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Lá Em Casa Mando Eu

Ora, então, este é o futebol dos e-mails, dos jogos comprados, das AG’s. Alegadamente, claro (por Lá Em Casa Mando Eu)

Catarina Pereira, a metade portista de Lá Em Casa Mando Eu, teoriza sobre o futebol português em tempos de cólera

Catarina Pereira, Lá Em Casa Mando Eu

Octavio Passos

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O campeão nacional foi definido há mais de um mês e, até agora, praticamente não há dia em que a atualidade futebolística não nos grite: "O FCPorto foi um justo vencedor, contra tudo e contra todos". Claro que, durante muito tempo, os mais ingénuos (grupo no qual me incluía) pensavam que "contra tudo e contra todos" era uma espécie de hipérbole para as arbitragens dos últimos cinco anos, em que, de facto, parecia que alguns profissionais do ramo eram mesmo muito adeptos do Benfica. E isso até nem tem mal nenhum, porque as pessoas são livres de serem mesmo muito adeptos do Benfica. Eu, por exemplo, sou casada com um que, se tivesse oportunidade de apitar uma determinada partida, era capaz de assinalar fora de jogo a um avançado camaronês chamado - imaginemos - Aboubakar, que estivesse dois metros em jogo, só para beneficiar o seu clube.

E sei bem que ele não precisaria de ser compensado por isso, de subir de categoria na arbitragem para receber mais (continuo no campo da imaginação, como é fácil de notar), bastar-lhe-ia que o seu clube fosse campeão por causa disso.

Eu sou uma romântica deste desporto e, portanto, para mim, tudo o que seja feito por amor é emocionante, mesmo que o Código Penal não concorde. Se alguém, por exemplo um primeiro-ministro (ou ex-primeiro-ministro), ALEGADAMENTE, exercer atos de corrupção, fraude fiscal e branqueamento para enriquecer, eu revolto-me.

Acho feio, porque, no melhor dos cenários, essa pessoa vai estudar para Paris, fica numa grande casa e vai passar umas belas férias à custa de nos ter enganado a todos. Agora, se alguém, por exemplo um "primeiro-ministro", ALEGADAMENTE, exercer atos de corrupção, fraude fiscal e branqueamento para fazer um clube campeão, porque a sua paixão é tanta, o seu desejo de vencer é de tal maneira incontrolável que não há barreiras à vontade de ficar em primeiro, bem, penso que o meu raciocínio se perdeu, porque sabemos que não é o caso, já que, ALEGADAMENTE e ao contrário do meu marido, vários dos suspeitos em causa nem sequer são mesmo muito adeptos do Benfica.

Ora, numa altura em que já todos percebemos que o futebol português está a passar por uma fase difícil - e não só porque o FCPorto é um justo campeão, contra tudo e contra todos -, continuamos a assistir a um desfile de mil e uma maneiras de exercer ALEGADOS atos de corrupção, violação do segredo de justiça, tráfico de influências, fraude fiscal e branqueamento, ou, por outras palavras, o Benfica ainda não foi de férias. No fundo, poderíamos sintetizar tudo, por exemplo, num PowerPoint deste género:

Resumo dos últimos cinco anos do futebol português

1. Controlar padres e missas, com a bênção de Deus, e interferir nas notas dos árbitros para os condicionar

2. Influenciar notícias nos jornais a seu favor e colocar comentadores a dizer exatamente as mesmas coisas, em canais diferentes, de preferência até ao mesmo tempo, como se, por mero acaso, a verdade tivesse descido à Terra e se assemelhasse a um documento escrito que foi distribuído por essas pessoas

3. Controlar a Federação, a Liga e as amantes

4. Consultar processos em segredo de justiça, só naquela de saber se este mês as buscas são às segundas, quartas e sextas ou às terças e quintas

5. Dar bué bilhetes e camisolas a malta importante

6. Pagar a adversários para perderem, porque o Benfica é mesmo muito grande

7. Contratar jogadores para comprar favores, emprestá-los para comprar favores e depois fazer de conta que os estão a contratar pela primeira vez para pagar favores

