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Lá Em Casa Mando Eu

O que tem a ver um mestre do yoga que acredita nos signos do zodíaco com uma moca de pregos num juiz? Lá Em Casa Mando Eu explica

A Catarina Pereira concordou quase integralmente com as escolhas de Sérgio Conceição. Houve uma que não a co-autora de Lá Em Casa Mando Eu não percebeu - e vocês já vão perceber porquê

Catarina Pereira, Lá Em Casa Mando Eu

FRANCISCO LEONG

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José Sá
Ouvi atentamente todas as explicações que Sérgio Conceição deu para justificar o afastamento de Iker Casillas. Só o nosso treinador sabe como terá sido importante para o grupo dar a titularidade a José Sá e, por achar estranho que tal faça sentido, começo a acreditar que sou eu que estou mal em achar estranho. Esteve muito bem José Sá, logo aos 6 minutos, a sair aos pés de um jogador do Boavista e tirar-lhe a bola sem penálti. Esteve ainda melhor José Sá, aos 22 minutos, ao impedir um golo de calcanhar do Boavista, um acontecimento que, de tão anormal e inesperado, provocaria certamente um efeito em cadeia que só terminaria com o fim do planeta Terra. Muito obrigada por isso.

Ricardo Pereira
Demasiado civilizado para lidar com a malta da rotunda. Jogar com Ricardo foi como enviar um mestre do yoga vegetariano que acredita em medicinas alternativas e signos do zodíaco para negociar com terroristas. A outra hipótese tinha sido enviar Maxi com uma moca com pregos para acertar num certo juiz. Sérgio Conceição preferiu a abordagem mais pacifista, como, aliás, várias vezes ao longo da sua carreira como jogador e treinador.

Felipe
Manteve a assertividade do costume, sendo o corte a finalizar a primeira parte a sua acção mais decisiva. Felipe é capaz de brilhar em noite de gala e em noite de Bessa, de jogar bem de fato e de fato-macaco, de marcar bem um Falcao ou um Yusupha. No fundo, Felipe é aquela peça de roupa que serve para qualquer ocasião.

Marcano
Quando um avançado do Boavista "faz pressão" sobre um defesa nosso, há pelo menos 20 anos que isto quer dizer que o nosso defesa corre risco de morte. Marcano estava a sofrer esse tipo de "pressão" quando cortou uma bola e ainda levou cartão amarelo por protestar com o árbitro por não assinalar falta. Mas penso que o importante a reter é que Sérgio Conceição transformou Marcano num homem capaz de protestar. Porra, temos mesmo treinador!

Alex Telles
Jogar contra o Boavista passa muito por sobreviver à pancada dos defesas quando se ataca e sobreviver à pancada dos avançados quando se defende. Alex Telles passou nos dois testes. Com alguma dificuldade, é certo, mas já nos damos por satisfeitos com isto.

Danilo
Fez mais um jogo competente, ainda que apenas acompanhado de Herrera e ainda visivelmente desconcentrado pela situação na Catalunha e por tudo o que isso implica em termos geopolíticos. Protagonizou também um choque metafórico entre as duas forças da cidade: de um lado um comendador de discurso fluído, génio tacticista e intelectual. Do outro um gajo com uma madeixa loira na cabeça. Epá, não se pode chamar dérbi a um confronto destes.

Herrera
Isolou Brahimi, mas quando passou já o argelino estava fora de jogo. Cortou uma bola que tinha perdido, mas o árbitro deu-lhe amarelo porque lhe pareceu ter ameaçado a integridade física de um jogador do Boavista (como se isso fosse possível!). Quase marcava um golo na própria baliza de cabeça, mas quase marcava um golo na baliza adversário de pé esquerdo. A minha relação com Herrera é muito esta exibição: podia gostar muito dele, mas não gosto lá muito.

Corona
Voltou à titularidade porque fez uns bons minutos no último jogo, ou porque treina incrivelmente bem. Mas o tempo ia passando e começava a sentir-se que ia fazer asneira: um passe para onde não está ninguém, um corte arriscado na nossa área, um remate sozinho de primeira que foi parar à Rotunda da Boavista... enfim, estava-se mesmo a ver que tudo tinha de acabar com um péssimo cruzamento dele que Brahimi transformou em golo.

Dragão de Ouro
Vamos fazer um minuto de silêncio por todos os treinadores que acharam que tinham melhor do que Brahimi na equipa ou que não se deram ao trabalho de o domar. Está? Nuno, percebeste? Ok, adiante. Bem sei que amanhã vão todos destacar o golo que marcou, a assistência que fez para o primeiro da noite, ou os vários dribles que trocaram as voltas à defesa do Boavista, mas o meu espírito crítico prefere salientar que, aos 17 minutos, não conseguiu dominar uma bola. Acho que nunca tinha visto. Um escândalo. A melhorar no futuro.

Marega
Até marcar um golo e mandar uma bola à trave, apenas tinha reparado em Marega quando o guarda-redes do Boavista estava a perder tempo com um pedaço de relva e a pedir para entrar um especialista que resolvesse aquele buraco. De repente, vemos Marega a chegar e meter aquilo direito num instante. Portanto, se um dia precisarem de, ao mesmo tempo, arranjar a relva e de ganhar um campeonato, já sabem: METE O MAREGA!

Aboubakar
Marcou o primeiro golo, que até parece que foi só encostar, mas que na verdade foi uma jogada inventada por ele. Esta semana, os olhares mais atentos terão reparado que, na gala dos Dragões de Ouro, Aboubakar era o único jogador sem fato. Mas eu vou explicar-vos uma coisa meus caros: nesta fase da vida, não é o Aboubakar que tem de vestir-se de gala, é a gala que tem de vestir-se de Aboubakar.

André André
Entrou para equilibrar o meio-campo numa altura em que o Boavista já não estava muito equilibrado e ainda foi a tempo de fazer a assistência para o terceiro, contribuindo para uma vitória muito saborosa e para o desligar de muitas televisões por esse país fora.

Maxi Pereira
Entrou tarde demais. Nem teve tempo de molhar a sopa para vingar a porrada que andamos a levar destes vizinhos há anos.

Reyes
Devido a uma falha no vídeo-árbitro, esta crónica vai ficar por aqui.