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Liga dos Campeões

A Liga dos Campeões está de volta e impõe-se a questão: quem paga as cervejas no fim?

As duas semanas e pouco de espera, por fim, acabaram. A Liga dos Campeões está de volta e também está na altura de as equipas portuguesas darem a volta à vida que, por agora, é complicada para todos. Benfica e FC Porto apenas têm um ponto e jogam fora, em Kiev e em Brugge, e o Sporting recebe um Borussia Dortmund treinado por um tipo que aprendeu muito a beber canecas com Pep Guardiola

Diogo Pombo

VAMOS LÁ TER CALMA. Parecendo que não, Thomas Tuchel até costuma ser um treinador pacífico, que conseguiu pôr o Borussia de Dortmund a morder os calcanhares do Bayern de Munique novamente

BERND THISSEN/EPA

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Não é que ele estivesse farto, mas achou que os conseguiria reinventar. Tinha pegado no Mainz, clube modesto em dinheiro, história e objetivos, e posto a equipa a jogar de forma imprevisível. Tanto que, em duas épocas seguidas, fê-la pular até à Liga Europa. Sentiu que já não tinha maneira de a fazer evoluir, de se reinventar. Por isso, demitiu-se. Tinha 39 anos e resolveu entrar num período sabático. Foi aprender espanhol e, quando já o sabia falar bem, começou a ir a Munique para se encontrar com um tipo, que era uma espécie de ídolo a seguir. Combinava beber umas canecas de cerveja com ele e, entre os tragos, passavam horas a trocar conversa, a falarem sobre futebol.

O ponto de encontro era sempre no mesmo restaurante, bem no centro da cidade. Os alemães chamaram a este hábito “a Batalha do Schumman’s”, aproveitando o nome do estabelecimento. Pelo meio destas conversas, o tipo desempregado e com tempo livre ia estudando o uso da matemática e da estatística no futebol. Falava também com Wolfgang Schöllhorn, um professor da Universidade de Mainz, defensor da ideia de que os futebolistas aprendem por adaptação a novos contextos e desafios, e não por repetição.

Nos entretantos, absorvia tudo o que o outro rapaz, o treinador do Bayern com campeonatos e Ligas dos Campeões conquistadas, lhe ia contando entre os goles na cerveja. Coisas como o jogo posicional, o atacar sem a bola, as trocas de posição e o encurtar o campo com a defesa subida. Coisas sobre as quais matutou para dar origem a outras, que hoje aplica.

Como pôr os jogadores a treinarem com bolas de ténis nas mãos, para não agarrem nas camisolas; pedir-lhes para dominarem a bola com os joelhos; ou pô-los a treinar em campos escorregadios, divididos em quadrados, obrigando os jogadores a passarem por vários enquanto a equipa têm a bola. Tudo enquanto correm quem nem uns desalmados, de tal maneira que, muitas vezes, acabam os treinos com valores superiores de ácido lático (vindo da queima de glicose no corpo, através da respiração, que dá origem a dores musculares) superiores ao normal.

JUNTOS. Borussia de Dortmund é um adversário respeitável mas se o Sporting repetir o nível exibicional do jogo em Madrid tem tudo para vencer em Alvalade

JUNTOS. Borussia de Dortmund é um adversário respeitável mas se o Sporting repetir o nível exibicional do jogo em Madrid tem tudo para vencer em Alvalade

HUGO DELGADO/LUSA

O tipo responsável por tudo isto é Thomas Tuchel e o outro, com quem andou a beber cerveja, é Pep Guardiola. Má notícia para o Sporting, porque o primeiro é treinador do Borussia Dortmund, que terça-feira (19h45, RTP1) defronta os leões em Alvalade, para a Liga dos Campeões.

O bom no meio disto é que a equipa de Jorge Jesus vai apanhar a de Tuchel numa fase assim-assim. O Dortmund não vence há três jogos, está com nove jogadores lesionados - entre eles, André Schürrle, Marco Reus, Lukas Pizsczek, Sokratis, Schmelzer, Gonzalo Castro e Raphaël Guerreiro, tudo gente que costuma ser titular - e já abrandou desde a fase em que andava a cilindrar quem lhe aparecia à frente (nos cinco jogos que fez em setembro, marcou 22 golos).