8. Escrever tudo em emails e PowerPoints básicos

9. Contratar pessoas para desmentir esses emails e PowerPoints básicos e queixar-se da divulgação desses emails e PowerPoints básicos, confirmando a sua veracidade

10. Ter fé que, com isto tudo, até Rui Vitória pode mesmo ser suficiente para fazer do Benfica campeão

Sinto que me está a escapar algo, mas isto tornou-se impossível de acompanhar: desde o Anjo Selvagem que não havia tantos episódios numa novela. Ainda por cima, ao mesmo tempo, é preciso não esquecer o Sporting, embora o Sporting faça bastante por tentar esquecer-se de si próprio.

E se, em termos de arguidos, o clube da Luz levava alguma vantagem em termos de funcionários e dirigentes, o rival de Alvalade conquistou o país com os ALEGADOS crimes de sequestro, ameaça agravada, ofensa à integridade física qualificada e terrorismo. Porque ALEGADOS atos de corrupção no desporto são uma cena muito batida.

Poucas vezes teremos visto, no futebol português, imagens que transmitem tanta violência como as que vimos de Alcochete, mas não sejamos pessimistas de todo, já que poucas vezes também teremos tido, no futebol português, conferências de imprensa tão interessantes como as de Bruno de Carvalho nas últimas semanas.

Como em tudo na vida, podemos agarrar-nos só à parte má desta história

– Como é que explicamos aos nossos filhos que alguém faça aquilo por causa do futebol?
– Como é que explicamos a Rui Patrício que não tenha sido campeão em 12 anos na equipa principal?
– Como é que explicamos a Jorge Jesus que nos vai fazer tanta falta?.

Ou podemos tentar ter uma visão mais otimista da situação:

– Como é que explicamos a Jaime Marta Soares que mais depressa nos convence a combater um incêndio do que a ficar contra o presidente do Sporting?
– Como é que explicamos aos opositores de Bruno de Carvalho que não há Assembleias-Gerais ou manifestações que nos demovam desta crença de que o Sporting está no rumo certo: o caos?

Enfim, entre os dois, difícil é escolher. Aliás, tantas são as vezes que, a seguir a um escândalo do Benfica, surge um escândalo do Sporting, que os menos ingénuos (grupo no qual agora também me incluo) já teorizam sobre uma eventual ligação entre ambos.

Porque as diferenças estão só nos pormenores: o Benfica poderá ter, ALEGADAMENTE, tentado pagar a jogadores do Marítimo para perderem um jogo decisivo, através de um senhor chamado César Boaventura, que, pela pretensa altivez e aspeto duvidoso, quase parece o resultado de o D. Duarte de Bragança e a Ana Malhoa terem procriado; já o Sporting poderá ter, ALEGADAMENTE, pago a árbitros de andebol para favorecerem o Benfica (a beleza disto não tem preço) contra o FCPorto num jogo decisivo, através de uns senhores que, ALEGADAMENTE, trabalhariam para André Geraldes, que, pela pretensa altivez e aspeto duvidoso, quase parece o resultado de Bruno de Carvalho e Elsa Judas terem procriado.

E, enquanto isto ALEGADAMENTE acontecia, o FCPorto estava pobre e sem dinheiro para entrar em aventuras como contratar jogadores, quanto mais para rivalizar com estes dois. Mas foi campeão, contra tudo e contra todos. E agora, mais de um mês depois, já quase nem é notícia, não fossem os ALEGADOS atos de chavascal do Herrera e do Corona na seleção do México.

Entretanto, não tenho a certeza de que o Mundial vá ser suficiente para acalmar esta torrente de lodo com nascente nos meus dois rivais, mas penso que ainda vamos a tempo de acreditar que o futebol vai prevalecer no meio disto tudo e que, para o ano ou assim, vamos ter uma Segunda Liga bem mais interessante.

ALEGADAMENTE, claro.