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O reencontro dos herdeiros de Cruyff: hoje há Guardiola vs. Luis Enrique

Barcelona e Manchester City protagonizam esta quarta-feira (19h45, Sport TV2) um dos bombons desta 3ª jornada da Liga dos Campeões. Guardiola regressa pela segunda vez a Camp Nou, num jogo que marca o reencontro entre dois amigos e dois treinadores que foram beber à escola de Johan Cruyff

Lídia Paralta Gomes

Guardiola e Luis Enrique são amigos e aprenderam da mesma cartilha. No único confronto na Champions, nas meias-finais de 2014/15, o Barcelona de Luis Enrique foi mais forte, batendo o Bayern de Guardiola, hoje treinador do City

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“Cruyff construiu a catedral. O nosso trabalho é mantê-la e renová-la”. A frase é de Pep Guardiola, que esta quarta-feira regressa à ‘catedral’, ou seja, a Camp Nou, ainda que a expressão remeta para muito mais do que um lugar físico. A ‘catedral’ que Johan Cruyff um dia construiu - ou melhor, foi construindo ao longo de oito temporadas na Catalunha -, em última análise, é o ADN do Barcelona. Um ADN que ninguém trabalhou como Guardiola e, agora, Luis Enrique.

Os dois técnicos reencontram-se em Camp Nou, na 3ª jornada do grupo C da Liga dos Campeões, depois de um primeiro regresso de Pep em 2014/2015, na altura com o Bayern Munique. Na sua primeira época como treinador do Barcelona, Luis Enrique defendeu bem a dita catedral: venceu a 1ª mão por claros 3-0 e na Alemanha perdeu por 3-2, seguindo para a final que venceria, ao bater a Juventus.

Guardiola acabaria por nunca levantar a taça da Liga dos Campeões pelos bávaros e esta temporada mudou-se para o Manchester City. Esta quarta-feira tenta novo assalto à casa onde dominou o futebol europeu durante quatro anos, antes de abandonar o clube em 2012, porque tudo o que poderia ganhar já tinha sido inventado.

Pep deixou o Barcelona depois de conquistar uns quantos títulos em quatro temporadas. A saber: três campeonatos, duas Ligas dos Campeões, duas Taças do Rei, três Supertaças de Espanha, duas Supertaças europeias e dois Mundiais de clubes. Coisa pouca.

Tudo à conta de uma versão refinada do futebol total de Cruyff, o homem que o foi buscar às camadas jovens do Barça em 1990, fazendo dele uma das peças essenciais na vitória na Liga dos Campeões de 1992. Um futebol de espectáculo ofensivo, de controlo da posse da bola, de procura de espaços no ataque e de pressão ao adversário. Um futebol que se tornou sinónimo de Barcelona.

Com a saída de Pep, o clube promoveu Tito Vilanova, adjunto de Guardiola, com o objetivo de manter o modelo e a ideia. O afastamento de Vilanova por doença levou a uma espécie de interregno no ADN blaugrana, que volta com a chamada de Luis Enrique, que tal como Pep, tinha trabalhado com os jovens talantos de La Masia. Com Enrique, o Barça voltou a ter o espírito de Cruyff, ainda que com as devidas diferenças. O gosto pela posse de bola continua lá, mas não é uma obsessão como nos tempos de Guardiola. Há menos mobilidade, menos construção a partir de trás, mas o Barça tornou-se uma equipa mais perigosa no contra-ataque, mais rápida e mais imprevisível, com um trio de ataque que não é deste mundo: Messi, Neymar e Luis Suárez.

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Resultados? Igualmente bons. Desde que assumiu o lugar de treinador do Barcelona, em 2014, Luis Enrique já venceu dois campeonatos, uma Liga dos Campeões, duas Taças do Rei, uma Supertaça de Espanha, uma Supertaça europeia e um Mundial de clubes. E comparando os 100 primeiros jogos de Guardiola e Luis Enrique nos catalães, o último até se saiu melhor: 80 vitórias, 11 empates e 9 derrotas, contra os 71 triunfos, 19 empates e 10 derrotas de Pep. O mestre Cruyff está longe dos alunos, com 60 vitórias, 23 empates e 17 derrotas.

Um City à imagem do Barcelona

Se um modelo é bom e dá resultados, nada como beber dele. Os responsáveis do Manchester City apostaram na máxima muito antes da chegada de Pep Guardiola, no início desta época. Em 2012 contrataram Ferran Soriano para diretor executivo e Txiki Begiristain para diretor para o futebol. Ambos catalães, ambos com passado no Barcelona.

A ideia era trazer imediatamente Guardiola, que acabaria por escolher o Bayern Munique. Mas o trabalho não parou e o ADN do futebol de qualidade foi imposto nas camadas jovens. O City investiu cerca de 250 milhões de libras numa nova academia, inaugurada em 2014, e na última temporada todas as formações base do City, dos sub-10 aos sub-18, foram campeãs. Mais uma vez, o espírito de Cruyff presente: o holandês foi o grande impulsionador de La Masia, a academia do Barcelona, de onde saíram nomes como Xavi, Iniesta e, claro, Lionel Messi.

E quando Guardiola chegou, teve carta branca para contratar jogadores à imagem do seu futebol. Nolito, que passou pelo Barcelona, e o médio Ilkay Gundogan, foram dois dos pedidos. Para já, não está a correr mal: o City lidera a Premier League, ainda que em igualdade com o Arsenal. E tal como o seu Barcelona, o objetivo não é dominar apenas em casa, porque o City quer finalmente impor-se na Europa e vencer a Champions pela primeira vez.