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Liga dos Campeões

Benfica: quem não tem unhas, toca com palheta

O Benfica ganhou ao Dínamo de Kiev na Luz e tem agora os mesmos pontos do que o Nápoles, o líder do Grupo B. O penálti marcado por Salvio e o penálti defendido por Ederson foram dois dos três momentos do jogo - o terceiro, a lesão de Fejsa

Pedro Candeias

JOSE MANUEL RIBEIRO

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Rui Vitória lançou o Benfica-Dínamo falando de palheta e de conversas de café, boas para passar o tempo, mas que não ganham jogos. Disse ele que isso de ser primeiro, de ter não sei quantos pontos de avanço sobre um ou outro adversário é um entretém de quem tem tempo e não tem pressa - e, para este jogo, o Benfica entrava apressado. E apertado.

Apressado porque o Dínamo era, em teoria e na prática, o clube mais fraquinho do Grupo B (ah, os saudosos anos 90 de Shevchenko) e quanto mais cedo fosse encostado, melhor. É que da pressão à ansiedade vai um tirinho.

Apertado, porque o Besiktas e o Nápoles tinham empatado (1-1) minutos antes, o que não era mau para os encarnados, mas também não era bom - o cenário ideal incluía uma vitória italiana, para deixar menos confusas as contas deste grupo.

Pois então, o Benfica entrou a correr, com a defesa subida e a confiar nos golpes de vista de Luisão no fora-de-jogo, as variações de flanco de Pizzi, as ajudas de Grimaldo e de Semedo lá à frente, à espera de atingir aquele estado tântrico de estar com a bola no pé sem nada de concreto para fazer com ela - aquilo que os técnicos chamam descansar em posse quando se está à frente do marcador.

Só que nada aconteceu. Ou melhor, pouco ou nada aconteceu.

Aos 22 minutos, já o Arsenal sofrera dois e marcara um ao Lugorets e Messi o gostinho ao pé na Liga dos Campeões, e na Luz as coisas interessantes eram três: um cabeceamento mortiço de Luisão, uma sucessão de ressaltos de Guedes que acabou com ele no chão, e um lance de Grimaldo.

O mérito era do Dínamo, que empurrava os encarnados do meio para os flancos, o que dificultava o trabalho dos rapazes de Vitória e facilitava o jogo dos de Rebrov. O problema é que, sem Yarmolenko, atacar, perdão, contra-atacar é um processo mais complicado. E sem Yarmolenko e com Fesja, com este Fejsa, pela frente, mais complicado fica. E mesmo quando se ligou o descomplicador e Derlis fez rodopiar o centro de gravidade, alto como um escadote, de Luisão, apareceu Lindelöf a safar o Benfica.

Mas foi nesse instante, em que o sueco perdeu e voltou a ganhar a bola, que o Dínamo cresceu e o Benfica se encolheu. Em duas, três jogadas de ataque rápido, a equipa de Lisboa pôs-se a jeito, por falta de ideias lá à frente ou de pernas em todo o lado. Em alguns momentos, nota-se que não há Jonas e que há cansaço acumulado de jogar-se sempre com os mesmos. E, nesses momentos, fica-se à espera de um golpe de génio, de uma bola parada ou de um disparate alheio.

E é aí que Vida entra neste filme, quando agarrou Luisão num lançamento lateral e cometeu falta para penálti.

Um disparate.
Uma bola parada.
E um golpe de mau génio.

Salvio fez o golo, o seu terceiro na Liga dos Campeões, e o Benfica foi para o intervalo a pensar que as coisas podiam estar a correr pior. Sem dominar, sem brilhar, estava a vencer. E o resto, é palheta, diria Vitória.

E, agora, sem Fejsa

Na segunda-parte, o Benfica apareceu novamente melhor do que o adversário, e teve inclusivamente algumas oportunidades para fazer o segundo golo. A mais caricata sucedeu quando Mitroglou saiu por ali a fora a correr com a bola dominada, ensaiou a finta da bicicleta (agarra-ladrão, na versão de Mantorras)... e foi ao chão.

Depois, aconteceu aquilo: Fejsa saiu lesionado, após entrada dura de um adversário. Tirem-lhes Jonas, Horta, Rafa, Luisão ou Jardel, mas não lhes tirem Fejsa, que é o Arquimedes da equipa, o tipo sobre o qual (e à volta do qual) tudo se move. Sem ele, percebe-se que o Benfica perde coesão e concentração, torna-se mais faltoso e menos seguro. Embora em posições diferentes, o sérvio funciona no Benfica como Adrien no Sporting. Como um farol.

Após a saída de Fejsa – e embora admita que dois os acontecimentos possam não estar relacionados, tal como o sol e o calor e a chuva e o chão molhado – a verdade é que Ederson saiu dos eixos e fez falta para penálti sobre Derlis.

O brasileiro defendeu o remate, remediou o que parecia irremediável (um empate caseiro que deixava o Benfica praticamente fora da corrida) e os encarnados encararam o resto que havia para jogar com cinismo. Atacar pouco e só pela certa e esperar que o tempo passasse rapidamente.

Vamos às contas: o Benfica tem sete pontos, tantos quantos tem o Nápoles; o Besiktas tem seis pontos e o Dínamo tem um. Os encarnados já garantiram, pelo menos, a Liga Europa. O resto está para se ver. Com ou sem Fejsa, é a dúvida que fica no ar.