Tribuna Expresso

Perfil

Lá Em Casa Mando Eu

Lá em Casa Mando Eu fala-nos de ninjas zombies, dinossauros invisíveis, de visiting scholars e da metralhadora de Marcano

Ao analisar a vitória do FC Porto em casa frente ao Boavista (2-0), Catarina Pereira viu um Marcano cada vez emocional e dado a discussões, como aquele empregado de escritório tímido que começa a ter comportamentos que nos fazem pensar que mais tarde ou mais cedo vai limpar a malta toda num dia em que a impressora não funcione

Catarina Pereira, Lá em Casa Mando Eu

MANUEL FERNANDO ARAÚJO/EPA

Partilhar

Casillas

Encara os jogos com um ar que mistura tédio e confiança, mas a verdade é que está sempre alerta para aquele lance em que vai ter de aparecer: no caso do jogo de hoje, Iker aparece aos 56 minutos para defender um remate venenoso de Mateus. E sim, ainda é aquele Mateus, embora duvide que Casillas saiba que evitou um golo de um rapaz que, só com uma inscrição, fez um clube descer de divisão. Isto já foi há tanto tempo que tenho para mim que, desde que o futebol português existe, só há três coisas que se mantêm: são 11 contra 11, o Mateus pode jogar e o Bruno Paixão pode apitar.

Maxi Pereira

Voltou a ser titular para enfrentar um jovem do Boavista que até o podia ultrapassar em velocidade, mas nunca o ultrapassaria em Filosofia e Físico-Química, e foi-se aguentando com a sua habitual motivação: escolheu um adversário, passou a ter como objetivo a sua liquidação e só acalmou quando o outro viu amarelo. Desta vez foi Idris, mas não é pessoal, podia ser outro qualquer. Maxi joga sempre contra alguém, como se aquelas tretas do espírito de grupo e da união com os companheiros fossem uma grande lamechice. Aliás, se algum dia o deixarem falar na roda final, aposto que vai só dizer: “Estão a ver aquele ali? À saída é meu”.

Felipe

Abriu o marcador logo aos 2 minutos e só não bisou porque o segundo cruzamento de Sérgio Oliveira foi num canto e nós estamos em abstinência de bolas paradas sem Alex Telles. Depois, passou o resto do jogo a deixar-me preocupada com uma eventual lesão. O facto de ser ter aguentado até ao fim pode significar que aqueles gestos de se agarrar à coxa eram só exercícios de memorização da zona onde deve acertar em Jonas daqui a umas semanas.

Marcano

Tem-se revelado cada vez mais emocional e dado a discussões – como no lance em que vê cartão amarelo -, como se fosse um empregado de escritório tímido que começa a ter comportamentos que nos fazem pensar que mais tarde ou mais cedo vai entrar de metralhadora e limpar a malta toda num dia em que a impressora não funcione.

Diogo Dalot

Pareceu-me hoje mais em baixo, o que posso tentar explicar com o facto de já ter acalmado a excitação de ser titular no clube do coração aos 18 anos, ou com o facto de ter sido o único jogador do FC Porto convocado para as duas seleções nacionais (A e sub-21). O mister Sérgio Conceição tem conseguido milagres ao nível emocional deste plantel, mas é muito difícil convencer um miúdo que não é pior do que um Ricardo Pereira ou um Sérgio Oliveira por ser chamado à seleção e eles não. Vamos, Dalot, anima-te. Se a vida te correr bem, aposto que depois deixas de ir.

Herrera

Há várias coisas que mudaram em mim com a maternidade: por exemplo, não consigo ver imagens de crianças a sofrer e emociono-me sempre que vejo uma criança feliz. Daí que ver Herrera a falar na roda, no final do jogo, enquanto o filho (equipado à José Sá, vá-se lá entender aquela família...) ouve atentamente e fica com uma cara de orgulho de quem está a pensar “porra, o meu pai é o capitão do FC Porto, é um gajo do caraças”, pode ter mudado para sempre esta cronista que vos escreve. Não estava preparada para uma imagem tão forte e vou precisar de muitas asneiras do Herrera para ultrapassar isto e voltar às análises a que vos habituei.

Sérgio Oliveira

Um dos lugares comuns mais repetido por comentadores de futebol é “fez o mais difícil”. Normalmente, a expressão aplica-se a Bryan Ruiz, mas hoje Sérgio Oliveira garantiu que também nos lembraremos para sempre dele quando ouvirmos a expressão. Primeiro, porque levou uma cacetada de um jogador do Boavista (até aqui nada de novo, já nos aconteceu a todos), o árbitro – perto do lance e com visão total – expulsou-o, mas depois foi ao VAR para voltar atrás. Depois, porque finalmente marcou um penálti, mas tocou duas vezes na bola ao escorregar e o árbitro foi ao VAR anulá-lo. “Fez o mais difícil”, lá está. Mas a vitória não nos pode deixar esquecer que parecemos amadores a marcar penáltis. Portanto, ainda bem que não nos marcaram aqueles 15 na primeira volta.

Ricardo

Entrou com muita vontade e tão subido no terreno que Aboubakar pensou, por momentos, que finalmente lhe tinham arranjado outro amigo. Com o tempo, foi ficando para trás, até ter mesmo de acabar a lateral-direito, com Corona à sua frente na ala, levando-o a pensar, por momentos, que afinal não tem mesmo amigos.

Otávio

Nota-se que Sérgio Conceição estava preparado para fazer uma época com um plantel limitado, vê-se que estava também a contar com várias lesões e com a motivação que consegue dar a quem tem de substituir jogadores que, em princípio, não têm nada em comum, mas é evidente o enorme desnorte que se instalou com a ausência de Marega. É normal, atenção. Marega tornou-se no nosso guia espiritual, habituámo-nos à sua presença como uma garantia de que tudo teria de correr bem desde que ele ali estivesse. De forma que Otávio é só mais uma vítima deste vazio, não passando de um médio que tenta ser segundo avançado, ou de um ser humano que tenta ser Moussa Marega. Não lhe podíamos pedir mais.

Brahimi

Tem uma técnica absolutamente encantadora, havendo vários momentos em que parece impossível tirar-lhe a bola do pé. Evita os adversários e dá-lhes a volta como os pais fazem aos filhos pequenos no jardim: com alguma humilhação, mas sempre com um pouco de mimo. No entanto, ultimamente tem perdido fulgor na equipa e está cada vez menos decisivo, o que só pode levar-me a desejar que sejam estes os jogos que os olheiros analisem na altura de nos levarem os rapazes no final da época.

Aboubakar

Está mais forte e já teve vários lances que nos dão esperança para uma fase final da época em que precisamos daquele Aboubakar que levava tudo à frente até à baliza e não daquele Aboubakar com um ar completamente absorto, como os miúdos quando ficam a pensar em coisas do género “quem venceria uma batalha entre ninjas zombies e dinossauros invisíveis?”. Porra, Aboubakar, ganhavam os dinossauros, agora concentra-te para o próximo jogo.

Óliver

Entrou, tivemos mais bola, criámos perigo e jogadas rápidas. Não tentou, como o Hernâni faz sempre que entra, marcar um golo de trivela fora da área em corrida com 3 adversários à frente, pelo que desiludiu.

Gonçalo Paciência

Eu só lhe pedia um golo para cada 50 vezes que o outro senhor acedeu ao processo dos e-mails, mas ainda não foi desta.

Corona

Ostentou durante demasiado tempo o estatuto de titular, mas todos sabíamos que mais cedo ou mais tarde alguém ia descobrir que não será muito mais do que um visiting scholar.