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Lá Em Casa Mando Eu

O FC Porto joga com sessenta médios, mas não se aflijam: NES já está a ler o manual "Extremos: funções e utilidade", diz Lá Em Casa Mando Eu

Catarina Pereira envia saudações à Tunísia e ao Senegal por terem eliminado a Argélia da CAN e terem devolvido Brahimi ao FC Porto antes do jogo contra o Estoril, na mesma altura em que Nuno Espírito Santo já começa a perceber para que servem os extremos no futebol

Catarina Pereira, Lá em Casa Mando Eu

JOSE MANUEL RIBEIRO

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Casillas

Aproveitou para relaxar da vida dura de recém-pai e foi ao Estoril descansar. Marcou uns quatro pontapés de baliza, o que nem sequer se compara a acordar cinquenta vezes durante a noite, mudar fraldas, roupa e preparar aqueles quatro sacos de coisas quando se vai almoçar fora. Está a viver um género de licença de paternidade, mas ao contrário. Quem me dera. E acabou por sofrer um golo quando já estava a pensar que daqui a umas horas está a passar por isto tudo outra vez, coitado.

Maxi Pereira

Num campo tão pequeno, não conseguiu dar profundidade à ala direita, acabando por se limitar a não deixar o Estoril jogar por ali e recuperar algumas bolas no meio-campo (recuperou uma em cima do intervalo perto da área do Estoril, numa zona onde devia estar um dos sessenta médios com que entrámos em campo). Ao longe, dada a estrutura capilar, pode ter sido confundido várias vezes com André André, sendo muito difícil analisar se isso é bom ou não.

Felipe

É espantoso como o mundo procura, incessantemente, reacções adequadas à tenebrosa eleição de Donald Trump: marchas pelo mundo, artistas que se juntam à causa, jornalistas que unem forças contra o mundo da pós-verdade. Eu penso que a resposta para nos defendermos de Trump é Felipe e Marcano. Se é para nos defendermos de alguém, não estou a ver melhor. Felipe despacharia Trump com um corte prático, antecipado ou não por um encosto que o desequilibraria mais do que Bernie Sanders. A seguir partiria o muro à cabeçada e pronto, problema resolvido.

Marcano

Eu e muitos adeptos do FC Porto estamos a chegar àquela fase em que, quando vemos um adversário a desmarcar-se num lance de muito perigo, mas com Marcano a menos de 10 metros, começamos logo a pensar no que vai acontecer a seguir porque já sabemos que dali vai sair um corte natural. No fim (que giro, estava a escrever isto e o telemóvel mudou para "Bonfim", se isto não é um sinal...), deixou o jogador do Estoril fazer o golo de uma vida e poder dizer aos netos que marcou a Casillas, corolário humanitário da enésima exibição impecável.

Alex Telles

Foi dos mais inconformados e dos que cedo percebeu que o 0-0 era para romper. Subiu, desceu, cruzou, marcou livres perigosos e pareceu a dada altura ser a única pessoa com sentido de urgência, sabendo que ao fim de hora e meia convinha marcar mais do que o adversário. Se trabalhasse, perdão, colaborasse, na Padaria Portuguesa, faria horas extra a troco de nada, entraria mais cedo e sairia mais tarde, contribuindo para que o empreendedor, perdão, a sociedade enriquecesse, sem pedir nada em troca.

Danilo

A autora que aqui vos escreve declara-se danilista. O Danilismo está a um passo de se tornar a religião mais popular no mundo, sendo a mais humana e justa. E, como a maior parte das religiões, que acabam sempre por chacinar uma minoria qualquer, Danilo escolheu como vítima os médios adversários, que deixam de ter hipóteses para jogar. Destaque para o lance aos 26 minutos, quando recuperou a bola perto da área do Estoril, sofreu falta e o árbitro não a marcou, tendo o senhor comendador deixado o aviso: mais uma destas e pode ser que o senhor não consiga correr para trás mais na vida. Amén.

