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Liga dos Campeões

Jesus inventou. E a diferença, agora sim, quase esteve no treinador

Três centrais, uma tática nova e com dois titulares (Paulo Oliveira e Luc Castaignos) que apenas tinham estado num jogo cada um. Jorge Jesus quis experimentar coisas novas em Dortmund e o Sporting deu-se bem quando tinha tudo para se dar mal: jogou mais, foi mais perigoso e teve mais oportunidades. Só que falhou-as todas, perdeu (1-0) e fica quase fora desta Liga dos Campeões

Diogo Pombo

PATRIK STOLLARZ

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Então, a coisa desenrolou-se mais ou menos assim:

18h47: a UEFA faz o que lhe compete e divulga as fichas de jogo do Borussia Dortmund e do Sporting. Do lado direito do papel, por baixo dos onze nomes que jogam de início, está um desenho, com a tática, que põe uma das novidades dos leões, que é um defesa central, a jogar à direita da defesa. Tem tudo para correr mal, penso.

18h50: o Sporting deixa passar três minutos para que todos assimilemos o onze que Jorge Jesus escolheu. Pelo Twitter, o clube revela a equipa e, pela sucessão dos nomes, percebe-se que, afinal, Paulo Oliveira vai jogar a central, ao lado de Coates, à direita está o galgo chamado Schelotto e, uns metros à frente, sai a fava a Rúben Semedo, defesa que, pelos vistos, vai jogar ao lado de William a meio campo.

18h59: na mesma rede social, o clube publica uma ilustração da tática, mais bonita, que volta a pôr Paulo Oliveira a lateral direito, com Schelotto a fazer de extremo. Não há certezas sobre por onde vai correr o defesa que, com quase três meses de época, tem até ali 90 minutos feitos contra uma equipa da segunda divisão (Famalicão). Nem se descortina grande sentido em sentar um holandês (Bas Dost) com cinco golos marcados para se levantar outro (Luc Castaignos), que tinha 29 minutos de jogo esta época.

Durante os seguintes quarenta e cinco minutos, há tempo para matutar. Os neurónios ocupam-se a pensar em Jorge Jesus, que não vence há três jogos e chega ao quarto, o mais difícil e importante, e decide inventar. No porquê de pôr um defesa central a jogar como lateral e de como isso, em outras vidas - no 5-0 no Dragão e no 4-1 em Liverpool, com laboratório no Benfica e com David Luiz a fazer de experiência -, já lhe saiu bem caro. Dá até para pensar na hipótese de a experiência ser levada ao extremo de os três centrais jogarem ao centro, numa tática nunca tentada pelo treinador que é tido como um mestre a trabalhá-las.

19h46: o jogo arranca atrasado e sim, há três centrais em linha, dois laterais a tratarem das linhas e os restantes a fazerem os possíveis. Os três defesas, cinco médios e dois avançados que toda a gente espera são mais um 5-4-1 quando o Sporting não tem a bola e uma espécie de 3-4-3 nas alturas em que a tem.

Enquanto penso que, em teoria, Jesus teve um sábado e um domingo em Alcochete e uma segunda-feira, em Dortmund, para explicar aos jogadores como se vive desta maneira - porque não andaria a treinar isto desde o verão -, a prática surpreende. Os leões estão confortáveis com a bola, muitos são os jogadores que a conseguem ter de frente para a baliza, há espaço para eles a passarem. Bryan Ruiz e Gelson deambulam pelo centro, Bruno César gravita em torno de William e, entre todos, faz-se tempo para Marvin e Schelotto avançarem pelas alas sem os elásticos que costumam ter a puxá-los para trás.

A surpresa de o Sporting jogar como não costuma também é sentida pelo Borussia. Os três defesas atrás e o único avançado à frente fazem com que sobre muita gente aos leões no meio campo. Há mais hipóteses para tocar a bola, trocar de posições e por gente a espreitar espaços. A atacar, tudo isto cria dúvidas aos alemães, que não sabem quem devem marcar, pressionar ou perseguir. Não estavam à espera de defender uma equipa com tanta gente ao centro e sempre com um jogador de cada lado, encostado à linha.

E se Gelson não tivesse dado o toque a mais na bola no fim de um tiki-taka improvisado (27’), ou se tivesse sido mais rápido a rematar o cruzamento que Marvin lhe dá (31’), depois de o holandês receber um passe a rasgar de Bruno César, eu estaria aqui a escrever como o risco compensa e Jesus devia arriscar mais vezes. Mas o guarda-redes Burki saiu aos pés do português e Bartra bloqueou-lhe o remate e as oportunidades não passaram disso mesmo - de quases.

PATRIK STOLLARZ

O problema é que, a defender, esta forma de jogar criou tantas dúvidas no Borussia como no Sporting.

Os leões encolhiam-se, ficavam com demasiados jogadores em linha, dentro da área, quando os alemães se aproximavam com a bola. Os centrais mantinham a posição quando deviam sair e pressionavam quando era melhor fazerem contenção. A equipa confiava que bastava fechar-se para tapar a baliza. Encolheu-se, ficou à espera. E houve espaço para Ginter cruzar e Adrián Ramos saltar mais alto (12’) que um desses centrais, que os deuses da coincidência fizeram com que fosse Paulo Oliveira. O Sporting ficava a perder cedo e o desastre que o pessimismo podia adivinhar não chegou, porque a equipa compensava no ataque - e o Dortmund acertou na barra e na rede lateral os dois remates que Pulisic e Raphaël Guerreiro.

Os outros quarenta e cinco minutos que houve para testar a invenção provaram que, afinal, podia mesmo resultar.

Porque se há algo contra o qual os jogadores não podem fazer nada é o cansaço. E a desconcentração que ele causa, a falta de lucidez que provoca e as corridas a que ele não convida. E ele foi-se notando cada vez mais nos alemães, que deixaram de pressionar como uma equipa (ou seja, todos juntos) e começaram a deixaram mais espaço livre para os leões jogarem.

O Sporting começou a jogar mais, primeiro, por já ter os pés de tabela e a esperteza de Bas Dost a servir de referência na frente. Segundo, porque na última meia hora passou ter em campo o homem que tudo faz mexer e que não jogava há um mês. Com Adrien Silva, os leões aproveitaram melhor o espaço livre, confundiram ainda mais o Dortmund e foram obrigando os adversários a fazerem faltas, muitas.

Gelson, de longe, disparou uma bola que Burki desviou para canto. Adrien teve um livre e uma auto-estrada para rematar, mas em ambas não acertou na baliza. E Bryan Ruiz, de cabeça, fez com o cruzamento de Schelotto o que começa a ser habitual cada vez que consegue dar nas vistas contra equipas com mais “traquejo” e “bagagem emocional” na Liga dos Campeões - desperdiçou a melhor oportunidade para marcar. E voltou a perder, como perdera em Madrid, onde também foi melhor contra um tubarão do futebol europeu, que o faz parecer um peixinho.

21h38: é a terceira derrota do Sporting nesta Liga dos Campeões e Jesus perde outra vez um jogo em que é melhor que o treinador adversário na tática e no ver-quem-apanha-quem-de-surpresa. Muitos anos depois, voltou a inventar numa partidas das grandes e, como nunca, isso resultou em tudo, menos no que interessava: no resultado.

WOLFGANG RATTAY