Tribuna Expresso

Perfil

Liga dos Campeões

O regresso do ‘oitchentcha e otcho’ (e outros fantasmas)

Sporting, Benfica e FC Porto entraram em falso na Champions e dois meses depois voltam a encarar os adversários da 1.ª jornada. Entre terça e quarta-feira, há fantasmas para enfrentar e algumas contas para fazer

Lídia Paralta Gomes

RECORDES E MAIS RECORDES. Cristiano Ronaldo liderou a reviravolta no Bernabéu e esta terça-feira em Alvalade poderá chegar aos 500 golos na carreira. "Basta" marcar dois golos - o que assim de repente, não será a coisa mais estranha do mundo

GERARD JULIEN/GETTY

Partilhar

Primeira jornada da Liga dos Campeões 2016/17, 13 e 14 de setembro e ainda faz calor. As equipas portuguesas entram cheias de força, mas no final ganham novos fantasmas, uns mais conhecidos do que outros. A passagem do tempo é impiedosa e, entretanto, o calendário já deu a volta: esta semana é hora de Sporting, FC Porto e Benfica exorcizarem o que correu mal há dois meses.

Ronaldo e Alvalade, um amor sem piedade

Recuemos então até setembro. Benfica e FC Porto arrancaram em casa e coube ao Sporting a chamada ‘fava’: se é para começar que seja em grande e nada mais grandioso que um jogo no Santiago Bernabéu. Pois bem, a coisa até parecia encaminhada para um conto de fadas, quando o David Sporting marcou ao Golias Real Madrid logo após o intervalo. Bruno César aproveitou que Sergio Ramos estava em dia Sergio Ramos e escandalizou Madrid.

O problema foi quando chegou o minuto ‘oitchenta e otcho’. Corria já nas nossas cabeças a pergunta “será que Cristiano Ronaldo ainda sabe marcar livres diretos?” quando o português fez aquilo que melhor sabe: calar quem se acha no direito de duvidar dele. O balde de água fria foi grande, porque o Sporting jogava bem e não merecia, e ficou gelado quando Morata deu a vitória ao Real, com um golo aos 90+4’.

Esta terça-feira em Alvalade, o Sporting lá terá de enfrentar o fantasma ‘oitchenta e otcho’. Ou do rapaz que lhes marcou nesse fatídico minuto para a língua que Cervantes embelezou e à qual Jesus deu um toque de magia.

Cristiano pode ser produto de qualidade made in Alvalade - e até vai calçar umas novas botas inspiradas do Sporting - mas não tira o pé do acelerador nas visitas ao estádio onde num belo dia de agosto de 2003 arrancou os rins a John O’Shea à base de fintas. Desde que saiu de Portugal, o capitão da Seleção Nacional jogou três vezes frente ao Sporting, duas pelo Manchester United e uma pelo Real Madrid. E nas três vezes marcou - sem festejar, que o respeito é bonito.

Além disso, Cristiano Ronaldo pode esta terça-feira chegar a dois impressionantes registos pessoais: caso marque dois golos (o que, bem vistas as coisas, é só um dia normal na vida do craque), chega ao golo 500 da carreira e ao golo 100 na Champions. E sabendo do apetite que CR7 tem por recordes, é bom que o Sporting se cuide.

O fantasma das contas é outro que o Sporting, que segue em 3º do Grupo F com apenas 3 pontos, terá de enfrentar. Mas este explica-se em duas linhas: em caso de derrota, adeus Champions, foi um prazer conhecer-te.

FC Porto e um Copenhaga ‘à Benfica’

Estávamos em setembro e Nuno Espírito Santo ainda jogava à roleta russa das táticas quando o Copenhaga aterrou no Porto. Tamanha indecisão não seria problema frente a uns tenrinhos dinamarqueses, pensaram os adeptos portistas. E as coisas não começaram mal: Otávio fez o primeiro ainda antes da passagem do primeiro quarto de hora.

O problema é que, a partir daí, o FC Porto desapareceu, como que abduzido da sua própria casa por seres não terrenos. Aproveitou um rapaz cujo nome faz lembrar aquela vaquinha simpática que aparecia na televisão ao lado de Raul Solnado: Andreas Cornelius.

Nisto do esotérico, o FC Porto não se pode queixar: o fantasma das táticas Nuno já parece ter resolvido. Já o fantasma Cornelius tratou-se a si próprio: o avançado dinamarquês lesionou-se no último jogo para o campeonato e é carta fora do baralho para a receção ao FC Porto. Além de Cornelius, o Copenhaga não poderá contar ainda com outro dos titulares no ataque, o paraguaio Federico Santander, também magoado. É como se de repente o vírus ‘Enfermaria da Luz’ se tivesse espalhado para a capital dinamarquesa.

Quanto a contas, o FC Porto está um pouco mais à vontade que o Sporting, mas convém não inventar. Os dragões têm 7 pontos e estão em 2º lugar no Grupo G mas em caso de derrota vêem o Copenhaga (5 pontos) saltar para a vice-liderança. Uma vitória na Dinamarca resolve desde logo o assunto.

Istambul é um inferno (mas Talisca não joga)

No tal setembro do descontentamento dos grandes, o Benfica foi o primeiro emblema português a estrear-se na Champions, na Luz, frente ao Besiktas. Aí vai o filme do jogo, mais coisa, menos coisa: Cervi marca cedo e os encarnados dominam, com as bancadas a mimarem Quaresma com um chorrilho de assobios. Mas o segundo golo não aparece. Após o intervalo, entra Talisca, emprestado pelas águias. Os turcos, que na 1ª parte mostraram ter o ritmo de uma morsa arrastando-se na areia, começam a crescer. Quaresma, que não é homem para se intimidar com assobios (nem com as pedras que lhe atiraram este fim de semana na Turquia, quanto mais com assobios), quase marca e Gonçalo Guedes, atirado à titularidade por ser o único avançado do Benfica sem ficha hospitalar, atrapalha-se em frente à baliza ao minuto 90 e não mata o jogo.

Pois quem não se atrapalha é Talisca: já estamos nos 90+3’ quando o brasileiro dá-lhe com o peito do pé esquerdo e marca um livre direto mesmo ao cantinho. Ederson até podia ter asas que não teria conseguido evitar um empate que ninguém estava a ver chegar e que deixou desde logo o Benfica com contas para fazer na Champions.

Boa notícia para os encarnados: Talisca está lesionado e não joga na quarta-feira. Menos um fantasma para o Benfica enfrentar.

Mas há outros. Ganhar a um dos grandes de Istambul na Turquia, por exemplo, coisa que o Benfica ainda não conseguiu. Na última temporada perdeu com o Galatasaray na fase de grupos da Liga dos Campeões (2-1) e frente ao Fenerbahçe o registo não é melhor, com dois jogos e duas derrotas. A mais recente nas meias-finais da Liga Europa de 2012/13 (2-1) e a mais antiga na 1ª eliminatória da Taça dos Campeões Europeus de 1975/76 (1-0) - em ambas o Benfica seguiu em frente, com vitórias na Luz.

Quanto a contas, o Benfica está na frente do Grupo B, com os mesmos 7 pontos do Nápoles, mas o Besiktas está logo ali à espreita, com 6 pontos. Caso vença, o Benfica está na próxima fase. Se não ganhar, jogará tudo na última jornada, em casa com os italianos. Situação que Rui Vitória quererá evitar a todo o custo.