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Lá Em Casa Mando Eu

Fernando Santos, o homem que tinha um plano

Fernando Santos juntou-se a Ronaldo nas distinções planetárias: já tínhamos o melhor futebolista do mundo, agora a IFFHS e a Globe Soccer dizem (e dizem bem) que temos o melhor selecionador do mundo - ele mesmo, Dom Fernando. E como apreciamos a boa disposição, pedimos a Catarina Pereira que nos escrevesse um ensaio sobre o homem que acreditou primeiro que nós todos naquela conquista impossível - o Euro, o nosso Euro

Catarina Pereira, Lá Em Casa Mando Eu

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Pediram-me para escrever um texto sobre o Fernando Santos e eu pensei que finalmente a comunicação social ia centrar-se em assuntos que realmente interessam, como o debate “As razões e os fundamentos para o engenheiro do Penta ter falhado o bi-tri”. Mas, afinal, o tema em discussão prende-se com o facto de o treinador português ter sido considerado o melhor selecionador do mundo em 2016, pela IFFHS. Um bocadinho menos interessante, mas pronto, guardo a minha tese de Doutoramento para outra altura. Vamos a isto.

Quando Fernando Santos assumiu o cargo de selecionador nacional, julgo não ter sido a única cidadã portuguesa a pensar que este seria o final de carreira perfeito para um treinador que, além de ter estado à frente dos três grandes, ainda conseguiu aprender grego, o que, comparado com treinar o Sporting de Tinga ou o Benfica de Kikin Fonseca, até parece fácil. mas não é.

Ninguém iria levar a mal se Fernando Santos voltasse para cá para estar mais tempo com a família, conversar mais com os amigos ou ganhar uns tostões com uns anúncios publicitários (no fundo, o que Scolari fez tão bem). A partir de uma certa idade – e experiência –, entender-se-ia se assim fosse. No entanto, o que eu não sabia – e arrisco dizer que mais ninguém estaria ao corrente de tal – é que Fernando Santos tinha um plano.

Quando assumiu o apuramento para o Euro 2016, o engenheiro optou de imediato pela estratégia que trazia da Grécia: ganhar um jogo passa por, resumidamente, marcar mais um golo do que o adversário. De preferência, nos últimos minutos do jogo, para o adversário já não ter tempo para, resumidamente, marcar o mesmo número de golos ou até mais. Eu sei que isto, assim de repente, parece Matemática Aplicada, mas basta olhar para os 1-0, 2-1 e 3-2 desta sequência de jogos da seleção para, agora, à luz dos acontecimentos, conseguir entrar na mente de alguém que desvendou o futebol: o segredo, meus caros, está nas contas.

FABRICE COFFRINI

Nesta altura do “campeonato”, quando se festejava um apuramento quase incólume, poucos tiveram, no entanto, a decência de agradecer a Paulo Bento o excelente resultado contra a Albânia (0-1, porque, lá está, marcaram mais um golo do que nós), após um Mundial também ele de enorme qualidade, que levaram a Federação a contratar um treinador que, na altura, nem sequer se poderia sentar no banco durante a qualificação. A conclusão mais fácil a tirar seria a de que o país preferiu uma cadeira vazia a Paulo Bento, mas todos sabemos que o que os portugueses desejavam era mostrar aos gregos que, com Fernando Santos, também nós apreciamos muito a arte de vencer jogos sem qualquer ponta de brilho ou espetáculo.

E assim nos aproximamos de França. Devo confessar que, desde logo, a convocatória de Fernando Santos não me motivou qualquer discussão. Há quem veja nisto da seleção um reflexo da clubite que nos move no dia-a-dia, e que por isso discuta muito se não devia ter ido “x” em vez de “y”, mas eu admito desde já que, para ser um reflexo da minha clubite no dia-a-dia, ainda falta à seleção percorrer um loooooongo caminho. Ora, dado o meu desapego – e também o secreto desejo que de que nenhum jogador do FC Porto corra o risco de lesionar-se, incomodar-se ou indignar-se com outra camisola que não a do meu clube –, assisti com relativo agrado à convocatória de Danilo Pereira (na altura, ainda não devidamente reconhecido como comendador).

MIGUEL RIOPA

Talvez tenha sido discutível levar Rui Patrício em vez de José Sá, ou Renato Sanches em vez de Rúben Neves, mas juro que eu não sou de guardar ressentimentos.
Escolhidos os 23, chegou a hora de disputar a fase de grupos do Europeu com três tubarões do futebol mundial: Islândia, Áustria e Hungria. Se acham que estou a ser irónica, ide rapidamente ver o grau de dificuldade de uma “peladinha” nas ruas de Reiquejavique para confirmarem a veracidade da minha afirmação. Já foram? Não tiveram tempo? Então, siga. É que, nesta altura, enquanto eu e mais alguns milhões de portugueses pensávamos que seria difícil a Fernando Santos colocar em prática a estratégia da vitória por um golo a mais do que o adversário – dada a falta de jeito destes adversários para não sofrerem mais –, o selecionador surpreendeu a Europa com uma mudança de paradigma.

