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Lá Em Casa Mando Eu

A superutilidade de Guedes, os calções subidos de Ronaldo, o Instagram de André Silva - e Adrien a Miss Universo (por Lá Em Casa Mando Eu)

Catarina Pereira escreve sobre o fim de um sonho que foi alimentado por... Esqueçam. O que se segue é uma análise puramente objetiva, baseada em factos indesmentíveis e piadas consubstanciadas

Catarina Pereira, Lá Em Casa Mando Eu

VI-Images / Getty

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Rui Patrício

Estou convencida que não podia fazer muito mais no primeiro golo de Cavani, uma vez que se tratava de um míssil intercontinental indetetável até pelas mais altas tecnologias do Rui Santos. O mesmo não posso dizer do segundo, em que me parece mal posicionado na baliza, um pouco em linha com a sua carreira, já que, no que poderá ser o seu melhor momento, vai jogar num clube cujo nome raramente consigo escrever sem ajuda do Google. Gostei de o ver a subir à área adversária nos últimos momentos da partida e a defender uma bola que podia ser perigosa, levando-nos a gritar penálti com aquele desespero tão Queiroziano (de Carlos, não Eça) que, afinal, nos caracteriza a todos.

Ricardo Pereira

Vai ser muito difícil ao selecionador explicar por que razão deu agora a titularidade a um jovem campeão pelo FCPorto, que foi o melhor lateral-direito da nossa Liga e que recentemente se transferiu para a Premier League, e que deixou em casa “rivais” que jogam no Barcelona e, agora, na Juventus, em vez de continuar a dar o lugar ao seguro e bastante previsível jogador de um clube cujo nome raramente consigo escrever sem ajuda do Google. Como seria de esperar, o que ganhámos em atrevimento ofensivo e combinações com Bernardo Silva, perdemos em dois golos que nascem da sua área de jogo, provando aquilo que Fernando Santos nos tem tentado ensinar durante este tempo todo: há uma óbvia relação entre a qualidade do nosso jogo e o resultado final, sendo que, quando a primeira melhora, o segundo será sempre pior.

Pepe

Sete minutos foi o tempo que separou o salto de Pepe para o golo que nos deu o empate e o salto de Pepe em falso que deixou a bola chegar a Cavani para o golo que nos tirou do Mundial. Foram sete minutos em que acreditámos que seria possível chegar mais longe, mesmo com pouco futebol e muita dependência de exibições individuais como, normalmente, a de Pepe. Foram sete minutos de excitação em muitas praças, de homens e mulheres de pé nos cafés, de crianças em casa a pedir camisolas do Pepe aos pais. E de Fernando Santos a rezar. O que nos leva à questão que se impõe neste momento: terão de ser exigidas as devidas responsabilidades a Deus.

José Fonte

Quando se enfrenta uma equipa que tem Cavani e Suarez, com um central que atua numa equipa cujo nome não consigo escrever nem sequer com a ajuda do Google, as expectativas já são, à partida, tão baixas, que aqueles dois cortes efetuados logo nos primeiros 15 minutos são celebrados como golos. E não quero com isto gozar a prestação de José Fonte, seja esta noite ou noutra qualquer com a nossa camisola, porque penso que o fez sempre com a dignidade que se exigia, ao contrário de mim.

Raphael Guerreiro

Fiquei com pena que se tenha deixado antecipar por Cavani no primeiro golo do Uruguai, mas o futebol nunca foi feito para meninos, mas antes para homenzarrões como Luis Suarez, que à mínima aproximação do nosso Raphael se atirava para o chão a contorcer de dores em locais do corpo que não devem ser atingidos há anos. Enfim, o mínimo que podemos esperar agora é que alguém lhe espete uma dentada.

William

Esteve ao nível da mais alta figura do nosso Estado, conseguindo, por exemplo, ganhar um duelo a Cavani em força, tal e qual Marcelo a cumprimentar Trump na Casa Branca, e, mais tarde, travar um adversário que ia em grande velocidade, dizendo, à frente das câmaras, para toda a gente ver, sobretudo aqueles que, como eu, passaram as últimas semanas (e anos, vá) a gozar com a sua lentidão: “Sabem, é que Portugal não é o Uruguai”. Embrulha.

Adrien

Fez o que podia frente a uma equipa que, além de não gostar muito de sofrer golos, também não entra em campo para responder à pergunta “O que pretende alcançar esta noite?” com o habitual “Paz no Mundo”. Ao contrário de Adrien, que bem pode perfeitamente, um dia, ser coroado Miss Universo.

