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Jardel, Deco (que o Benfica ahahahaha não quis) e Lucho: as melhores contratações que eu me lembro, por Lá Em Casa Mando Eu

Catarina Pereira ainda brincava com bonecas quando um certo e determinado avançado brasileiro chegou ao FC Porto. E é assim que começa esta lista das melhores contratações

Catarina Pereira, Lá Em Casa Mando Eu

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Jardel

Estávamos no verão de 1996, o que significa que eu ainda brincava com Barbies, nós todos ainda pagávamos as coisas em escudos e o Vítor Baía infelizmente tinha acabado de decidir sair da baliza naquela jogada do Poborsky. Algures nessa altura, o FC Porto foi buscar Mário Jardel. E, sinceramente, não me lembro de nenhum pormenor da transferência. De onde veio, quanto custou, quantas vezes foi anunciado num rival antes de assinar por nós, esses clássicos. Ainda me lembro de todas as letras do primeiro álbum das Spice Girls, que saiu nesse ano - como certamente também se lembram -, mas não consigo, por muito que me esforce, lembrar-me da sensação de ouvir pela primeira vez "Vem aí o Jardel" (já do "Wannabe", é só pedirem).

Não é que eu ligasse pouco a futebol. Apesar das Barbies e das Spice Girls, tinha o quarto cheio de posters de jogadores do FC Porto. Só que crescer com vitórias permitia-me isto: não me preocupar absolutamente nada com fosse o que fosse. E daí deixar desde já um abraço solidário a todas as crianças e a todos os adolescentes portistas que andam agora a fazer refresh nos sites de notícias, à espera do grande ponta-de-lança que aí vem para nos deixar mais calmos em relação àquele pormenor de AINDA NÃO TERMOS QUEM MARQUE MUITOS GOLOS. Pronto, foi só um desabafo, já passou. Estamos juntos.

Voltando ao Jardel. Há uns tempos, Drulovic lembrava numa entrevista a desconfiança com que o plantel viu a transferência. Nos primeiros tempos, houve até quem o gozasse. Jardel, como sabemos, não parecia um poço de técnica, agilidade ou sabedoria. E não havia YouTube para irmos ver se era verdade que ele sabia jogar à bola. Só que começou a pré-época e, sem muitas vezes se saber como, Jardel começou a marcar golos. E pronto, foi basicamente isso que se passou nos anos seguintes: Jardel a marcar golos.

De cabeça, a inspirar Carlos Tê entre os centrais, de pé direito, de letra, hat-tricks, pokers, sete golos de uma vez a uns pobres coitados, de pé esquerdo, de primeira, fora da área, a passe do Capucho (lembro-me melhor deste golo do que do que jantei ontem), etc. Jardel marcava golos. Melhorou a qualidade de jogo, terá feito mais na vida além disso (infelizmente), mas é assim que me lembro dele.

Daí que não me interesse muito de onde veio, quanto custou e até para onde foi (coitado, é que nem queiram saber). Se fosse hoje, certamente me iria queixar e as palavras iriam ficar registadas no mundo da internet, por isso ainda bem que, em 1996, eu andava entretida com Barbies e Spice Girls para evitar tal asneira.

Deco

Entre Jardel e Deco há um pequeno hiato de tempo que me permite recordar melhor o que se passou neste caso. A história da transferência de Deco é, aliás, algo que faço questão de ter tão "à mão" na minha memória como o meu número de contribuinte ou a data de nascimento do meu filho. É verdade que, fosse como fosse, esta transferência seria sempre das melhores de sempre do clube. Porque Deco foi um dos melhores de sempre do clube, provavelmente mesmo o melhor que a minha geração viu.

Descrevê-lo a um jovem que nunca tenha usado um walkman ou discman (porra, não és do tempo dos discmans? Então o que estás a fazer sozinho no computador a esta hora? Vá, xixi, cama, depressinha) será sempre injusto. Deco era tudo: sabia dominar, pensar, passar, cruzar, rematar, jogar. E o que me impressionava mais, num verdadeiro 10, era a capacidade que tinha de recuperar. Sim, era tudo: incansavelmente rápido quando era preciso e inteligentemente lento quando tinha de ser. Enfim, é melhor parar senão choro.

Deco veio porque o Benfica não o quis. E esta é, modéstia à parte, a frase mais bonita que aqui escrevi. Ter Deco seria sempre uma enorme honra, mas aproveitá-lo quando os outros não o quiseram foi também um enorme gozo. Deco foi o FC Porto da minha vida, Deco foi Sevilha e Gelsenkirchen, Deco foi as Antas e o Dragão. Já sei, já o disse: Deco foi tudo. E tudo porque o Benfica não o quis. AHAHAHAHAHAH! O Benfica não o quis! Obrigada! Muito obrigada mesmo! Tinha isto aqui para vos dizer há anos!

Alenitchev

No FC Porto de Deco, curiosamente, também coube outro grande médio. Menos exuberante, é certo, mais limitado, claro, mas outro grande médio. E vinha de Itália. Wow, de Itália! Pois é, caros jovens que acham que o Snapchat é uma cena útil (não é, desculpem mas não é), nessa altura Itália era uma cena do caraças. Sim, bem sei que para vocês Itália é só o país que paga muito pelo João Mário e pelo André Silva, mas para mim Itália era O futebol. E, se conseguíamos ir lá buscar um jogador, ele só podia ser espectacular e nós uns génios do mercado de transferências.

Ora, Alenitchev era mesmo espectacular. E nem sequer era titular indiscutível, o que diz muito do que era o plantel do FC Porto comparado com o que agora tem o Herrera a capitão. Enfim, adiante. Mas Alenitchev é mais do que o campeonato de onde veio, porque foi o nosso homem das finais. Marcou nas duas: Taça UEFA e Liga dos Campeões. Parece que foi há mil anos, mas eu lembro-me porque estive lá. Sevilha e Gelsenkirchen. Se me perguntassem assim: "Quanto pagavas por um jogador que viesse agora para o FC Porto e marcasse em duas finais europeias consecutivas?" Bem, não quero envergonhar-me, mas era muito. E Alenitchev valia tudo isso.

Lucho

Entre o FC Porto de Jardel, o de Deco e de Alenitchev e o de Lucho, muita coisa mudou. Passámos, por exemplo, a ter de comprar muitos jogadores. Não só porque nos tornámos campeões de vendas, mas também porque algures no tempo deixámos de formar o suficiente. Da América do Sul sempre vieram muitos, mas o que se passou com Lucho foi que, na ausência de um jogador nascido e criado no FC Porto, teve de ser ele a assumir esse papel.

E é curioso porque, do River Plate (oh, Lucho, vieste dos maus...), chegou um rapaz tatuado, com brincos e estilo e com um ar sereno de quem nunca na vida se iria incomodar com isto do futebol. Olhando bem, talvez realmente nunca se tenha incomodado. Ele era só melhor do que os outros e comandou-nos por muitos títulos e vitórias. Voltou depois, mais tarde, e nada que me possam dizer me irá convencer que não continuou a ser isso mesmo: El Comandante.

Cissokho

Decidi que ia escolher cinco contratações e cheguei aqui e não sabia o que dizer. Até que me lembrei que pagámos meia dúzia de trocos para ir buscar o Cissokho ao Setúbal e o vendemos uns meses depois por 15 milhões de euros. Voltou depois, mais tarde, e nada que me possam dizer me irá convencer que não continuou a ser isso mesmo: a melhor transferência de sempre.