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Lá Em Casa Mando Eu

2016/2017: dez coisas que odeio em ti (por Lá Em Casa Mando Eu)

Catarina Pereira, do Lá Em Casa Mando Eu, fez a sua lista de coisas que quer esquecer desta época que ainda não acabou, mas é como se tivesse acabado, apesar de haver esta tarde um FC Porto-Paços de Ferreira (18h, SportTV1)

Catarina Pereira, Lá Em Casa Mando Eu

FRANCISCO LEONG

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1- Desenhos

Eu era muito boa aluna. Tinha 5 a tudo. Ou melhor, tinha 5 a tudo por mérito e 5 a Educação Visual porque os professores tinham pena de eu ter 5 a tudo menos a esta disciplina. Quero com esta introdução insignificante dizer, basicamente, que não gosto de desenhos. E tão cedo não irei esquecer aquele boneco de três pernas que era "um jogador à Porto". Um jogador à Porto que passou metade da época a pontapear a bola para a frente sem sentido; um jogador à Porto que, a troco da consistência defensiva, abdicou de atacar em maior número; um jogador à Porto que viveu sobretudo de bolas paradas e inspirações individuais; um jogador à Porto que, nos momentos mesmo, mesmo decisivos, mais pareceu, enfim, um boneco de três pernas mal desenhado por quem o inventou.

2- Os outros

Quando me pediram um texto de balanço à horrível época que está prestes a terminar, tive alguma dificuldade em imaginar o que escrever sobre a confusão de sentimentos que a minha equipa me provocou. Curiosamente, não me foi difícil começar a pensar em dizer mal dos outros.
Ora, começando pelo tretacampeão, tenho obviamente que dar uns efusivos parabéns ao Benfica pelo excelente futebol praticado. Poucas vezes, no nosso pequeno país, temos oportunidade de ver tamanha qualidade no jogo coletivo. Não me sinto sequer à altura de comentar as proezas que o professor Rui Vitória conseguiu acrescentar à modalidade, como o acto de beber uns goles de água sempre que o adversário ataca. Alguém sabe quantos goles são? Alguém sabe se a marca da água influencia? Alguém sabe se tem maior efeito em bolas paradas ou jogo contínuo? Não. Sabem porquê? Porque vocês não são o professor Rui Vitória e só ele sabe como é que isso fez dele campeão duas vezes.

Quanto ao Sporting, enfim, é o Sporting. E ainda estou para saber por que é que algures na época decidiu jogar à Baleia Azul em vez de pelo menos tentar desestabilizar o futebol de excelência do Benfica, se bem que não me custa imaginar Jorge Jesus enfiado num gabinete, cheio de papéis, quadros com tácticas e análises a adversários, a pensar "Porquê? Porquê que isto é menos eficaz do que uns goles de água?".
Como se isto não bastasse, esta época ainda me trouxe outro dissabor: bons treinadores em equipas pequenas. Uma pessoa gosta de empatar contra um Feirense qualquer e pensar: "Porra, este campeonato não vale mesmo nada". E depois vê um 0-0 entre um Moreirense e um Tondela e sente-se bem, assim sim, isto faz sentido, adoro ver um Petit ou um Ulisses Morais no banco. (Onde andará o Ulisses Morais? Falo várias vezes dele como exemplo de treinador que passa por várias equipas, conseguindo não trazer absolutamente nada de novo, mas agora bateu uma saudade). Só que há por aí uns Rio Aves, uns Guimarães, uns Boavistas e até uns Estorilzitos que me incomodam. Assim não. Se é para ver defesas a trocar a bola no chão sem pressa e a dá-la a médios que jogam perto uns dos outros de cabeça levantada então que seja o Barcelona ou o Bayern Munique. Não me importo que o Iniesta ou o Thiago Alcântara façam aquelas coisas que eles sabem (e que normalmente só são travadas por treinadores que bebem muita água) lá ao longe, mas incomoda-me que o Tarantini acorde de manhã aqui ao lado e se sinta muito melhor jogador do que os meus.



3- Árbitros

Peço desculpa aos leitores que aguentaram com uma paciência exemplar os meus desabafos mais ou menos sarcásticos sobre o estado da arbitragem ao longo da época. Obrigada por terem compreendido que eu não podia ignorar situações que fazem parte do jogo.

Peço aos portistas que entendam que tentei tornar a minha crónica numa cartilha perfeita dos lances em que fomos prejudicados, com insultos aos rivais e incentivos à violência contra os árbitros, mas a Tribuna censurou-me e fui obrigada a disfarçar as críticas à roubalheira com piadolas lá no meio.

