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Lá Em Casa Mando Eu

Comprem estes, vendam aqueles e apaguem o e-mail - ou então contratem o Nhaga (pela diretora desportiva que há em Lá Em Casa Mando Eu)

Agora que a Taça das Confederações terminou, é tempo de as pessoas se dedicarem realmente ao que interessa, diz Catarina Pereira, arvorada em diretora desportiva do seu FC Porto

Catarina Pereira, Lá Em Casa Mando Eu

Sérgio Conceição e Pinto da Costa na apresentação do novo treinador do FC Porto para 2017/18

MIGUEL RIOPA/AFP

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2017/2018, vamos a isso. Finalmente podemos deixar de fazer de conta que andamos preocupados com a Taça das Confederações e podemos dedicar-nos ao que realmente interessa.

Finalmente podemos passar a fazer de conta que estamos ansiosos pelas férias para descansar e não para ver jogos de pré-época manhosos contra uma equipa da terceira divisão alemã (calma, mister Vítor Pereira, não era boca para si) às duas da tarde.

Chegou a hora de começar o trabalho. De ver quem chega, de esperar que uns não saiam, de ajudar a fazer as malas de outros, de limpar a caixa de entrada do e-mail, essas coisas essenciais. Normalmente, nesta altura já há muito para contar, mas neste último mês nós, portistas, temos estado relativamente descansados, a não ser à terça-feira no Porto Canal e ao sábado no Expresso.

Até agora, oficialmente, só saiu André Silva e, ainda que nos fique bem a conversa de estarmos tristes por perder um jogador da formação com um grande potencial, a verdade é que tudo indica que foi uma boa venda.

Tenho grandes dúvidas que André Silva fosse melhorar muito em 2017/2018, com Sérgio Conceição e ainda por cima sem um bruxo. E tenho grandes dúvidas que conseguíssemos fazer aqueles 38 ou 40 milhões sem perder jogadores mais importantes na equipa.

Quanto a entradas, estamos excelentes a fazer-nos de desinteressados, para os outros pensarem que temos um excelente plantel e ficarem já cheios de medo. Admito que possa ser ainda uma estratégia incrível para baixar preços, mas também confesso que me falta aquela sensação tão típica de início de verão, aquele nome esquisito de um jogador para ir procurar ao YouTube, aquelas capas com ex-treinadores do rapaz a prometer que é o próximo Jardel, Lisandro, Falcao, Jackson...

Não é que eu esteja preocupada com as notícias de que o treinador conta com Hernâni, Marega e Aboubakar para melhorar o nosso problema no ataque, oh por favor, claro que não, alguma vez eu iria entrar em pânico com isso? Qual seria o problema de dar outra oportunidade aos rapazes? Quem nunca passou por uma terrível experiência e ficou depois com uma enorme vontade em repeti-la? Toda eu sou paz e aceitação, como é óbvio. E, quando ganharmos o campeonato com um golo do Aboubakar, a ganhar no corpo a corpo ao defesa adversário e rematá-la lá para dentro como o ponta-de-lança matador que na altura já todos admiram, a passe do Marega, após um domínio de bola exemplar e um comentário intelectual do próprio, então aí vocês vão lembrar-se que eu fui a única portista a não levantar problemas com isto na pré-época, porque nunca na vida me iria assustar com irmos à luta com isto contra os Bas Dosts que aí andam. Ah pois é!

Relendo agora o último parágrafo, talvez não tenha sido suficientemente clara: eu acho, aliás, eu tenho a certeza que precisamos de um gajo que marque golos. Não me interessa se é da formação, ou se é formado em Belas Artes. Não quero saber se é jovem, ou se vem de um lar. Não estou sequer a pensar se é caro e o fair-play da UEFA e o tanas.

G-O-L-O-S. Só preciso disso. Aceito um ladrão, com 50 anos e que fale mal (ai, agora até parecia que queria o Jonas). O Soares é fixe e o Rui Pedro pode crescer muito, mas eu queria mesmo ser campeã para o ano, percebem? E, no campeonato português, ganhar quando nem se joga nada, só porque se tem um ou dois moços a marcar golos, tem sido quanto baste. Até porque, lá está, nós somos o clube do Jardel, do Lisandro, do Falcao e do Jackson... Só que depois... Que passou se?

Ainda por cima, até aposto “200 euros o tempo que quiser, se for três é 400” que ainda vamos sofrer um desgosto neste mercado. Mas não, nem consigo imaginar que se venda o comendador Danilo. Um dia isso terá de acontecer, eu sei, mas não agora. É que nem vou falar mais disso para não dar azar (ultimamente, tenho sido levada a crer que isto do misticismo pode ajudar). Ora, ainda por cima parece que vamos despachar o suplente por meia dúzia de trocos.

