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Lá Em Casa Mando Eu

Lá em Casa Mando Eu atrasou-se na crónica porque esteve a analisar William, mas prefere o sr. comendador: “A melhor coisa que me aconteceu”

Catarina Pereira não entende muito bem onde é que "o tio" Sérgio Conceição foi desencantar uma equipa tão boa, mas há elogios para todos os portistas, especialmente para Danilo: "O senhor comendador é a melhor coisa que me aconteceu na vida nos últimos anos, seguido muito de perto de ter um filho. Se o Adrien chora daquela maneira por deixar o Sporting, imaginem eu quando o Danilo sair"

Catarina Pereira, Lá em Casa Mando Eu

António Cotrim/Lusa

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Esta crónica só foi escrita na segunda-feira de manhã, porque a sua autora esteve a analisar a exibição de William Carvalho.

Casillas

Devo começar por dizer que sou frontalmente contra haver jogos em dia de eleições. Primeiro, porque o dia de reflexão me parece ter sido inventado de propósito para não termos mais nada que fazer a um sábado do que ir ver um Sporting-FCPorto. Depois, porque, mesmo com as urnas já fechadas, os eleitores devem ter a possibilidade de se irem mantendo informados sobre o que aconteceu no ato eleitoral. Por exemplo, os adeptos sportinguistas deviam ter podido acompanhar o desastre eleitoral do PSD em vez do desastre lateral do Jonathan Silva. E, finalmente, porque é óbvio que, de uma forma ou de outra, um jogo destes pode sempre fazer aumentar ainda mais os valores da abstenção, quanto mais não seja a do Casillas, que, além de uma ou outra saída em falso, decidiu não participar no clássico.

Layún

Foi a maior surpresa do onze e parece ter consolidado o segundo lugar nas preferências do treinador, relegando Maxi Pereira para terceiro e para a pré-reforma sem penalização. Enquanto a equipa teve força não teve grande trabalho, mas, com o diminuir da entreajuda a defender, sentiu mais dificuldades em travar Gelson e os passes em profundidade para Jonathan Silva. Quando digo em profundidade é porque iam parar ao fosso mesmo. Teve ainda a última oportunidade da partida, ao marcar um livre direto nos descontos, que Rui Patrício defendeu, porque, ao contrário de Casillas, o guarda-redes do Sporting é um ativista das noites eleitorais e, por isso, talvez lhe deseje que um dia vá parar ao mesmo sítio que o Isaltino (e não, não estou a falar da Câmara de Oeiras).

Felipe

Não sei se repararam, mas a grande excitação dos adeptos do Sporting na primeira parte foi aos 39 minutos, quando Felipe cortou uma bola a Gelson. Braços no ar, todos em pé, gritos de "bolas, quase chegávamos à baliza dos amigos marqueses do Norte" e promessas de ir à missa não só ao domingo, para agradecer a Deus e a Bruno de Carvalho por tamanha beleza de "oportunidade". De resto, o jogo de Felipe pode resumir-se numa pergunta: Bas... Quê?

Marcano

No final do jogo contra o Barcelona, Jorge Jesus disse que, a jogar assim, o Sporting ganharia ao FC Porto de certeza. Ora, nessa altura, Marcano terá posto na cabeça que, a jogar assim, o Bas Dost não tocaria na bola de certeza. Um deles tinha razão.

Alex Telles

Aos 11 minutos, tirou uma bola a Bruno Fernandes, Bola de Ouro já desta época e futuro Nobel, e os sportinguistas gritaram "é falta, poças! Mas será que você não percebe nada de vela?". Mas Alex Telles não se deixou afetar pela agressividade desta linguagem e continuou uma exibição segura até aos 59 minutos, quando lhe parou o cérebro num lançamento e permitiu o maior lance de perigo da equipa adversária, num remate desastroso precisamente de Bruno Fernandes, Bola de Ouro já desta época e futuro Nobel. Não vou transcrever o que lhe gritei nessa altura, mas deixo duas pistas: não incluiu "poças", nem referências a vela.