Peço ainda desculpa aos adeptos de outros clubes que, no fim dos jogos do FC Porto, sentiam necessidade de ler avaliações justas, isentas e imparciais, por se terem deparado com as minhas palavras, muito próprias de quem apenas sabe lavar a loiça, passar a ferro, ou ir para a cozinha em geral (penso que consegui reunir os comentários mais insistentes destes).

Sendo assim, prometo que não vou falar mais disto. Já toda a gente sabe o peso que os erros dos árbitros tiveram esta época. Pronto, acabou.

Amarelo para o Pizzi.

Então, Catarina? Tinhas prometido que não falavas mais de gatunagem. Como é? Agora estás preparada? Vamos lá. Fim. Mais nada a dizer.

Samaris castigado.

Ai, o que é isto? Não consegues falar de mais nada? Usas os árbitros para desculpar tudo, não é? Não sabes que esta conversa é mal vista, porque agora estamos todos interessados em falar de transições ofensivas e zonas de criação? Falar de árbitros é tão "anos em que o FC Porto ganhava"! Vá, deixa-te disso.

Penálti a favor do FC Porto.

Pronto, agora exageraste mesmo. Passa à frente.

4- Canto do Herrera

Vamos ser sinceros: todos nós já tivemos aquele momento, no trabalho, em que só nos apetece mandar um pontapé em alguma coisa sem nenhum sentido. Alguns, mais inteligentes e racionais, conseguem controlar-se e abordar a situação com pensamentos positivos, orações budistas e chás de ervas, ultrapassando o momento sem que ninguém sequer adivinhe que esteve tão perto de ver um pontapé em alguma coisa sem nenhum sentido. Outros, como o Herrera, só conseguem literalmente mandar um pontapé em alguma coisa sem nenhum sentido.

Ora, o meu problema com o canto que deu o golo do empate do Benfica no Dragão nem é só a evidência pontual ou a injustiça criada após a nossa boa exibição. O meu problema com o canto do Herrera é que é ali, naquele exacto momento, que eu consigo ver o que o FC Porto tem sido para os adversários nos últimos quatro anos: uma equipa que se auto-destrói. Quando, nos últimos minutos, um jogador que tem apenas outro por perto tenta acertar-lhe com a bola e ganhar pontapé de baliza, mas falha este gesto técnico de excelência e acaba a dar um canto fatal, está só a dizer-me uma coisa: Catarina, deixa de te chatear tanto com isto, não vale a pena, o futebol nem sequer é assim tão bonito e talvez esteja na hora de te começares a interessar por outras coisas que não dependam tanto do Herrera.

5- Empates

Perdi-lhes a conta e, sinceramente, numa altura destas da época ninguém leva a mal que eu não leia informação desportiva que me esclareça, pois não? Mas foram muitos empates. Muito tempo passado longe da baliza. Muito tempo a falhar golos. Muito tempo a deixar os outros acreditarem que é fácil jogar contra nós. E, além disso, que raio de resultado é um empate? Quem é que inventou isto sequer? Então faz-se um desporto espectacular, uma ideia incrível que envolve ir num determinado sentido e enfiar um esférico num local devidamente assinalado, e há alguém que se lembra de dizer: "Epa, isto era giro era se, além dos jogos em que alguém enfia o esférico num local devidamente assinalado mais vezes do que a outra equipa, fosse possível as duas equipas enfiarem o esférico num local devidamente assinalado o mesmo número de vezes!". E suponho que alguém, corajosamente, tenha perguntado: "Então mas se a ideia é ganhar ou perder, o que é que se faz nesses casos?". "Então, empata-se!" Que estupidez. Ridículo. E não é o videoárbitro que vai resolver isto.

6- Golo do Rui Pedro

Tenho 30 anos e já vivi de tudo graças ao FC Porto. Muitas alegrias, algumas tristezas, várias euforias, umas quantas frustrações. Muitas vezes até dou por mim a ter pena de quem não consegue sentir isto por um clube, seja ele qual for, embora ter 30 anos e ser do FCPorto facilite um bocadinho. Mas, se estão aqui a ler isto, não preciso de explicar-vos o que é gritar um golo em que já muito poucos acreditam. Acredito que se lembrem de alguns, tanto dos que vos deram campeonatos como dos que vos estragaram a festa.