É verdade, Rúben Neves não era um imprescindível, mas também escusávamos de mandá-lo de castigo para voltar a ser treinado pelo Nuno. É que parece que já o estou a ver, na segunda divisão inglesa, a ter de lhe explicar que ninguém quer saber da fortaleza do Wolverhampton. Coitado, parte-me o coração. Mas venha então lá esse Mikel para o conhecermos melhor, tudo bem, também não é por aqui que eu desisto.

Mas, dizia eu, pressinto que vem aí um desgosto. Nunca imaginaria dizer isto há um ano, mas também espero mesmo que ele não venha do centro da defesa. Felipe e Marcano têm de ser os nossos centrais, não brinquem com isto. Aceito o Martins Indi de volta, para aqueles jogos da Taça da Liga em que estão 200 pessoas no estádio. Estando o Boly de saída, aceito também se tiver de ser o Reyes, para aqueles treinos em que há um colete a mais. Tudo bem, por aqui estamos resolvidos.

Imprescindíveis não encontro mais. Gostava de ficar com Casillas, não só porque é o Casillas, mas também porque não me julgo preparada para a barba do José Sá. Pagar por um palmarés como o do espanhol é difícil, mas tenho a certeza que alguém lhe poderá lembrar que numa Nova Iorque qualquer não há cá Cantareiras para passeios de bicicleta (Central Park? Que parolice, please). Pois é, Iker, o dinheiro não é tudo na vida e eu digo isto por me preocupar contigo, não com a intranquilidade que uma substituição na baliza possa causar à minha equipa, claro.

Também gostava de ficar com Maxi, admito. Já sei, é caro e temos muitas opções (Ricardo Pereira, Victor García, o puto Fernando Fonseca, blá blá blá), mas esqueçam, por momentos, que Maxi Pereira é lateral-direito e, portanto, tem como missão tapar a nossa ala direita de forma a impedir adversários de cruzarem ou rematarem daquele lado do campo. Se para o ano estivermos na luta pelo título e um menino querido nos roubar escandalosamente, pensem lá, fechem os olhos e imaginem (como se fosse difícil...): quem é que vocês chamam para ir resolver o problema? O vídeo-árbitro? Ou o Maxi Pereira? Eu voto Maxi, sem dúvidas. Pela verdade desportiva.

Do outro lado, Alex Telles não parece ter interessados, por isso estou relaxada. Se Rafa Soares ficar no plantel (uma vez prometeram-mo e depois não se concretizou, por isso agora só acredito quando o vir de azul e branco, em cima do relvado do Dragão, depois do dia 31 de agosto), suponho que Layún seja para vender. E tenho pena, pela polivalência e interesse que tinha no clube, mas não se pode ter tudo (e aquele penálti contra Portugal, rapaz, tu não podes estar bem se achas que podes fazer aquilo no FC Porto e não levar sete jogos de castigo a seguir).

Tanta conversa e ainda me faltam tantos lugares. Só que não foi por acaso que os deixei para o fim. É que não sei bem o que quero. Gostava de ter um André André, com a técnica do Óliver e a experiência do Herrera, ou um Óliver com a postura do André André e a experiência do Herrera, ou um Herrera com a postura do André André e a técnica do Óliver. Gostava de ter um Otávio, com o fogo do Corona e a irreverência do Brahimi, ou um Corona com a vontade do Otávio e a irreverência do Brahimi, ou um Brahimi com o fogo do Corona e a vontade do Otávio. Isto é difícil.

Se não pensar muito, sei que só Brahimi é decisivo. Mas já tenho pesadelos com a relação que poderá criar com o treinador. É que das duas, uma: ou Sérgio Conceição acrescenta a Brahimi aquele bocadinho de loucura que ele precisa para deixar de levar porrada sem piar, ou Brahimi acrescenta a Sérgio Conceição aquele bocadinho de loucura que ele precisa para andar sempre à porrada e a piar. Portanto, talvez seja melhor começarmos a procurar um extremo ou outro, e um médio ofensivo ou outro, porque, além daquele problema de não marcarmos golos suficientes, pode dar-se o caso de não termos plantel para sequer os criar. Ou isso, ou deixem-se de coisas e contratem o Nhaga.

Entretanto, só espero contagiar-vos com todo este otimismo e confiança. Sintam daqui toda a minha energia positiva para esta época. Vamos fazer da nossa vontade a poção mágica que vai empurrar os rapazes, sejam eles quais forem, para o título. E, pelo sim, pelo não, juntem-lhe uma pata de galinha preta, duas pingas de sangue de morcego e um ramo de salsa da Amazónia.

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