Estando o segredo nas contas, e já tendo sido usada à exaustão a tática de vencer por apenas um golo, Fernando Santos elevou o futebol ao patamar dos empates. Mais uma vez, não quero que pensem que estou a ser irónica ao afirmar que esta modalidade melhorou com o aparentemente escandaloso 1-1 frente à Islândia, o sonolento 0-0 contra a Áustria ou o louco 3-3 frente à Hungria. Apenas pretendo homenagear qualquer profissional que descubra como alcançar os melhores resultados gastando menos recursos, como foi o caso. Aos pessimistas da estatística – que lamentavam um segundo lugar, apenas com empates, num grupo supostamente tão fácil -, a mitologia respondeu com Arnor Traustason, personagem com nome de super-herói e ambição de super-estúpido, cujo golo atirou a seleção de Fernando Santos para longe das grandes seleções europeias.

O plano ia correndo bem, mas chegou a hora de defrontar a Croácia, seleção que ainda assustou os analistas porque, efetivamente, sabia jogar à bola, o que até aí era uma novidade no caminho de Portugal.

Devo confessar que a memória me falha em relação aos sentimentos experienciados durante esta partida – para guardar factos como o golo do senhor comendador Danilo contra o Chaves sou obrigada a esquecer coisas menos relevantes, como uns oitavos-de-final de um Europeu ou o que o meu filho precisa de levar para a escola amanhã, mas prioridades são prioridades.

Clive Mason

Lembro-me apenas de ouvir o barulho da cidade com o golo de Ricardo Quaresma, tendo, de repente, pensado que tinha voltado a viver no Porto, mas afinal não, era mesmo um país inteiro a levantar-se com o golo do nosso cigano. Mais uma vez, brilhantes as contas de Fernando Santos: distrair-nos com um futebol desinteressante durante quase 120 minutos e, num instante, deixar à solta o génio individual de alguém a quem já deram por terminada a carreira várias vezes. Não parece, mas estas coisas têm de ser muito treinadas.

Seguiram-se então os quartos-de-final contra a Polónia e a oportunidade de mostrarmos que, além da sorte e do tédio, também dominávamos os penáltis, e as meias-finais frente ao País de Gales, jogo que a SportTV teve a gentileza de repetir na véspera de Natal para eu conseguir dormir uma sesta antes da Consoada. E assim, num piscar de olhos, Portugal estava na final de um Europeu e ia defrontar não só a seleção que nos costuma dar porrada no recreio, como, ainda por cima, esta ia jogar em casa.

Nesta altura, admitamos, fora Fernando Santos, estávamos todos à espera de ver um daqueles vídeos de bullying horríveis que de vez em quando aparecem nas notícias. Não terei sido a única, julgo, a imaginar José Fonte a fugir do campo ao ver Griezmann, ou Adrien a sair a chorar para não ter de marcar Pogba. Certo?

Ora, quando ainda por cima Cristiano Ronaldo caiu no chão lesionado, muitas terão sido as lágrimas de quem tinha sonhado com Portugal campeão europeu, mas a distância permite-nos agora apreciar esse momento como o início de um longo raciocínio na cabeça do selecionador, que tento agora reproduzir: “F"#&-(? ca"@%&$ p!)= que p%/^| esta m&#!? ”, seguido de “Vai, Quaresma, solta o génio individual que há em ti” e de um “Que é que eu faço agora? Que se lixe!, entra o Eder”, que resolveu não só um jogo a nosso favor, mas sobretudo a minha relação com a religião, pois, a partir daquele chuto do meio do nada do herói mais improvável de sempre, passei a acreditar em tudo o que Fernando Santos acredita: seja Deus, seja Eder, seja o que for.

Alex Livesey

Chegados aqui, e ao prémio de melhor selecionador do mundo em 2016, resta-me concluir que este é mais do que merecido. Os selecionadores da Islândia e do País de Gales terão conseguido angariar adeptos nestes países, os selecionadores da Alemanha e da Croácia terão conseguido angariar entusiastas do futebol, mas só Fernando Santos conseguiu que Eder lançasse um livro.
Por isso, caro engenheiro do Penta, parabéns. Perante este plano tão bem sucedido, estou mais perto de lhe perdoar o bi-tri falhado.

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