E este golo do Rui Pedro, nos últimos momentos, contra o Braga, tinha tudo para ser, pelo menos, um daqueles golos que marca uma viragem entre a equipa a quem tudo acontece e a equipa a quem só acontecem fenómenos extremamente controlados que não me estragam a vida.
Festejei-o muito, confesso. Não eram os pontos em causa, nem sequer a classificação. Era aquele virar de página de que estamos à espera há quatro anos. Era aquele sacudir de azares, descrenças e dúvidas. Era aquele grito de, pronto, agora vamos unir-nos todos em torno desta equipa e levá-la até ao fim contra tudo e contra todos. Era bonito, tinha sido bonito, mas este lado selvagem e emocionalmente louco raras vezes tem sucesso, quando isolado de coisas indubitavelmente mais aborrecidas como tácticas e cenas. O problema, claro, não foi o Rui Pedro ter marcado um golo que nos deu esperança. O problema é que custa muito admitir que isso não chega.

7- O jovem jogador

Tem crescido nos últimos anos a ideia de que é bom ter uma equipa muito jovem. Formar jogadores, vê-los crescer na equipa principal, exportá-los depois a bons preços. E o FCPorto tem tido equipas muito jovens, sim senhor, lá isso é verdade. E nada nos pode encher mais de orgulho do que ver, por exemplo, um Rúben Neves a estrear-se numa Liga dos Campeões antes de tirar a carta de condução. E nada soube tão bem do que ver, por exemplo, um André Silva a marcar golos antes de poder entrar num casino. Foi tudo bonito, foi mesmo. Os nossos meninos são uns queridos. E quero acreditar que, com um treinador que os potenciasse devidamente, o problema da idade nem se colocasse. Mas, sendo assim, já conto uns anitos a sermos enganados pela ingenuidade, pela inexperiência. Falta-nos aquele velho, careca de preferência, que quase não se mexe em campo, a não ser quando é para ir gritar ao árbitro que está a ser incorrecto. Falta-nos aquele brasileiro manhoso que se atira para o chão, empurra treinadores adversários e ainda diz, em voz fininha, que espera que o Moreirense desça de divisão, como se isso interessasse a alguém além de a um velho senil que eu inventei agora na minha cabeça. Mas não me entendam mal: não tenho absolutamente nada contra os jogadores jovens. Estou é velha demais para aguentar isto.

8- Para o ano é que vai ser

Por muito que procuremos em campo, no banco ou na bancada os culpados por mais um falhanço, é óbvio que a época se explica também por problemas hierarquicamente superiores. Aguardo então ansiosamente por uma análise fria, crítica e justa ao que se passou. Não estou habituada a perder e só sei ser exigente. Sou agnóstica, mas crente no Futebol Clube do Porto. Como pessoa racional que sou, quando o Rui Pedro entrou na Madeira, prometi que ia a Fátima se ele marcasse. Portanto, pensemos nisto: o Papa é nosso, mas se Deus existe certamente não o é, por isso temos muito trabalho pela frente.

9- Um Azar do Krajl e Rogério Casanova

2016/2017 já seria difícil se estivesse sossegada no meu lar, mas ainda por cima tive de partilhar isto com dois bazófias mesmo do Benfica e um deprimido mesmo do Sporting. Eu era razoavelmente feliz quando o FCPorto não ganhava e eu não via nada dos outros, não lia nada dos outros, não sabia nada dos outros. Agora, o Benfica não joga um caracol mas ganha e eu tenho de ler que o Pizzi é o melhor não amarelado do mundo. Agora, o Sporting também não ganha e eu tenho de ter pena do Zeegelaar. Não se faz.


10- A minha família

Não é novidade para os leitores que tenho um marido benfiquista. É, aliás, graças a isso que escrevo aqui. E foi também graças a ele que pude escrever aqui, porque ao longo da época foram necessárias muitas horas de visualização de jogos e de pensamento intelectual para escrever para a Tribuna.

Para mim foi duro, porque tive de ver os jogos todos do FC Porto, várias vezes até no estádio para proporcionar uma melhor experiência aos nossos leitores, enquanto o meu marido tomava conta do nosso filho, dava-lhe banho, alimentação e atenção ou o adormecia enquanto ele chorava por estar a ser privado de ver o futebol espectacular que se praticou.

Sim, é verdade: enquanto eu tinha de ver bola, ele tinha de tratar da casa, do filho, de tudo. Enfim, somos uma família tradicional. Por isso, ficava-me bem agora aproveitar o momento para lhe agradecer, mas basta-me olhar para a cara dele por estes dias para perceber que, afinal, ele parece muito mais feliz por ter feito essas coisas do que eu. Ou seja, devo ter sido enganada aqui algures no processo.

E, quanto ao nosso filho, não, ainda não tem clube. Mas, desde que nasceu, o Rui Vitória foi campeão duas vezes, por isso uma coisa é certa: ainda não percebe nadinha de bola e já dá Um Azar do Krajl.