Herrera

Joga com o conformismo de quem sabe que será sempre o bode expiatório de tudo o que se venha a passar de mau, mas é notável como encarna o papel com excelência. Falhou passes, centros e conseguiu não fazer nada particularmente bem, além da boa tabela com Maxi, aos 59 minutos, que acabou com um cruzamento desastroso, claro. Lembram-se daquela história do jogador que perdeu a memória e não sabia quem era, tendo o treinador dado ordens para lhe dizerem que ele era o Pelé? Eu já ficava contente se Herrera acreditasse que era, sei lá, o André André.

André André

Começou o jogo descaído para a esquerda e particularmente inspirado na arte de ganhar ressaltos e de interceptar passes. No entanto, faltou-lhe sempre o último passe, a última finta e foi ao longo do tempo perdendo gás, mas mantendo a capacidade de estar em todos os lances confusos, arrancando amarelos aos poucos jogadores do Estoril que não estavam caídos no chão com dores.

Óliver

Acabou por ser o principal sacrificado pelo losango. Nunca conseguiu contribuir verdadeiramente para a equipa, o que justifica a parte de avanço que demos ao Estoril. Aos 45 minutos, saltou de cabeça a um cruzamento de Alex Telles, porque, depois das três assistências da semana passada, parecia que qualquer pessoa era capaz de chegar lá. Eu compreendo, porque senti o mesmo. Saiu aos 66 minutos, juntamente com Herrera, porque isto de ter meio-campo está muito sobrevalorizado, sobretudo quando a jogada mais treinada é o pontapé para a frente do defesa para o avançado.

Diogo Jota

Não teve tempo para fazer mais do que dois maus cruzamentos. Nuno Espírito Santo tirou-o aos 36 minutos, o que, a menos que Diogo Jota estivesse lesionado ou tivesse uma consulta, é capaz de querer dizer que não estava a gostar do que estava a ver.

André Silva

Foi a única pessoa do mundo que acreditou naquela notícia que dizia que o PSG tinha preferido Gonçalo Guedes a ele próprio e pareceu ausente e melancólico por causa disso. Depois disseram-lhe que há milhares de benfiquistas que têm bilhetes para o Moreirense-Braga de amanhã e ele lá arrebitou. Falhou uma bola sem ninguém na baliza depois de primorosa assistência de Moreira e voltou a desaparecer, guardando-se no entanto para a arrancada e consequente penálti, que marcou com frieza, aos 81 minutos.

Brahimi

Entrou aos 36 minutos, dando tempo a Nuno de ler o manual "Extremos: funções e utilidade". Jogou com a sua habitual intermitência, mas foram várias e suficientes vezes as que pegou na bola, fintou o número de adversários certo para depois cruzar para a área do Estoril. Um exemplo: aos 63 minutos, passa bem na esquerda, cruza e o defesa do Estoril atrasa para o guarda-redes. Esteve bem o senhor árbitro porque a intenção dele não era atrasar para o guarda-redes da sua equipa, mas antes marcar um golo incrível pela equipa adversária. Aliás, quem nunca sonhou marcar um golo do FC Porto? Enfim, voltando a Brahimi, acabou por ser decisivo no passe para André Silva que deu o penálti e vai daqui uma saudação muito especial à Tunísia e ao Senegal pela eliminação da Argélia na CAN.

Corona

Sabia que tinha como missão fazer o 0-2 com mestria, papel para o qual se reservou não tendo contribuído para absolutamente mais nada.

Rui Pedro

Está destinado a entrar quando estiver 0-0, pelo que pode vir a ter uma agenda muito cheia até ao fim da época. Ainda rematou a bola para dentro da baliza, aos 71 minutos, após passe de Brahimi, mas o árbitro assinalou fora-de-jogo. Da bancada visitante, atrás da baliza, estava obviamente muito bem colocada para avaliar o lance, mas prefiro deixar a questão para quem valoriza a interferência das arbitragens no futebol, que não é, claramente, a minha postura.

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