história como o país que desabou durante e também por causa dos Jogos Olímpicos

Joana Azevedo Viana

Buda Mendes

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A febre dos Olímpicos baixou na semana passada, assim que 60 dos 81 membros do Senado brasileiro votaram a favor da destituição de Dilma Rousseff. O desfecho da já longa crise política era mais do que antecipado, mas durante as Olimpíadas os brasileiros e os estrangeiros que viajaram até ao Rio de Janeiro, mais de um milhão segundo contas oficiais, puderam esquecer o drama por momentos: quando assistiram à beleza dos movimentos da jovem ginasta norte-americana Simone Biles, quando viram o jamaicano Usain Bolt bater mais um recorde mundial nos 100 metros; ou até quando a piscina das provas de saltos ficou verde da noite para o dia (não foi poluição mas sim algas acumuladas pelo calor e falta de vento, sentenciaram os especialistas).


Claro que, durante o evento, o mundo foi sendo lembrado do que se passava nas estruturas de poder do Brasil. No dia em que as medalhas de luta olímpica foram distribuídas (o Brasil não ganhou nenhuma), a Presidente com mandato suspenso enviou uma carta ao Senado a pedir eleições antecipadas para resolver a crise política gerada pelo pedido de ‘impeachment’ por “pedaladas fiscais” que cometeu em 2014. E, nas arenas desportivas, o Comité Olímpico Brasileiro baniu qualquer protesto que desse o fora a Temer — Michel de seu nome, o antigo vice-presidente de Dilma que há uma semana tomou posse oficialmente, apesar de estar impedido de se candidatar a cargos públicos nos próximos oito anos por ter violado as leis eleitorais.

A proibição imposta pela organização não anulou o descontentamento de vários espectadores, que com cartazes ou t-shirts gritaram em silêncio “Fora Temer!” e foram calados pela segurança. Os episódios de censura deram vida própria à frase de ordem, no Brasil e no mundo, de tal forma que, há alguns dias, um empresário chinês cumprimentou o novo líder brasileiro na cimeira do G20 com um educado “sr. Fora Temer”.

ANDRESSA ANHOLETE

Entretanto a febre dos Olímpicos passou, a maioria dos turistas voltou para casa, os brasileiros viram a Presidente eleita ser destituída e os governantes do Rio levaram as mãos à cabeça porque gastaram até dinheiro que não tinham na primeira fase do evento - e os Jogos Paralímpicos estiveram para não arrancar hoje.

A poucas semanas do início da competição, ainda não havia dinheiro para pagar as viagens dos mais de 4000 atletas — incluindo dos 37 portugueses que vão disputar medalhas em sete modalidades — e o Comité Olímpico ponderava abrir o Parque Olímpico ao público porque ainda só tinha vendido 12% dos bilhetes.

Na altura, a autarquia assumiu que precisava de 200 milhões de reais (cerca de €55 milhões) para garantir as provas e, na semana passada, o Governo federal anunciou que cinco empresas estatais, entre elas a famigerada Petrobras, iam patrocinar o evento com um total de 100 milhões de reais, com a prefeitura do Rio a comprometer-se com outros 150 milhões.

Face a isto, o Tribunal Regional Eleitoral deixou avisos contra potenciais violações da lei eleitoral, já que o período de campanha para as municipais de outubro começou dias antes do início dos Paralímpicos.

“Tudo isso podia ser só mais um caso de mau planeamento ou de mau investimento nas infraestruturas erradas, mas infelizmente é muito pior do que isso”, diz ao Expresso Fernando Luiz Lara, arquiteto brasileiro que é professor na Universidade do Texas em Austin e um dos maiores críticos destas Olimpíadas. “O mesmo Rio de Janeiro que, nos anos 90, foi a vanguarda do direito à cidade com o Favela-Bairro, implementou agressivamente nos últimos dez anos um modelo baseado na gentrificação, nas remoções forçadas e em investimentos faraónicos e no mínimo questionáveis, que agora está a ser copiado por todo o país.”

Lucas Uebel

Os legados do Rio 2016

Ativo no seu país de origem, como arquiteto e como colunista assíduo na imprensa brasileira, Lara não considera que tenha havido problemas ao nível da organização dos Jogos nem tem dúvidas sobre a concretização dos planos criados à partida para que as infraestruturas não fiquem ao abandono no fim da festa.

Entre eles, desmontar a Arena do Futuro, que foi projetada em “formato Lego”, para que as suas peças possam ser utilizadas na construção de quatro escolas públicas em Jacarepaguá e São Cristóvão; e fazer do Complexo de Deodoro um parque de desportos radicais aberto ao público e usar o parque aquático Maria Lenk para programas de inclusão social na área do Desporto.

“Tenho a certeza de que os espaços esportivos vão ser muito bem utilizados, como estão sendo utilizados os estádios da Copa do Mundo de 2014.” Esse, refere Lara, “não é o ponto principal”, mas sim coisas como “a decisão de fazer o metro até à barra quando quem realmente precisa é a zona norte e a expulsão de 22 mil famílias de suas casas.”

