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Carta aberta a Sérgio Conceição, célebre caçador de SS e do Schäuble: “Mister, obrigada por nos ter ressuscitado” (por Lá Em Casa Mando Eu)

Catarina Pereira, a metade portista de Lá Em Caso Mando Eu, aproveitou esta breve pausa no campeonato para abrir o coração - e o livro de memórias. E assim se recupera um belo verão no Euro2000 e uma notável exibição de Sérgio diante dos alemães

Catarina Pereira, Lá Em Casa Mando Eu

FRANCISCO LEONG

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Estávamos a 20 de junho do ano 2000 e no mundo ocorriam coisas tão estranhas quanto eu passar para o 9º ano, as Spice Girls começarem a desentender-se e a seleção nacional praticar um futebol bastante agradável e apurar-se com apenas dois jogos para os quartos de final do Euro.

Acredito que para si tenha sido um dia marcante, mas, antes disso, deixe-me recordar que foi o dia em que fomos jogar contra a Alemanha com os suplentes. Eu, que nem sou suspeita e acho que este foi o único torneio em que torci mesmo pela seleção, ainda hoje sinto o sabor do desprezo que mostrámos por pessoas como Oliver Kahn e Lothar Matthäus, que eram uma espécie de mistura entre comandante das SS e Wolfgang Schauble, mas a jogar mesmo muito bem à bola. Enfim, tivéssemos Éder nessa altura e aquela meia-final com os franceses bem podia ter terminado com eles a meterem uma mão... na cabeça, de desespero e dor.

Recordo eu este dia porque ultimamente dei conta que já trabalho com pessoas que não se lembram do Portugal-Alemanha do Euro2000 e do hattrick do Sérgio Conceição, e não por serem absolutamente desinteressantes, mas porque nessa altura estavam a aprender a andar e a não se alimentar espalhando a comida por um raio de cinco metros.

E isto para mim é chocante, não só porque ultrapassa a linha que tracei para a minha velhice, mas porque me preocupo com essas pessoas e com o que a falta destas memórias pode fazer, por exemplo, a um jovem adepto do FCPorto que só conheça o Sérgio Conceição como treinador.

Ora, serviu esta introdução para lhe dizer que eu me lembro. Lembro-me da vontade com que entrou nesse dia 20 de junho de 2000 e da raça que colocou em cada movimento, quase gritando, em vez de "golo", um "ESTE É PARA VOCÊS VEREM QUE EU DEVIA SER TITULAR INDISCUTÍVEL" (e passou a ser mesmo, porque se há coisa que também tenho ideia é de que não era fácil contrariá-lo).

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Lembro-me desse dia, mas lembro-me de muitos outros nas passagens pelo FCPorto pentacampeão e pelo FCPorto de Mourinho, com esse denominador comum: vontade, raça e uma enorme identificação com o que é este clube.

Portanto, obrigada por tudo isso. Obrigada por animar o meu verão de 2000 e nos fazer rir dos alemães. E obrigada, sobretudo, por me fazer lembrar de coisas tão bonitas quanto o FCPorto ser campeão com não sei quantos pontos de avanço e Rui Correia na baliza. Quero que saiba que, aconteça o que acontecer nos próximos dois meses, ninguém nos vai tirar isso. Mas agora vamos a assuntos sérios.

Poucas vezes na história recente do FCPorto terá sido tão importante ganharmos um campeonato quanto este ano. Não apenas pelos quatro anos sem títulos, mas porque há um poder rival que é preciso eliminar dentro de campo. E, no entanto, poucas vezes na história recente do FCPorto partimos tão atrás. Sim, somos o underdog.

Praticamente sem reforços, o mister construiu uma equipa a partir de alguns trapos e, jornada após jornada, fomos superando uma força bem visível que nos empurra precisamente no sentido contrário daquele que queremos ir.

Isto não aconteceu sem contratempos: demasiadas lesões e um futebol que oscila entre fazer-nos acreditar que o Sérgio Oliveira é o Iniesta com mais cabelo ou mostrar-nos que o Sérgio Oliveira é o Sérgio Oliveira com mais confiança.

Mas cá estamos: a sete jornadas do fim, com dois pontos de avanço. Já nem consigo olhar para o calendário e tentar antever um minuto sequer de descanso. Vai ser terrível e, no entanto, sinto-me com mais força do que nunca para o que aí vem.

A cada roda no final dos nossos jogos, cada vez mais me apetece entrar em campo e abraçar aqueles rapazes, tão diferentes daqueles Baías, Paulinhos Santos ou Jorges Costas que o abraçavam aqui há uns anos, e no entanto com tanta vontade de nos darem aquilo que tanto queremos, que tanto exigimos. Aquilo que é nosso.

Mas não nos deixemos levar pelo que já conseguimos até aqui: sim, o underdog já é capaz de os assustar e estamos mais unidos do que nunca, mas nada disto terá qualquer sentido se não ganharmos, se deixarmos que outras forças explorem as nossas fraquezas e depois nos venham dizer cheios de moral e de buscas da PJ que, afinal, não éramos os melhores.

E é aqui que tenho uma absoluta confiança no Sérgio Conceição que marcou três à Alemanha para mostrar ao selecionador que tinha de jogar, que fazia parte da geração de ouro. Porque só este treinador será capaz de ficar pior do que eu se não ficarmos em primeiro. E isto, para uma adepta em 2018, é quase um milagre.

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Eu sei que o meu treinador quer ganhar tanto ou mais do que eu, eu sei que o meu treinador quer que os outros percam tanto ou mais do que eu. Eu sinto o meu treinador a cada conferência de imprensa, a cada roda no relvado, a cada cumprimento negado a adversários ou árbitros que não nos deixam jogar. Eu vejo no meu treinador um olhar que grita, em vez de "golo", um "ESTE É PARA VOCÊS VEREM QUE NÓS VAMOS GANHAR". E, a cada obstáculo, a cada momento de dúvida, de tristeza, de preocupação, é ao meu treinador que vou buscar a força para acreditar.

Portanto, obrigada por tudo isso. Obrigada por nos ter ressuscitado e por nos carregar às costas. Obrigada por nos unir em roda daqueles rapazes. Quero que saiba que, aconteça o que acontecer nos próximos dois meses, ninguém nos vai tirar isso. Mas também sei que sabe que isto só vai compensar se formos campeões.

Porque, acima disto tudo, o que o mister nos trouxe em tão pouco tempo foi essa memória: que somos o Futebol Clube do Porto e só sabemos ganhar.