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Lá Em Casa Mando Eu

Brahimi desequilibra a dor e o galo preto dá sorte (a análise de Lá em Casa Mando Eu à goleada do FC Porto)

Iker Casillas continua a ser um adepto em campo - mas descobriu hoje que os adversários também rematam - e Catarina Pereira está feliz com esse facto

Catarina Pereira, Lá em Casa Mando Eu

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FRANCISCO LEONG

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Casillas

Apanhou um pequeno susto, logo aos 7 minutos, quando Tiago Silva rematou, de fora da área, ao poste da sua baliza. Como estavam muitos jogadores à sua frente, ainda teve de sujar um joelho na relva para acompanhar a bola à distância. Visivelmente surpreendido com este momento, ouviu-se a gritar: "Ai usted tambien podien rematar? Qué bonito es el futbol!" Aos 89 minutos, viu nova bola a ir à trave da sua baliza e nesta altura já todos percebemos que antes do galo preto aquelas bolas entravam. E que estariam 0 graus nesta altura do ano. E que o Pai Natal não iria dar prendas às crianças.

Maxi Pereira

Foi ele que lançou a bola para o segundo golo do FC Porto, da autoria de Brahimi. Quando Maxi foi contratado ao inferno, vinha com duas promessas: dar muita porrada sem levar cartões e fazer lançamentos de linha lateral tão longos que davam golo ao mínimo esforço dos companheiros. Hoje cumpriu finalmente uma das duas. Aguardo ansiosamente pela outra.

Felipe

Ia marcar um golo, num cabeceamento ao primeiro poste após um canto, mas Marcano estragou-lhe o momento ao aparecer ainda antes da linha de golo e mandar a bola lá para dentro. O espanhol ainda fez questão de apontar para Felipe, mostrando o bom ambiente que há entre uma das melhores duplas de centrais do FC Porto. No entanto, duvido que se safe de uma entradita mais dura no próximo treino.

Marcano

No final da primeira parte, o Feirense teve o descaramento de se atrever no ataque e de aparecer na grande área do FC Porto com relativa facilidade, coisa que, por exemplo, o Leicester não fez, provando cientificamente que qualquer equipa do José Mota é melhor do que o campeão inglês. Valeu-nos a atenção de Marcano, que executou dois belos cortes: primeiro a uma entrada na área de Luís Aurélio e, depois, a um cruzamento perigoso que chegou até à pequena área.

Alex Telles

A maneira como consegue ultrapassar a linha do meio-campo e mandar logo um balão para a grande área adversária ou o jogador do FC Porto que calhe estar do outro lado do campo é um dom. Isto um dia pode ser útil, porque imaginem que um conceituado grupo de cientistas descobre que o aquecimento global se resolve com a colocação de um conjunto de bolas na camada de ozono... Alex Telles é o vosso homem! Ora, eu já tinha escrito isto quando o brasileiro decidiu sacar um cruzamento na linha, perfeito para a cabeça de André Silva, que consumou o 4-0, provando assim que estes textos não fazem sentido nenhum.

Danilo

Aos 11 minutos, vimo-lo a saltar e a cabecear a bola num canto, mas esta foi direitinha para as mãos do guarda-redes do Feirense. A maneira como o senhor comendador se recusou a criar um lance de perigo perante uma equipa ainda a recuperar de uma expulsão seguida de golo sofrido é tocante. Danilo já se encontra numa fase da carreira em que uma mera boa exibição não lhe chega e então decidiu começar a resolver problemas socioeconómicos do futebol português, tentando diminuir o fosso entre as grandes e as pequenas equipas e, deste modo, aumentar o interesse e as respectivas receitas deste evento que tanto apreciamos. Se tudo correr bem, este será o tema da sua quarta tese de Doutoramento.

Corona

Aos 26 minutos, ficou estendido no chão porque foi ceifado por Kakuba, jogador do Feirense que levou amarelo e ainda reclamou, porque, afinal de contas, só pareceu que lhe queria arrancar uma perna, quando na verdade até estava a executar uma embaraçosa escorregadela. Destacou-se em algumas tentativas de criar perigo pelo lado direito do ataque e saiu de campo com a sensação de dever cumprido.

Óliver

Quando uma pessoa faz muitas vezes uma coisa, e fá-lo de forma automática e certinha, às vezes esquece-se de como foi fazê-lo. Todos nós já chegámos a casa depois de uma viagem a conduzir e pensámos: "Fogo, nem me lembro do caminho que fiz". Se perguntarem a Óliver como fez hoje tantos passes para desmarcar Diogo Jota e André Silva, como é que dominou a bola sempre com paciência e sabedoria, aposto que nem sabe.

Brahimi

É um desequilibrador, o que significa que tanto desequilibra o jogo, como aparece em campo desequilibrado. Ou então desequilibra a dor - e eu cheguei finalmente ao patamar dos cronistas que citam Abel Xavier. Felizmente, hoje Brahimi estava mesmo a desequilibrar o jogo, ultrapassando adversários com o objectivo de, eventualmente, entregar a bola a outro jogador do FC Porto que pudesse fazer algo com ela além de tentar ver o seu reflexo nela. Fez ainda o segundo golo da equipa, ao aproveitar um lançamento de linha lateral de Maxi Pereira. Pareceu-me que uns jogadores do Feirense ficaram a reclamar algo: às tantas estavam só a desabafar que não é justo que, a menos de um ano das próximas eleições autárquicas, Brahimi tenha decidido deixar de fazer rotundas antes de rematar.

Diogo Jota

Sem ter jogado mal, foi dos menos destacados da equipa. Não vou escrever mais nada, porque descobri há uns tempos que dá azar quando falo mal de benfiquistas (fora o meu marido, porque uma das maravilhas do casamento é que dizer mal do marido fica fora das superstições) em dia de jogo do rival.

André Silva

Novo "bis" do nosso rico menino, que começou cedo a resolver um jogo em que só podíamos confirmar os três pontos. Corria apenas o segundo minuto de jogo quando foi agarrado por Ícaro, após ter recebido bem um passe, ter controlado a bola com o peito e ficado isolado na área do Feirense. Penálti marcado a favor do FC Porto (o galo preto faz cada milagre...), a devida expulsão e mais um golo para André Silva. E, já agora, obrigada ao Ícaro por estar cheio de pressa para ir ver o dérbi da Segunda Circular.

Herrera

Está a entrar para fazer minutos quando os jogos já estão resolvidos, parecendo-me uma boa estratégia de Nuno Espírito Santo para recuperar a sua imagem junto dos adeptos portistas. Quanto a mim, Herrera, já sabes: um hattrick na Luz (sendo um dos golos num canto directo que tu próprio ganhaste) e estás perdoado.

André André

Está cada vez menos careca e, quanto à relação entre a quantidade capilar e a qualidade de jogo, penso que já tudo foi escrito nesta Tribuna.

Rui Pedro

Aquele momento em que sai de campo André Silva, um ponta-de-lança com técnica de pés, cabeceamento perigoso e faro de golo, e entra Rui Pedro, um ponta-de-lança com técnica de pés, cabeceamento perigoso e faro de golo, foi o segundo melhor momento da década do futebol português, apenas precedido do momento em que o comendador Danilo foi campeão europeu.