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Herrera: o respeito pelas acompanhantes de luxo, a beleza interior e exterior e, sobretudo, aquele golo na Luz (por Lá Em Casa Mando Eu)

Catarina Pereira escolheu os melhores jogadores do Mundial até agora, numa fase em que a competição entra na sua fase decisiva. E entre algumas escolhas óbvias, e a do homem que está no título é gritante, há opções interessantes - e ébrias

Catarina Pereira, Lá Em Casa Mando Eu

Shaun Botterill - FIFA

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Cho Hyun-Woo

O Mundial serve para nos apresentar novos mundos, coisas novas, sobretudo se tivermos analisado os treinos da Coreia do Sul a acreditar nos números das camisolas dos jogadores. Vivemos na era da globalização, em que provavelmente já nos cruzámos com centenas de sul-coreanos (a quem dissemos que os pastéis de bacalhau com queijo de cabra são uma invenção estúpida), mas estivemos sempre convencidos que estávamos a falar com chineses. Assumimos que todas as pessoas do Oriente são iguais e que tiram muitas fotografias à Torre de Belém, mas o Rússia 2018 trouxe-nos um guarda-redes sul-coreano frio, seguro e com qualidades que abalaram os nossos preconceitos. Mas Hyun-woo ajudou a pôr a Alemanha fora do Mundial e, se há preconceito que temos orgulho em ter, é o de adorar todas as pessoas que lixem os alemães.

Marcelo

Não é que tenha sido brilhante, mas é só para lembrar que foi substituído por Felipe Luis quando se lesionou, que deixaram um tal de Alex Sandro em casa e ainda fizeram com que Tite ache que Alex Telles seja um primo brasileiro de Reinaldo Teles.

Layún

Vamos tentar, por momentos, esquecer aquele cabelo descolorado e dar a Miguel Layún o lugar merecido neste onze, não só por estar contratualmente ligado a um clube espetacular, mas também porque conseguiu, até agora, sobreviver aos milhões de fãs de Neymar que não lhe perdoam aquela pisadela no Brasil-México dos oitavos de final. Já vi as imagens várias vezes e ainda estou indecisa se houve alguma maldade por parte do mexicano, ou se há alguma maldade da minha parte ao desejar que tivesse havido.

Godín

Este homem é central do Atlético de Madrid do Simeone e do Uruguai. Isto, caros leitores, não é currículo, é cadastro. E Godín vive dos juros dessa fama, neste momento fomentada pelos próprios adversários, que evitam cruzamentos para a área uruguaia como os lisboetas evitavam o Casal Ventoso nos anos 90. O que o Portugal-Uruguai nos mostrou é que a área dos sul-americanos não é assim tão impenetrável, mas cada ataque à mesma é precedido de vários momentos de mentalização e preparação dos adversários, como se tivessem que fazer um curso nos Comandos antes de fazer um centro.

Stones

Porque não fazia muito sentido escolher o melhor onze do Mundial sem incluir um jogador do Manchester City, ou seja, treinado por Pep Guardiola. E porque não estou para perder muito tempo com centrais até encontrarmos o substituto do Marcano.

Herrera

Há jogadores que se poupam durante a época para estarem ao melhor nível durante o Mundial. E depois há Hector Herrera, que nem em viagens intercontinentais para ir dar mimos à mulher se poupa, quanto mais isso. Para mim, teria logo lugar destacado no melhor onze da competição devido a qualidades intrínsecas como o respeito ao receber e despedir-se das acompanhantes de luxo da seleção mexicana, a beleza interior e exterior e, sobretudo, aquele golo em cima dos 90 minutos na Luz. Claro que também ajudou o facto de ter feito uma exibição monstruosa contra a Alemanha e de nem por um minuto das restantes partidas ter desapontado aqueles, como eu, que recentemente só conseguem ver amor e alegria à sua volta.

Quintero

Nenhum adepto do FCPorto se espantou com as qualidades de Quintero demonstradas neste Mundial. A técnica sempre esteve lá, o risco também, e não há finta ou passe que já não tenhamos visto durante os cerca de 2 segundos por jogo em que o colombiano conseguia finalmente passar por aquele defesa caceteiro do Tondela e mostrar o seu talento na Liga portuguesa. O Mundial foi uma ótima montra para ele e estamos recetivos a propostas, sobretudo se tiverem para a troca um defesa caceteiro que nos dê mais jeito.

Modric

Só porque tinha de escolher um para completar o meio-campo, embora, neste onze, não tenha muito a acrescentar a Herrera e Quintero.

Cristiano Ronaldo ou Messi

Faço parte de uma geração que vai poder dizer aos netos que viu Ronaldo e Messi a disputarem constantemente o título de melhor jogador do mundo. Mas também faço parte de uma geração que nunca vai poder dizer aos netos que viu Ronaldo e Messi decidirem aquele Mundial (a exceção podia ter acontecido em 2014, quando uma grande competição contou com uma Argentina levada às costas praticamente por um só jogador até à final, mas até aí os alemães tinham de estragar tudo). Parte da magia desta competição, além de nos poder proporcionar um Polónia-Senegal a meio da tarde, está em ser um enorme palco para os grandes jogadores. E a história dos Mundiais é feita deles mesmos: dos melhores. Daí que a minha geração, constantemente privilegiada por poder ver estes dois a um grande nível durante tanto tempo, vá ser, porventura, uma das mais pobres no que a isto diz respeito. Ronaldo e Messi dão-nos grandes momentos de futebol praticamente de três em três dias, mas Maradona, por exemplo, até a ser escoltado por uma enfermeira em pleno relvado para um controlo antidoping teve mais impacto. E isso vai ser difícil perdoar-lhes.

Mbappé

Um jogador que nasceu em 1998, ou seja, ontem, matou a Argentina e lembrou-nos por que razão o PSG pagou 180 milhões de euros pelo seu empréstimo (para além de serem espetaculares cumpridores do fair-play financeiro). Vou repetir: há um rapaz francês que nasceu a 20 de dezembro de 1998 (ou seja, estava o engenheiro Fernando Santos no auge da sua carreira, a liderar o Futebol Clube do Porto rumo ao penta) que está a brilhar no Mundial de futebol. De seniores. Este facto espanta-me mais do que a velocidade ou a capacidade de explosão do avançado francês.

Kane

Entre as muitas coisas que este Mundial já nos deu para a História, fica, por exemplo, a passagem da Inglaterra em pelo menos uma eliminatória nos penáltis. E ninguém vai poder falar em penáltis durante o Rússia 2018 sem mencionar Harry Kane. É impressionante como o avançado do Tottenham consegue ser tão perfeitamente inglês - alto, louro, olhos azuis e ar de quem nunca leu um livro a não ser aquele sobre “As 10 melhores maneiras de beber um shot na rua da Oura” - e, ao mesmo tempo, chutar aquelas bolas com tanta força e precisão para o fundo da baliza. Talvez esteja a aplicar algumas das técnicas aprendidas em “As 10 melhores maneiras de beber um shot na rua da Oura” e, portanto, já sabemos como isto vai acabar: com ele, todo bêbado, a dançar a Macarena e a falhar um penálti na final.