João Mário

Fez a sua melhor exibição do torneio, o que nem é grande elogio, mas é o que se arranja. Portugal teve hoje mais bola, assumiu o jogo e teve, finalmente, pequenos momentos em que se vislumbrou algo próximo de um campeão europeu. E João Mário, uma vez que até sabe jogar umas coisas, foi dos que beneficiou com isso. É óbvio que o que fica é uma grande vergonha pelo Uruguai não querer jogar mais do que isto e apostar antes no resultado. Pfff!

Bernardo Silva

Falhou uma das poucas oportunidades claras de golo que Portugal teve quando, aos 70 minutos, e com o guarda-redes uruguaio fora da baliza, chutou demasiado por cima. Fora isso, foi finalmente o que se esperava dele: quis jogar, fez jogar. Acabou o Mundial ao centro, com a bola nos pés e a mostrar que a seleção até podia ser mais do que aquele futebol lamentável que temos praticado. Cá em casa, pelo menos, isto foi suficiente para ser recebido como o embaixador coreano no México.

Gonçalo Guedes

Foi superútil a sofrer uma falta à entrada da área que proporcionou a Ronaldo um belo momento de puxar os calções para cima e chutar contra a barreira. Fora isso, bem… Boa viagem para casa, Gonçalo! Se houver uma promoção de chocolates no aeroporto, aproveita, que nem tudo está perdido.

Cristiano Ronaldo

Começou por tentar ir buscar jogo atrás, como quem acha que consegue resolver tudo sozinho (AH! AH! AH!), mas depressa desistiu e desatou a rematar de tudo quanto era sítio, normalmente contra corpos musculados de adversários que faziam questão de não partilhar a sua motivação. Entretanto, conseguiu o seu momento viral, ao encaminhar Cavani, lesionado, para fora do campo, num gesto que suspeito tenha sido mais para o despachar do que propriamente para o ajudar. Acabou o jogo em desespero, não tanto por Portugal não conseguir o empate, mas porque o árbitro não marcou uma falta sobre o seu amigo Quaresma. Retrospetivamente, é unânime que começou o Mundial em grande, mas depois foi cedendo à pressão que o comentador da RTP lhe meteu sempre que se aproximava da bola. É normal, ele até joga num clube grande e está habituado a muitas dificuldades, mas isto foi demais.

Quaresma

Não é o jogador mais calmo e ponderado do mundo e deixa-nos com alguma dificuldade em explicar aos nossos filhos porque vibramos tanto com a irreverência, instabilidade emocional e desequilíbrios táticos que provoca, mas acho que será sempre este o segredo de Quaresma: mesmo quem não quer gostar dele, vai acabar aos gritos a dizer que o ama. Eu sei, porque já me aconteceu várias vezes (e não foi ao serviço da seleção, para grande surpresa vossa). Esta noite, entrou e mexeu com o jogo, devido à tal irreverência, instabilidade emocional e aos desequilíbrios táticos que provoca, mas às vezes isto não chega para mais do que uns berros na cara do árbitro e um país inteiro a fazer aquele sinal que consiste em juntar os dedos em cima, deslizar cada um deles para um lado, descê-los e voltar a juntá-los, num retângulo perfeito que agora já o mundo inteiro conhece como VAR.

André Silva

Como uma dos vários milhões de portugueses desiludidos com a titularidade de Gonçalo Guedes, foi com bastante alívio que assisti à entrada de André Silva em campo, porque acreditei que precisávamos de alguém capaz de incomodar mais aqueles centralões uruguaios, de os obrigar a fixar mais junto à pequena área e de ter capacidade física suficiente para ir mais longe do que ter muitas seguidoras no Instagram. Portanto, era preciso incomodar Godin e Giménez e entrou André Silva. Postiga e Pauleta: nada temam, o vosso legado está assegurado.

Manuel Fernandes

Quando estás a perder, a poucos minutos do fim, com uma seleção como o Uruguai, e nos últimos anos não tens tido grandes explicações para os teus sucessos além de uma enorme crença, concordo que Manuel Fernandes só pode ser a escolha acertada para entrar. Em pouco mais de um minuto, fez imediatamente dois remates de longe, não chegando a criar qualquer perigo, mas deixando-se embeber pelo chamado espírito de Éder, uma espécie de feeling que às vezes dá a um português de que vai conseguir resolver tudo da maneira mais inesperada. Por isso de maneira que cá estamos: sem Mundial, mas ainda invencíveis neste sentimento muito nosso de que estaremos sempre prontos para ganhar, mesmo quando o merecermos muito pouco.