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Lá Em Casa Mando Eu

Ao meu filho, que um dia vai saber como foi campeão europeu (um ano depois, uma carta de amor por Lá Em Casa Mando Eu)

Catarina Pereira responde à pergunta do dia - “Onde estavas a 10 de julho de 2016?” - com um texto dedicado ao filho

Catarina Pereira, Lá Em Casa Mando Eu

NUNO FOX

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Quando uma mulher está grávida, há momentos que são mesmo marcantes: a excitação com cada ecografia, a ansiedade de fazer o ninho e o gosto de descobrir que se vai estar de licença de maternidade durante um Europeu. E sim, eu pensei que ia ter tempo para ver todos os jogos, com um pequeno ser humano calminho e dorminhoco no colo, até quem sabe já tentando ensinar-lhe a regra do fora-de-jogo (qual é a idade ideal para isto? 3 a 6 meses? 6 a 9? Disto não falam nos livros…). Quem nunca sonhou com um bebé fofinho, deitado numa espreguiçadeira, enquanto lhe explicamos o apuramento da fase de grupos para os oitavos e por aí em diante? Enfim, passei muito tempo a pensar nisto, até que tu nasceste e eu percebi que nada disto ia acontecer.

O Euro 2016 foi, para mim, o espaço que sobrava entre sestas, fraldas, amamentação e cólicas. O que significa que, apesar de não ter visto todos os jogos com um pequeno ser humano calminho e dorminhoco no colo, nunca me vou esquecer dos momentos magníficos que passámos juntos. O mais marcante, claro, aquela final em Paris. Era domingo, estava calor e eu não dormia há mais de três meses, o que pode querer dizer que aquilo das traças e da lesão do Ronaldo foi só uma confusão com a praga que eu lancei aos pais que têm bebés que dormem. Não sei, ficaremos sempre na dúvida.

Ficámos os três em casa: eu, o teu pai benfiquista e também descrente na seleção e tu, o tal bebé que não me deixou gozar a licença de maternidade com que eu sempre sonhei. É estranho admitir isto, porque era a final de um campeonato da Europa, entre Portugal e França, era domingo e estava calor, portanto devemos ter sido as únicas pessoas do país a não fazer planos mais elaborados para este dia, como ir ver o jogo com os amigos numa esplanada e beber cerveja e comer tremoços, mas não sei se já te disse que nós não dormíamos (ainda não dormimos. És cruel, tu), portanto dá-me lá este desconto de não ter pensado melhor neste dia incrível.

Ora, dito isto, o que vem a seguir não é muito interessante. Entre sestas, fraldas, amamentação e cólicas, mal acompanhámos aquelas horas que antecedem o jogo, a excitação com cada direto de adeptos bêbados em Paris, a ansiedade de ver a equipa a pisar o relvado e o gosto de se estar a viver História. Sim, a História. Porque quando fores suficientemente grande para perceber isto, claro que também vou fazer questão de te contar onde estava quando Saramago ganhou o Nobel (curiosamente, à entrada para uma aula de Português, com uma professora que estava de lágrimas nos olhos de orgulho), mas há tempo para tudo e desconfio que a parte do futebol vais entender mais cedo.

Não sei o que comi (sei que não podia beber cerveja por tua causa), não sei como estava vestida (sei que, provavelmente, com vómito), nem sei se eu e o teu pai falámos muito sobre o que se estava a passar. Sei que tu adormeceste. Tu, o bebé que não dormia mais de uma hora seguida, adormeceste que nem um anjinho. Foste o pequeno ser humano calminho e dorminhoco dos meus devaneios de grávida. Deixaste-nos ver o jogo todo, sem interrupções, sem choros, quase sem te mexeres (só fomos ver se respiravas umas seis vezes, não éramos uns pais muito malucos). Não me ouviste a dizer ao Ronaldo para se levantar, porque ele estava obviamente a fazer fita naquele lance com o Payet. O teu pai garante que eu soltei um “só bolinha”, como se eu fosse capaz de ir tão longe. E tu dormias.

Não viste a troca de olhares entre mim e o teu pai quando o Éder entrou. “O Éder?!?! Que passou se?!?”, perguntava-me ele por telepatia, já na altura utilizando uma linguagem que só mais tarde vim a perceber. E aqui entramos numa dimensão difícil de explicar-te. É que o Éder era, pronto, o símbolo de tudo o que podia correr mal a Portugal porque, resumidamente, não parecia ter muito jeito para o futebol. E, além de haver muita gente a dizer mal dele (porque, a partir de um certo momento, meu querido filho, o futebol deixa de ser só para te divertires só com os amigos e a mamã depois vai dizer-te quando for para passares a destruí-los), havia mesmo um certo gozo nacional ao Éder, como se ele nos fizesse lembrar do quão maus éramos noutras coisas, como na economia ou na política, como na sociedade e na vida. O Éder falhava muitos golos, muitos passes, muitas receções. O Éder fazia-nos sentir ridículos. Não por ele, mas por nós, que nunca tínhamos ganho nada e, no fundo, acreditávamos que nunca haveríamos de ganhar. E tu sempre a dormir.

Daí não teres visto o Éder a transformar-se no nosso super-herói. Continuo sem saber muito bem como te transmitir a sensação, mas vê-lo a receber bolas, controlá-las, passá-las, enfim, a entrar no jogo com confiança, foi das coisas mais estranhas que eu já vi, e olha que eu vi o duplo-pivot do Paulo Fonseca e os desenhos do Nuno Espírito Santo, por isso imagina. O teu pai garante que eu disse “Estou pelo Éder”. Nesta altura, meu amor, já estávamos todos. Os teus pais, por momentos, até deixaram de ser aqueles fanáticos dos clubes que olham para a seleção com desprezo e sem emoção, porque passámos a acreditar. Até tu, que dormias.

Então, com as janelas do pequeno apartamento todas fechadas, para afastar o calor e os barulhos que pudessem acordar-te, ouvimos, de repente, um barulho lá de fora. Um barulho intenso, um grito que não tinha origem, um festejo de toda a gente. Pois é, meu rico filho, nós tínhamos uma operadora que estava sempre atrasada em relação às outras e, portanto, soubemos antes do tempo que ia ser golo. Agora imagina bem: nós ouvimos Portugal tornar-se campeão europeu antes de o vermos e, pior, durante todos aqueles segundos de diferença, sempre soubemos que não o íamos poder festejar. Porque tu dormias.

Ainda houve ali um momento, em que o Éder recebe a bola e o teu pai solta um “Vai ser do Éder!”, numa mistura de incredulidade e misticismo (só mais tarde soube que ele tinha um contrato com um bruxo), que me preocupou. Só que ali estávamos nós, dois recém-papás, que não dormiam, que nem sequer eram de se incomodar com a seleção, a olhar para uma televisão atrasada à espera de ver a tal História. E pumba, o Éder chutou, a bola entrou e nós festejámos em silêncio. Com o corpo, com os olhos, mas em silêncio. Foi o golo menos barulhento da minha vida, mas dos mais sentidos. Tenho pena que estivesses a dormir, porque deve ter sido hilariante ver-nos naquela figura.

Pouco depois, o jogo acabou e tu acordaste. Mas não acordaste a chorar, com fome ou irritado com alguma coisa, como era habitual. Acordaste super tranquilo, espreguiçaste-te e olhaste para nós com um ar, hei de jurar, de quem pergunta se se passou alguma coisa de relevante para estarmos tão excitados, mas contidos. E nós rimo-nos, não só porque éramos uns pais babados, mas sobretudo porque éramos campeões europeus, com um golo do Éder, em Paris, contra a França.

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