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Liga dos Campeões

Mete-se mais uma moeda e os jogos voltam ao mesmo (onde se fala da Champions League)

Se já não foi fácil receber o Borussia, mais difícil será ir visitá-lo a Dortmund, talvez o estádio mais barulhento e lotado da Europa. O Sporting volta a ter a tarefa mais difícil nesta semana de Liga dos Campeões, enquanto o Benfica e o FC Porto recebem adversários aos quais ganharam e que, no fundo, têm quase a obrigação de voltar a vencer

Diogo Pombo

Há muito, muito tempo, que não vemos Bryan Ruiz a olhar assim para um bola com a camisola do Sporting: o último jogo do costa-riquenho pelo clube foi a 13 de maio, na derrota (2-1) contra o Feirense

FRANCISCO LEONG

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Quando todos éramos miúdos e, numa tarde de previsível tédio, sem nada para fazer, enchíamos os bolsos de moedas e zarpávamos para a sala de jogos mais próxima. Eram tempos em que nem todos tinham consolas em casa, ligadas à televisão e dadoras de um vício mais sedentário. Não senhor. Nessa altura saía-se à rua, à caça dos jogos de arcada que máquinas do tamanho de eletrodomésticos ligados à corrente nos ofereciam. Ou melhor, nos davam em troca caso lhes déssemos de comer uma moeda. E aqui chegamos à chave de toda esta introdução.

Porque, nesses tempos, as máquinas tinham fome e, no fim de qualquer jogo ganho ou perdido nos exigia, elas exigiam-nos sempre algo – uma moeda. Caso lhes satisfizéssemos a fome, voltava tudo ao mesmo, o jogo era igual, não mudava. O desafio mantinha-se. E parece que essa brincadeira pré-histórica, em termos tecnológicos, vai ser replicada esta semana na Liga dos Campeões.

Chegámos ao ponto em que a competição dá a volta e repete os confrontos que emparelhou na jornada anterior. Ninguém precisa de meter uma moeda, é assim que as coisas são. Portanto, se há duas semanas batemos mais na tecla do Sporting por culpa de quem o clube ia receber, é normal que voltemos a bater-lhe devido ao clubes que os leões vão visitar (quarta-feira, 19h45, Sport TV1). Podíamos estar aqui a falar de Aubameyang, Weigl (os dois que marcaram em Alvalade), Götze, Dembelé ou Raphaël Guerreiro, que já não está magoado, mas como as coisas das quais eles são capazes ainda fazem parte da memória recente, é preferível ir ao que vai mudar. O estádio.

O Signal Iduna Park é onde mora uma das bancadas mais barulhentas da Europa. Fica atrás de uma das balizas, é das que caem a pique e se precipitam sobre o campo. Quase toda a gente fica lá em pé e a ela se dirigem sempre os jogadores, no fim das partidas, para uma comunhão que se repete na vitória, no empate ou na derrota. É a maior da Europa, com espaço para quase 25 mil pessoas. E é bonita, como o é o resto do estádio, que a meio deste mês ultrapassou os quatro milhões de espetadores, contados desde 1974. O ambiente é tramado para quem não está habituado e os adeptos fazem questão de assim o ser. Desde 1998 que forma o estádio com melhor média de afluência na Alemanha.

Mas o Sporting até tem sorte num aspeto, que é o facto de a UEFA, por questões de segurança, não deixar que o Borussia encha o recinto até ao tutano dos mais de 81 mil lugares que tem. Em jogos da Liga dos Campeões apenas pode ir até aos 65.829 espetadores, que formarão o ambiente no qual convém aos leões vencerem para ainda terem hipótese de pensarem em continuar na prova.

Os três pontos da equipa de Jorge Jesus parecem estar muito longe dos sete que o Borussia Dortmund e o Real Madrid partilham. Talvez se aproximam um pouco caso Adrien Silva, o capitão sem o qual o Sporting apenas venceu um dos últimos quatro jogos, já possa jogar.

