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Jogos Paralímpicos

Como é que quatro paraolímpicos foram mais rápidos que o campeão olímpico?

O improvável aconteceu: na final dos 1500 metros nos Jogos Paralímpicos, os quatro primeiros classificados foram mais rápidos que o campeão Olímpico. Porquê?

Alexandra Simões de Abreu

O VENCEDOR Abdellatif Baka bateu a marca de Matthew Centrowitz nos JO do Rio

reuters

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Abdellatif Baka, Tamiru Demisse, Henry Kirwa e Fouad Baka. Estes são os primeiros quatro classificados dos 1500m dos Jogos Paralímpicos (JP), que decorrem no Rio de Janeiro. Isto não teria nada de estranho não fora o caso de qualquer um deles ter feito melhor tempo que o vencedor da medalha de ouro na mesma distância nos Jogos Olímpicos (JO), o norte-americano Matthew Centrowitz.

Primeiro, vamos aos factos. Centrowitz conquistou o ouro com o tempo de 3m50s; nos JP, o argelino Abdellatif Baka terminou a mesma distância em 3m48s29, o etíope Tamiru Demisse levou a prata com 3m48s49, o queniano Henry Kirwa ficou bronze com 3m49s59 e até o quarto colocado, o argelino Fouad Baka, irmão do campeão Abdellatif, completou a prova em 3m49s84, mais rápido que o norte-americano Centrowitz.

A questão que se coloca de imediato é: como é possível que atletas com deficiência consigam ser mais rápidos que os atletas sem nenhum grau de incapacidade?

Vamos então às explicações. Começamos pelo tipo de deficiência. Aqueles quatro atletas concorreram na prova de 1500m para atletas com problemas visuais leves (T13). Este dado, associado ao facto de a final paralímpica ter decorrido, desde o início, a um ritmo mais rápido do que a olímpica, onde todos os concorrentes se pouparam para o sprint final, é só por si suficiente para explicar o que aconteceu. Os vários órgãos de comunicação têm avançado com esta teoria, que, à partida, parece a mais plausível.

Jorge Vieira, presidente da Federação Portuguesa de Atletismo (FPA) e que foi durante muitos anos diretor técnico nacional, à partida concorda com aquela justificação. Explica porquê: “Tecnicamente, os 1500m são a prova mais viável de tudo isto acontecer. Não vejo que isto pudesse acontecer abaixo dos 800m ou acima dos 5000m. Os 1500m são a prova mais tática de todas, onde muitas vezes há atletas de grande velocidade que se guardam para o final”, avança, lembrando ainda o mestre Mário Moniz Pereira. “Ele costumava dizer ‘são 1490m de balanço com o resto de corrida’.”

Jorge Vieira recorda também a final dos 1500m dos Campeonatos da Europa de Atletismo deste ano, em Amesterdão, onde a portuguesa Marta Pen ficou em 5º lugar, dizendo que “as atletas pareciam que estavam em corrida de aquecimento”.

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Aliás, se olharmos para os recordes, verificamos desde logo que o atual recorde do mundo de 1500m de um atleta sem deficiência é do marroquino Hicham El Guerrouj, com o tempo de 3m26s, e o recorde olímpico é do queniano Ngeny Ngeny, com 3m32s. Muito abaixo, portanto, dos 3m50s realizados agora por Matthew Centrowitz e dos 3m48s29 do atleta paraolímpico Abdellatif Baka.

O presidente da FPA, que esteve no Rio a assistir a algumas provas até ao último sábado, acrescenta, por outro lado, que “o movimento paralímpico está em evolução muito mais acelerada do que o movimento olímpico”, e que consequentemente essa evolução levará a uma “melhor definição do que são as limitações que podem levar um atleta a participar nos Jogos Paralímpicos e não nos Olímpicos”. Até porque, não sendo o caso daqueles quatro atletas, a verdade é que há atletas paraolímpicos que reivindicam participar nas provas da IAAF (Federação Internacional de Atletismo), mas depois optam pelos Jogos Paralímpicos. Jorge Vieira não esconde que “há atletas paraolímpicos que os veria com bons olhos nos JO” e que no caso de “atletas com problemas de visão que conseguem correr sem guia nada os impede de participar no calendário regular da IAAF”.

Note-se, entretanto, que o argelino Abdellatif Baka, de 22 anos, que esta terça-feira vai disputra as eliminatorias de acesso à final dos 400m, já tinha representado o seu país nos Jogos Paralímpicos de 2012, em Londres, onde ganhou a medalha de ouro nos 800m.

Tamiru Demisse repete gesto de Feyisa e cruza os braços

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O atleta que conquistou a prata nos 1500m paralímpicos,Tamiru Demisse, de 22 anos, repetiu o gesto - cruzar os braços no alto - que o seu compatriota, o maratonista Feyisa Lilesa, fez quando alcançou o ouro nos JO. Estes atletas etíopes protestam contra o governo do presidente, Mulatu Tshome, e do primeiro-ministro, Hailemariam Desalegn, que são acusados de promover um massacre contra cidadãos da etnia oromo, à qual pertence Lilesa.

“Eu não volto para a Etiópia. Se eu voltar, sou morto. Quero ir para a América, para os EUA. Sou totalmente contra o que estão a fazer na Etiópia. No nosso país não somos livres”, disse Demisse, que repetiu o gesto na zona mista do Estádio Olímpico. Lilesa deixou a mulher e os filhos e escondeu-se no Brasil, mas quer asilar-se nos EUA, onde pretende viver e treinar.