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Lá Em Casa Mando Eu

Já habituada a conferências alucinadas, à histeria de defensores e a vídeos a anunciar paternidade, Lá Em Casa Mando Eu lamenta queda de BdC

Catarina Pereira acredita que o Sporting estava melhor com Bruno de Carvalho, quanto mais não fosse pelas vitórias nos "campeonatos internacionais de corridas na floresta, ou lá como se chamam as modalidades que vocês adoram"

Catarina Pereira, Lá em Casa Mando Eu

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A 26 de março de 2011, o Sporting não era campeão há nove anos. Era noite de eleições e, cá em casa, fomos deitar-nos com alguma expectativa, mas mais sono. Somos uma portista e um benfiquista e cada um vive o Sporting à sua maneira (embora, para já, ambos de forma muito feliz), só que nada nos preparou para o acordar que se seguia: tinha ganho um, depois afinal era o outro, pouquíssimos votos de diferença a aparecerem sei lá de onde e cenas de pancadaria. O presidente “eleito”, Godinho Lopes (vénia), não conseguiu discursar, tentaram agredi-lo, enfim, um dia normal naquela instituição.

Há sete anos, o Sporting já era assim. Entretanto, Godinho Lopes (vénia) infelizmente não conseguiu terminar o trabalho que nos prometeu, ou seja, acabar com o clube e, dois anos depois, as eleições antecipadas trouxeram-nos um duelo, também ele bastante motivador, entre Bruno de Carvalho e José Couceiro. É agora algo difícil fazer um exercício de memória sobre o que estas duas personagens representavam na altura para o futebol português, mas quero desde já sossegar os sportinguistas: não tenho muitas dúvidas que eu, nas mesmas condições do que vocês (diabo seja cego, surdo e mudo, batam na madeira, cruzes, credo, Pinto da Costa nos livre!), teria votado no primeiro. Aliás, já o teria feito em 2011. E tê-lo-ia feito novamente até bem recentemente.

Porquê? Ora, porque o Sporting não era campeão há 11 anos. Nunca passei por isso, espero nunca vir a passar, mas imagino que seja suficiente para justificar uma loucura do género. Se não for, tentem, por um momento, colocar-se na pele de um sportinguista (dos que não andam encapuzados). Mais do que não ganhar o título, teremos nós, meros adeptos rivais, alguma noção do que é sofrer por um clube? Sobreviveríamos se, por uns dias, tivéssemos de partilhar a bancada com Ricciardis, Bettencourts e todos os Martins, Salvadores e Bernardos do mundo? Como seria a nossa vida se, ao vermos Bas Dost falhar aquele lance na final da Taça, pensássemos imediatamente que sim, era exatamente aquilo que estávamos à espera que acontecesse quando o nosso melhor ponta-de-lança tem a baliza aberta à frente dele? Como é óbvio, só um verdadeiro sportinguista lê estas perguntas sem sequer tremer. Enfim, só mais um dia normal naquela instituição.

Admitam lá: quantas vezes, no calor de uma frustração desportiva, não se sentiram a pessoa mais preparada do mundo para ser presidente do vosso clube? Oh, por favor, eu sou do FC Porto e às vezes critico Jorge Nuno Pinto da Costa, percebem como isto do futebol nos torna a todos bastante estúpidos?

Agora imaginem que estão há anos sem ganhar e, pior, a anos de poder sonhar ganhar, que estão entregues a Godinhos Lopes (vénia) e que a única luz ao fundo do túnel que vos aparece é Bruno de Carvalho, o presidente-adepto. Um pintas, é verdade, que tem uma voz incómoda – e não no sentido que ele desejaria -, que diz muitas alarvidades, com ar de quem vai fazer uma de duas coisas: ou resgatar o clube e destruir os rivais com uma estratégia assente em atacar tudo e todos de formas que nem eles sonham, ou destruir o clube e resgatar os rivais com uma estratégia assente em auto-atacar-se de tudo e todos de formas que só ele sonha.

Cinco anos depois, e se olharmos apenas para o plano desportivo, o Sporting está, de facto, muito melhor: conseguiu manter e valorizar grandes bandeiras do clube, como Rui Patrício e William Carvalho, recuperou financeiramente ao ponto de investir mais do que FC Porto e Benfica, incomodou muita gente com cláusulas anti-rivais e a contratação de Jorge Jesus e lá vai, de vez em quando, lutando pelo título (além de vencer campeonatos internacionais de corridas na floresta, ou lá como se chamam as modalidades que vocês adoram). De certa forma, é óbvio que o Sporting foi resgatado. E é por isso, caros sportinguistas, que eu vos mando daqui um abraço amigo, de quem também não esquece isto.

Porque é muito fácil deixar esta análise de parte quando se olha para o plano completo: as grandes bandeiras do clube andam a levar pancada dos adeptos e abraços de Marcelo, os apoios financeiros fogem envergonhados para os seus offshores que deviam estar penhorados pela Justiça, são os rivais que têm de vir dizer que não querem os jogadores do Sporting, Jorge Jesus dá-me pena e os títulos, bem, esses foram quatro para o Benfica e um para o meu FC Porto.

E é nisto que os opositores de Bruno de Carvalho apostaram: em tentar convencer-nos que isto é mau. Ora, a meu ver, preferia que tivessem sido quatro campeonatos para o meu FC Porto e outro para um qualquer, mas penso que já vos provei neste texto que não estou aqui para conclusões simplistas. Portanto, compreendo quem continuou a ver em Bruno de Carvalho a esperança de um futuro melhor.

Claro que, para variar, o Sporting não ajudou. Os objetivos da época falharam, os jogadores não terão dado tudo, o treinador pareceu desistir e o Facebook não eliminou a página do presidente quando devia. E os adeptos, ora, esses deram-lhe há pouco tempo 90% de votos, portanto a margem de manobra também não era muita. Mas a verdade é que até nós, os rivais, nos tínhamos habituado a isto. Vivíamos bem com os posts, as conferências de imprensa de alucinação, a histeria dos defensores, o desespero da oposição, a confusão, o caos, os vídeos a anunciar a paternidade.

Sim, cinco anos depois, já vivíamos bem com Bruno de Carvalho. Por isso, o que aconteceu agora também é, para nós, uma derrota. Não só pelas imagens e relatos terríveis que todos vimos e ouvimos, mas sobretudo porque, sem eles, estaríamos a viver bem com este Sporting.

Não sei o que virá depois. Não sei como se recupera de Bruno de Carvalho. Se o populismo, a brejeirice e os alegados atos de corrupção e violência não foram suficientes, também já não sei o que estes adeptos querem. Quanto a nós, cá em casa, já aprendemos a não ir dormir enquanto qualquer luz se mantiver acesa em Alvalade. O Sporting é bom demais para se perder qualquer coisa. E, caso não tenham reparado, não é campeão há 16 anos. Ou seja, é só mais um dia normal naquela instituição.