Não ganhando, ou, pelo menos, não empatando, a Liga Europa passa a ser (de vez) o destino mais provável para uma equipa que tem caído no ritmo, na intensidade e na qualidade de jogo desde que quase arrancava esta Liga dos Campeões em beleza - esteve a vencer, e a ser melhor, que o Real Madrid, no Bernabéu, durante 88 minutos. Agora, tem mais 90 que bem lhe poderão ditar o destino nesta Champions.

António Cotrim/Lusa

Mais otimista poderá estar o Benfica, que depois de ir ao frio vai ser anfitrião (terça-feira, 19h45, RTP1) no calor de outono que tem arrancado sorrisos por Lisboa. Os encarnados andam felizes, e percebe-se: são líderes no campeonato, perder é mentira (só uma derrota nos últimos 23 jogos oficiais) e parecem estar a crescer. Este último ponto, por outras palavras, começou a ser bem visível desde que a equipa foi a Kiev e voltou a pôr alguém no centro de tudo.

É Pizzi, o rapaz que quis ser extremo, que foi improvisado a médio, que voltou para uma ala e, culpa de lesões alheias, voltou ao centro. E não pode ser coincidência que o Benfica tenha vindo a jogar mais, melhor e com outra rotação a partir daí. Na sexta-feira, contra o Paços de Ferreira, por exemplo, o médio fez 107 passes. A bola passou muito tempo nos pés dele e teve bem mais olhos para a frente, porque viu-se como o português quebrou linhas de pressão e tirou adversários de jogadas com passes verticais, que fazem a equipa mexer. Frente a um Dínamo que tem uma cara a atacar (boa), outra a defender (bem pior) e que pressiona pouco quando não tem a bola, é nele que poderá estar a diferença.

Caso esteja nele, ou noutro qualquer de encarnado, uma vitória para o Benfica deixará a equipa com sete pontos e, na pior das hipóteses, no segundo lugar do grupo. O que é bom, pois uma das partidas que lhe ficará a faltar será na Luz, contra o Nápoles, que a teoria nos diz ser o mais difícil dos adversários.

Dean Mouhtaropoulos

Este cenário é mais ou menos o mesmo para o FC Porto, que já teve de meter duas moedas na máquina para recomeçar o jogo nesta Liga dos Campeões. Os dragões, titubeantes como têm estado esta época, começaram a tremer. O empate caseiro com o Copenhaga e a derrota em Leicester deram ambos a mesma impressão – faltava coesão e intensidade à equipa, que não era capaz de manter o peito feito no jogo nem, sobretudo, ser estável. O ponto conseguido em dois jogos no meio do grupo que mais sorria a equipas portuguesas preocupou.

O sentimento manteve-se até aos 92 minutos da partida em Brugges, quando houve um penálti para André Silva bater e, a custo, dar a primeira vitórias aos dragões na competição. Aconteceu contra a equipa mais fraca do grupo, que ainda não tem pontos e que, na quarta-feira (19h45, Sport TV2) vai jogar no Dragão. Esse pontapé do miúdo que é o novo abono de golos da equipa – e da seleção nacional, já agora – deu uma das quatro vitórias seguidas que o FC Porto teve desde a derrota em Leicester.

Os jogadores ganharam confiança, embalaram na moral de quem ganha e está num bom momento, e até Nuno Espírito Santo se sentiu à vontade para, desenhando, tentar explicar o que era “jogar à Porto”. Parecia ser quase aquilo.

Mas não era, porque os dragões foram empatar a Setúbal e a pôr um travão no ascendente que parecia estar a rumar ao clássico do próximo domingo, contra o Benfica. No meio estará este Club Brugge, treinado por Michel Preud’homme, que fez desta equipa de ataques rápidos e vertigem a atacar uma campeã belga. Se perder com o FC Porto fica sem hipóteses de continuar viva na Liga dos Campeões.

Esta pode ser a última moeda que os belgas metem na máquina. Ao FC Porto – como o Benfica e o Sporting –, convém ganhar para continuarem a alimentar a máquina.