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Lá Em Casa Mando Eu

O Lá Em Casa Mando Eu já espera que, na próxima época, alguém chegue aos treinos e diga: "Estão a ver o que o Nuno nos treinava? Esqueçam"

A autora desta crónica, antes de entrar em carrinho contra a televisão, também comparou exibição de Brahimi a dinheiro e a offshores nas Ilhas Caimão (ou seja, não é nada de bom)

Catarina Pereira, Lá em Casa Mando Eu

JOANA SOUSA

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Iker Casillas

Mais uma excelente exibição de Iker Casillas na arte de ficar na baliza a ver o jogo. É engraçado que eu tenho má memória, mas lembro-me perfeitamente das defesas decisivas que fez contra o Sporting e o Benfica. Talvez eu tenha uma predisposição para grandes defesas. Talvez Casillas não tenha feito mais.

Fernando Fonseca

Foi a grande surpresa da convocatória e pode estar muito satisfeito com a exibição, porque não comprometeu na defesa e ainda fez uma boa assistência e um bom remate no ataque. Tão agradável estreia em tão negro dia é como uma pessoa encontrar uma nota de vinte euros à saída de um velório.

Felipe

O lance que disputa com Keita à entrada da área tinha sido uma bela estreia do videoárbitro: se eu estivesse na sala cheia de tecnologia a ter de decidir, não era nada; se estivesse lá o meu marido, era a Terceira Guerra Mundial. Mais tarde levou cartão amarelo por obstrução e não joga na próxima jornada. Sortudo. Devia ter de vir escrever por mim.

Marcano

É demasiado boa pessoa para jogar futebol e passou o jogo todo a interrogar-se por que não foi Layún convocado, defendendo veementemente que as pessoas podiam resolver tudo a conversar.

Alex Telles

Parece cansado, os cruzamentos saíram-lhe todos mal e deve ter feito uma aposta de que só neste jogo é que ia bater mal os cantos. Pareceu-me ainda que perdeu a posição e cedeu o canto fatal para o golo do empate, levando o troféu Herrera da jornada.

Rúben Neves

Jogaste bem, rapaz, mas deixa-me aproveitar para me dirigir ao senhor comendador Danilo, pedindo-lhe que se deixe estar com a perna a descansar no sofá e longe de todos os olheiros, porque para o ano há mais e precisamos de todos os que logo no estágio de pré-época tenham coragem de dizer assim: "Estão a ver o que o Nuno nos treinava o ano passado? Esqueçam".

André André

Acompanha a equipa em tudo: se estamos bem, participa, acerta passes, cobre bem e sobe nas alturas certas. Se a equipa começa a jogar mal, André André falha passes, defende com os olhos e até nos esquecemos que está a jogar até o vermos na repetição do canto sem conseguir fazer nada.

Otávio

Marcou o golo e foi um factor de desestabilização para o Marítimo na primeira meia hora. Em vários lances, viu-se sozinho na área a tentar apanhar os cruzamentos de Soares, um lance que Nuno o vê finalizar bem oito em dez vezes nos treinos, com entradas de cabeça fulminantes, pontapés de bicicleta espectaculares e belos domínios de peito seguidos de um crescimento acima do percentil para a sua idade que lhe permite humilhar os pequenos centrais adversários.

Herrera

Não procurou o penálti no lance do golo e acabou por cruzar a bola que, depois de bater num defesa adversário, sobra para o Otávio marcar. Confesso que ainda estava a gritar "cai, cai, cai", como se um penálti a favor do FC Porto não fosse ainda um segredo de Fátima bem guardado, quando tive de mudar para "golo, golo, golo".

Brahimi

Damos-lhe a bola à espera que resolva tudo, como se depositássemos todas as nossas poupanças num daqueles miúdos de Wall Street que depois são interpretados pelo Di Caprio. Mas o nosso dinheiro arranca no meio-campo e leva uma pancada, duas, três e depois o dinheiro cai e o árbitro avisa o defesa. O processo repete-se setecentas vezes, mas o nosso dinheiro raramente é objectivo e passa por canais de offshore nas Ilhas Caimão que eram amplamente desnecessários e a verdade é que, sem percebermos porquê, acabamos sem nada.

Soares

Temos um problema. É que, passado aquele início surpreendente e recheado de golos, alguém se convenceu que o nosso avançado brasileiro poderia estender o seu futebol e ir buscar jogo atrás, ou descair nas alas, ou tentar entrar na área com a bola controlada. Noto agora que, em vez de chutar a merda da bola para a baliza, vejo Soares a ter de tocá-la, dominá-la, tratá-la bem. Quando alguém tira a carta de condução, é normal que nos primeiros tempos o medo e a concentração sejam tantos que não escape nada. Mas depois, quando nos convencemos que sabemos conduzir, é exactamente nesse momento que somos mais perigosos, porque ainda somos uns nabos mas já não estamos preocupados com isso. Foi isso que aconteceu a Soares: o treinador perdeu o medo de ter alguém a marcar golos.

Corona

Entrou, com aquele ar fresco e renovador de quem vai resolver o jogo, e assim que o tentaram desmarcar na direita caiu sozinho no relvado, numa imagem perfeita do que tem sido esta equipa: uma atitude incrível, seguida de uma enorme queda. Continuou, com aquele ar calmo e descontraído, a ir para cima de defesas do Marítimo sem perceber que tinha linhas de passe, suspeitando eu que não foi devidamente informado da importância do jogo, imaginando-o agora chateadíssimo a olhar para a classificação.

André Silva

Entrou para terceiro central do Marítimo (pelo que estranhei a entrada de Deyvison para quarto central, o Marítimo não precisava), cumprindo a missão com eficácia. Aos 78 minutos, cortou um centro perigoso para pontapé de baliza e falhou o encosto para o 1-2, ao contrário de mim, que fiz um carrinho contra a televisão.

Rui Pedro

Vamos todos admitir que aplaudimos esta entrada ao mesmo tempo que fizemos umas quantas promessas que envolviam um golo de Rui Pedro e idas a Fátima, certo? O problema é que, a esta equipa, mesmo que aparecesse a Nossa Senhora escancarada, iam estar todos distraídos a olhar para o terço da Joana Vasconcelos a imaginar quem seria capaz de acertar naquilo mais vezes.

(Aproveito para insultar toda a equipa da Tribuna com as exactas palavras de Brahimi em Braga e encostar a cabeça ao editor, ficando à espera da respectiva suspensão de crónica para as últimas duas jornadas)