Os alemães estão com quatro pontos, os mesmos que o Real Madrid e mais um que o Sporting. Uma vitória servirá para ficar a liderar o grupo, em princípio a meias com os merengues, contra quem os leões foram melhores durante 88 minutos, mas acabaram por perder. Veremos quem paga a cerveja a quem, no final.

Ir beber a casa dos outros

UM ADOLESCENTE COM TARIMBA. Ele tem cara de miúdo mas quando entra em campo deixa as defesas em sentido: eis Diogo Jota, o novo parceiro de André Silva na frente de ataque do FC Porto

UM ADOLESCENTE COM TARIMBA. Ele tem cara de miúdo mas quando entra em campo deixa as defesas em sentido: eis Diogo Jota, o novo parceiro de André Silva na frente de ataque do FC Porto

GREGÓRIO CUNHA/LUSA

Sem estas figuras à mistura, o FC Porto é que vai jogar na terra onde se produz (e bebe) muita cerveja. Os dragões vão a Brugge defrontar (terça-feira, 19h45, Sport TV1) a única equipa que está pior do que eles no grupo e ainda não somou qualquer ponto. A teoria dizia que o campeão do país onde, nos bares, se servem mil e um tipos de cerveja diferentes, seria um de três adversários mais fracos do que a equipa de Nuno Espírito Santo. Mas, com o que já aconteceu, os belgas são a equipa que pode tramar o FC Porto a sério.

Os dragões empataram em casa (1-1) com o Copenhaga antes de perderem (1-0) em Leicester e não lhes convinha terem outro jogo que não lhes desse os três pontos. O lado bom disto, para os portistas, é que a ressaca das experiências feitas pelo treinador já parece ter sido curada.

A última vitória no campeonato, na Madeira, contra o Nacional (4-0), serviu para Nuno Espírito Santo atinar no 4-4-2 com os extremos no banco e com Diogo Jota, que marcou um hat-trick, a movimentar-se lá na frente, à volta de André Silva, que marcou outro, pela seleção. Além da escolha ter ares de ser a certa, a equipa fica no banco com duas armas (Corona e Brahimi) para jogar de outra forma, com maior rapidez nas alas e profundidade no jogo, caso o plano A não resulte.

SEGUE RETO. O Benfica vai jogar à Ucrânia e Rui Vitória tem de apontar para um novo médio centro novamente

SEGUE RETO. O Benfica vai jogar à Ucrânia e Rui Vitória tem de apontar para um novo médio centro novamente

MANUEL ALMEIDA/LUSA

Já o Benfica vai jogar ao país onde, para aquecer, se bebe mais vodka. Depois de Nápoles, onde esteve a perder por quatro e atenuou a imagem (4-2) no fim, a equipa de Rui Vitória faz a viagem mais longa da época, até Kiev. É no frio ucraniano que o treinador terá de arranjar solução (quarta-feira, 19h45, Sport TV1) para um problema que estava a ser remendado por André Horta. O miúdo que veio do Vitória de Setúbal lesionou-se e Danilo, que já se curou, não está inscrito na Liga dos Campeões e ficou em Lisboa. Agora não há André Almeida, cuja experiência ao lado de Fejsa correu mal em Nápoles, por isso... é ver o que sobra.

Que é Celis, o colombiano que é perito em passar para o lado e jogar sem intensidade (como se viu na Taça contra o 1º Dezembro), e Pizzi, o homem que foi médio com J.J, passou a extremo com Vitória e que poderá voltar a ser o tal número oito frente ao Dínamo, já que não há mais ninguém além de Samaris, que é demasiado parecido com Fejsa, em termos do que faz melhor - que é defender, fechar espaços, dar coberturas e compensar distrações alheias.

Nasceu um problema no meio e resolveu-se um na frente. Raúl Jiménez recuperou da mazela que o apoquentava, mas sempre foi raro ver o Benfica a jogar com o mexicano ao lado do grego Mitroglou. O que nos faz lembrar da cura de que a equipa mais precisa e tarda em ser descoberta, para a lesão de Jonas. Por isso é que dizem que, às vezes, se bebe para esquecer.