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Liga dos Campeões

Ser rápido contra quem jogou devagar, devagarinho

Contra um Dínamo que, a defender, era lento e parecia feito de manteiga a derreter ao sol, o Benfica venceu (2-0) pela primeira vez nesta Liga dos Campeões. Salvio, de penálti, e Cervi, marcaram no início de cada uma das partes do jogo em que Pizzi mostrou como é bom para a equipa tê-lo no meio campo

Diogo Pombo

GENYA SAVILOV

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A pior coisa que podia acontecer ao Benfica, pensei eu antes do jogo, era a equipa chegar a Kiev e a visão pregar-lhe uma partida. Que, por momentos, achasse que estava em Nápoles, em Barcelona ou em Madrid. Que não visse bem as coisas. Como a pessoa que não usa óculos e, na brincadeira, experimenta olhar pelas lunetas de um amigo, vê as coisas turvas tempo demais e fica com uma ligeira dor de cabeça durante uns minutos. Trocando isto por miúdos, coisa que os jogadores do Benfica não são, era bom que os encarnados olhassem para o Dínamo como ele é - uma equipa de um campeonato mais fraco, com menos pedalada na Liga dos Campeões e só com um (talvez dois) jogador que jogaria a titular no Benfica.

Nem o frio, que era gelado nos dois graus à hora do jogo, nem a distância da viagem, que é muita pelos mais de quatro mil quilómetros, chegavam para alterar a realidade. O Benfica era melhor, tinha melhores jogadores, jogava com mais intensidade e era a equipa com mais jeito para trocar a bola rápido, pela relva, com passes curtos. Escrever depois é fácil, mas, mesmo se ficássemos a saber de tudo isto durante o jogo, antes já era possível constatar uma coisa: a equipa de Rui Vitória só tinha um ponto nesta Liga dos Campeões.

Tinha de ser para ganhar, portanto.

Algo que apenas conseguiria se jogasse como o fez na primeira meia hora. Sem medo de ter a bola, com os jogadores a aguentarem-na no pé, puxando o lustro à confiança, e a darem passes rasteiros e com força. Defendiam-se dos ucranianos lá em cima, perto da baliza deles, a pressionarem as linhas de passe. Jogavam, lá está, como quem sabe que é melhor e tem de o provar no sítio que interessa. E com a calma de Pizzi ao centro e as corridas hiperativas de Cervi e Guedes - que chamavam um figo aos médios que o Dínamo mantinha em linha, e não a compensarem as costas uns aos outros -, os encarnados eram melhores.

Era uma questão de tempo até uma força que parecia imparável bater contra um objeto que era imóvel a defender. Era só puxar pelas regras da física. Há uma que diz que o mais certo é alguém cair ao chão se, ao correr muito rápido, levar um toque na perna, por trás. Foi o que Antunes fez a Guedes, quando este sprintou área dentro com a bola que apanhou à entrada da área, ressalto de um canto. O penálti foi batido por Salvio mudou o marcador bem cedo (9’), mas o jogo continuou quase o mesmo até aos últimos dez minutos.

Os ucranianos não deixaram de ser quem são. Continuaram a sair devagar, devagarinho, com a bola lá de trás, a confiarem mais num central (Vida) do que nos dois médios, que apenas serviam de iscos para a pressão do Benfica. Os laterais mal subiam, na esperança de as bolas passarem o meio campo e chegassem a Derlis ou, de preferência, a Yarmolenko, o melhor de bola do Dínamo que se colava à linha, à espera de ficar sozinho com Grimaldo na sala de baile. Foi no um contra um que o fixou para meter uma bola na cabeça do outro extremo (25’) e no pé de Sydorchuk. Nenhum dos remates acertou na baliza, ou assustou.

SERGEY DOLZHENKO

O Benfica, fazendo menos passes e tocando menos na bola, jogava mais que o Dínamo. Os ucranianos, como crianças que têm receio em arriscar fazer coisas sem a mão dada aos pais, continuaram a só reagir (devagar) e a nunca agirem. Eles ficaram a ver, sem apertarem, fazerem uma falta ou morderem os calcanhares, enquanto Pizzi ligou uns quantos passes rasteiros, tabelou com Salvio e libertou-o na área para o argentino cruzar rasteiro. Um solitário Cerci recebeu e rematou, mas o golo só o foi à segunda (55’) porque, à primeira, Mitroglou se pôs entre a bola e a baliza.

As coisas nunca tinham parecido tão fáceis para os encarnados nesta Liga dos Campeões.

Sem a bola, o Dínamo era pachorrento e lento na vontade em querer recuperá-la. Com ela, estando a perder, tentava acelerar mais as jogadas, acreditando mais na religião de correr com a bola no pé ao invés de se fiar no facto de ela rolar mais rápido através de passes. Vida, o central, avançou uns metros para tentar passes na profundidade, que é como quem diz, para os espaços entre e nas costas dos defesas do Benfica. A insistência dos ucranianos, mesmo direta demais, foi resultando de vez em quando, mais ou menos a partir dos 60 minutos.

Porque os encarnados, mesmo sendo melhores, eram humanos, a quem as pernas começaram a pesar e o discernimento a faltar para continuarem a defender lá à frente. Primeiro, Lindelöf confiou no fora-de-jogo em que Junior Moraes não estava e deixou-o fugir até Ederson se atirar aos pés do avançado (60’). Depois, o guarda-redes não acertou com o soco na bola que Antunes cruzou, de longe, e que não entrou na baliza por acaso ao ressaltar no corpo de Yarmolenko (64’). Mas, para se redimir, foi o único a colocar-se à frente de dois remates seguidos, no minuto seguinte.

Só com Celis no banco para dar mais pernas ao centro, os encarnados recuaram, juntaram-se à linha de quatro defesas, pediram a Jiménez para segurar Vida - que ia marcando na própria - e esperaram pelo Dínamo. Que, mesmo acelerando um pouco as bolas que levava às linhas para alguém as cruzar, só obrigou Ederson a ter de se livrar de uma espécie de cruzamento, mascarado de remate, de um tipo chamado Tsygankov que, para bem do Dínamo, podia ter jogado de início.

O bem do Benfica acabou por ser a primeira vitória nesta Liga dos Campeões, na primeira vez que Pizzi jogou no meio, a segurar as rédeas do fantoche da equipa, e a ser o melhor dos encarandos. A equipa soube abrandar quando já tinha o jogo garantido e estava ciente do que os ucranianos lhe podiam fazer, que nunca foi muito. A vitória vale três dos quatro pontos do Benfica na competição, menos um que o Besiktas e dois que o Nápoles, que perdeu com os turcos em Itália.

Devagar, devagarinho, eles vão-se chegando à frente.