Danilo

Começou o jogo a ser empurrado por Coates na nossa área e as câmaras televisivas apanharam-no a perguntar ao uruguaio "foi, não foi?", arrancando a confissão do adversário e mostrando que o estágio na CIA não lhe apurou só a capacidade intelectual. É por primeiras partes como esta que estou convencida que o senhor comendador é a melhor coisa que me aconteceu na vida nos últimos anos, seguido muito de perto de ter um filho. É quase difícil descrever a emoção de o ver limpar aquele meio-campo e sair ao intervalo sem uma chuteira e amparado em ombros, para ainda voltar e terminar o jogo em óbvio esforço, já com mais erros, mas a mesma determinação. Se o Adrien chora daquela maneira por deixar o Sporting, imaginem eu quando o Danilo sair.

Herrera

José Sena Goulão/Lusa

Correm 19 minutos de jogo, o FC Porto sai muito bem para o contra-ataque e Herrera recebe a bola ainda no nosso meio-campo. O mexicano vai sempre com ela e ninguém do Sporting vai lá (compreende-se, é o Herrera). Até que Herrera decide rematar estupidamente, em vez de deixar a bola na direita, onde vinha Layún sozinho. Fiquei doida, apeteceu-me mandar umas cadeiras ao ar, mas depois lembrei-me que isto não é uma Assembleia-Geral do Benfica.

Sérgio Oliveira

Segundo jogo a titular, segundo jogo a provocar-me a reação "olha, o miúdo até se safa". Foi uma lapa atrás de Bruno Fernandes, Bola de Ouro já desta época e futuro Nobel, e deixou os sportinguistas a pensar: "Caramba, onde é que o tio Sérgio terá aprendido isto de aproveitar jogadores que já dávamos como perdidos para esta modalidade que, a seguir ao hipismo, nos agrada tanto?".

Brahimi

Tenho uma pena muito particular de quem tem de marcar Brahimi. Na verdade, tenho pena dos laterais do Sporting em geral. Foi mais um grande jogo do nosso argelino, com belas receções de bola, passes surpreendentes e tentativas de marcar golo, da qual destaco uma aos 23 minutos, quando recebeu um grande passe de Danilo, flectiu para o meio e chegou a ter ângulo de remate, mas decidiu ir dar uma volta e ganhar o referendo da independência da Catalunha em vez de chutar e acabar com o centralismo de Lisboa.

Marega

Teve as duas melhores oportunidades para marcar, mas a trave e Rui Patrício não deixaram Rogério Casanova confirmar que o Sporting resulta de um alinhamento cósmico entre o azar e a capacidade de autodestruição. Passou o jogo a ser muito castigado pelas faltas dos adversários, mas é uma pena que os árbitros não protejam o talento puro. Levou cartão amarelo por impedir Rui Patrício de sair com a bola, a chamada falta inteligente, uma vez que o guarda-redes estava a ser o melhor jogador do Sporting. E foi o único que, com o passar do tempo, não foi ficando cansado, provando que Marega resulta de um alinhamento cósmico entre a força e a capacidade de superação. O último lance do jogo é, aliás, ele a correr com William ao lado (calma, William não corria, estava era ali por acaso), tendo comentado Luís Freitas Lobo: "Dois monstros".

...

...

Silêncio.

Aboubakar

Também teve as suas oportunidades para marcar, mas o FC Porto parecia destinado a perder dois pontos em Alvalade de qualquer maneira. Não foi festejar para o balneário do Sporting, porque esse tipo de celebrações está proibido nesse local há 15 anos.

Otávio

Fica um pouco aquela ideia que, com um plantel melhor, Sérgio Conceição podia ter melhorado a equipa com as substituições. Mas é o que temos e não vai ser hoje que me vão ver queixar.

Soares

Entrou numa altura em que as equipas já pouco conseguiam fazer, mas na altura perfeita para me deixar aperceber que, nos últimos quatro anos, tínhamos perdido este jogo com um golo na própria baliza do Brahimi após uma recuperação de bola de um lateral do Sporting.

Corona

Esteve pouco tempo em campo, mas ainda conseguiu destacar-se num lance, aos 90 minutos, em que passa por dois jogadores do Sporting e é abalroado por trás por William Carvalho, que não vê o cartão amarelo. Ainda assim, Pinto da Costa nem sequer se levantou da tribuna presidencial, indignado, tendo Bruno de Carvalho pediu desculpa na mesma. As coisas que uma pessoa tem de fazer para tentar que o Benfica continue a enterrar-se.

Sérgio Conceição

No fim, com os jogadores em roda no relvado, gritou "Vamos ser campeões, c...! Em relação ao Sporting, desculpem falar à português, tanta m… e zero. Não temos medo de ninguém, nunca perdemos um filho da p... de um resultado!"