Como referiu num texto de opinião recente, um dos grandes legados do Rio 2016 foi a onda de demolições de zonas habitadas por comunidades mais pobres do Rio, o que diz ser uma “triste tradição do Brasil mas carioca em particular”. Isso aconteceu com a extinção da Vila Autódromo para construir o Parque Olímpico ou com a razia de habitações das mais de 22 mil famílias que viviam na região do Porto Maravilha onde, segundo a revista “Pública”, a grande maioria das terras já era propriedade dos governos federal e do estado do Rio. “As favelas foram erradicadas, mais uma vez, para garantir que o valor dos novos imóveis não seja ameaçado por vizinhos ‘diferenciados’”, critica o diretor do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade do Texas.

Durante a reta final para a inauguração dos Jogos, um investigador do Comité Olímpico Internacional deu a entender em entrevista à RFI que o Rio de Janeiro ia marcar o fim de uma era de projetos multimilionários e faraónicos para a organização do evento. “Em Tóquio, em 2020, serão utilizadas instalações já existentes, assim como em todas as outras cidades que virão depois. Ninguém mais vai construir Parque Olímpico”, disse o brasileiro Lamartine da Costa. Seria um legado brilhante destes Olímpicos, reconhece Lara com alguma desconfiança. “Um dos negócios dos Jogos é criar espaço para construção de apartamentos, flexibilizar as regras de urbanismo e valorizar terrenos por conta de investimentos em infraestruturas que quase nunca fazem parte dos planos-diretores das cidades-sede. Fazer investimentos pontuais às margens das regras democráticas é parte do plano dos Olímpicos. Espero ansiosamente, mas sem muita expectativa, que isto mude no futuro.”

Mario Tama

A morte da democracia brasileira

Mais de metade do orçamento preliminar para o Rio 2016, de quase 40 mil milhões de reais (cerca de 11 mil milhões de euros), foi aplicado em projetos de infraestrutura como esses, numa cidade que está falida e que, também por causa da competição, entrou em choque com a Justiça Federal.

A 12 de agosto, o Ministério Público brasileiro decidiu congelar os recursos públicos ou patrocínios de empresas estatais aos Paralímpicos até que a organização do evento abrisse as suas contas e detalhasse os seus gastos. O Comité Olímpico recusou-se, alegando que sendo uma instituição privada não é obrigado a submeter-se às regras de transparência do poder público. Cinco dias depois, o tribunal de arbitragem deu-lhe razão.

Esta falta de transparência denunciada pelas instâncias federais é a mesma que foi apontada pela oposição a Dilma Rousseff e que levou ao seu afastamento. Mas é também a mesma apontada à maioria dos membros dessa oposição que se juntaram para derrubar a Presidente dois anos depois da sua reeleição. Em maio, pouco depois de Dilma ter sido suspensa de funções até ao seu julgamento no Senado, uma reportagem do “New York Times” desconstruiu a rede de atores e ações do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) que levaram o Rio à falência — o partido de Michel Temer, que dias antes da publicação desse artigo prometera uma nova era de “salvação nacional” ao assumir a Presidência interina do Brasil.

No artigo “Responsável por salvar o Brasil: o partido que arruinou o Rio”, o jornal norte-americano seguiu o fio dos Olímpicos para investigar os subornos recebidos por inúmeras figuras do PMDB, entre elas Eduardo Cunha, que em julho renunciou à presidência da Câmara de Deputados depois de o Supremo Tribunal Federal ter suspenso o seu mandato de deputado por suspeitas de corrupção. Terá recebido cinco milhões de reais em subornos que guardou em contas não declaradas na Suíça.

O próprio Temer é acusado por um delator do caso Lava Jato de ter negociado subornos para colegas do PMDB no esquema de desvio e lavagem de dinheiro instalado na estatal Petrobras e do qual membros de todos os partidos brasileiros, da direita à esquerda, beneficiaram.

Neste contexto o Rio foi um laboratório experimental da corrupção e é sobretudo por isso que a autarquia de Eduardo Paes, também do PMDB, está em bancarrota. “Havia um projeto de Brasil diferente nos anos 2007-2010, uma certa euforia até com os sucessos da era Lula”, explica Lara, referindo o ano em que a cidade se candidatou aos Olímpicos e o ano em que Paes assumiu a Câmara.

“Chamo ao período 1985-2010 de grande salto progressivo enquanto que em 2010 entrámos num período regressivo. A copa do mundo e as Olimpíadas poderiam ter sido o clímax deste período progressivo, mas foram a desculpa perfeita para a implementação deste ciclo que o Brasil vive hoje.”
Com o fim dos Paralímpicos a 18 de setembro a crise política vai continuar e o legado mais trágico do Rio 2016 vai continuar a ser “a destruição da democracia brasileira”, diz-nos. “Os grandes media vão insistir que as Olimpíadas não têm nada a ver com a crise política, mas eu acredito que, no futuro, não teremos dúvidas sobre essa ligação.

O desvio de dinheiro de grandes projetos de infraestrutura para financiar campanhas políticas era e ainda é uma prática generalizada. Até agora apenas a esquerda foi responsabilizada por isso, graças ao ataque coordenadíssimo dos grandes media com uma parte do Judiciário, mas as evidências apontam para todos.” Vai levar algumas gerações até se reconstruir o que foi e está a ser desfeito — para Lara esse sim, “um esforço verdadeiramente olímpico”.

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