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Liga dos Campeões

Realmente, alguém jogou mesmo no red line

O Benfica apenas dependia de si para continuar na Liga dos Campeões e Rui Vitória exigiu que a equipa jogasse no limite. Mas os encarnados acabaram a depender de outros para se qualificarem para os oitavos-de-final, porque enquanto o Dínamo ia atropelando (6-0) o Besiktas, eles iam abrandando e perdendo (2-1) com o Nápoles

Diogo Pombo

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PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Não é necessário pescar muito de motores, de acelerações ou de mecânica, para saber que red line é coisa que todo o carro tem. Se estiver sentado no lugar do condutor e olhar para o conta-rotações, vai reparar que há ali um ponto em que a linha fica vermelha. Vermos o ponteiro a atingir esse ponto significa que estamos com o pé pesado no pedal do acelerador, ou que nos apeteceu esticar uma mudança da caixa de velocidades até ao máximo. No fundo, ir ao red line é puxar pelo que o carro tem ao pono de ele não dar mais.

Ou de estoirar.

O curioso nisto do red line é que depende muito do motor, da cilindrada, do binário, dos cavalos e de tudo o mais que faz um carro locomover-se. Com isto quero dizer que ir até ao máximo é sempre relativo, porque depende do que nos oferecem e do que oferece o carro contra o qual formos correr. Estou para aqui com jargão automóvel porque Rui Vitória, como dissera tantas vezes a época passada, voltou a dizer que o Benfica tinha de “jogar no red line” para fazer pela vida contra o Nápoles e “perceber o que é a Liga dos Campeões” - que, sem pensar muito, é uma competição em que jogam as melhores equipas e os melhores jogadores da Europa.

Continuando sem matutar grande coisa, seria de esperar que, frente a gente como Hamsik, Insigne ou Callejón, que no primeiro encontro chegou a estar a vencer por 4-0, o Benfica jogasse mais, melhor e com mais intensidade do que o fez no fim de semana, quando, dois meses depois de Nápoles, voltou a perder. E os encarnados foram ao red line, sim, defendendo mais e com mais intensidade, mas não melhor. Os italianos entraram no jogo a pressionar em cima, lá à frente, com os defesas na linha do meio a encurtarem o retângulo de espaço por onde o Benfica podia ver o que fazia à bola.

Fez muito pouco. A equipa de Rui Vitória lidou mal com o aperto que é raro sentir no campeonato, não conseguiu montar jogadas pelo centro do campo e lidou mal com a pressão alheia, trocando passes para o lado entre Luisão e Lindelöf ou para os extremos. Os encarnados tocavam menos na bola, perdia-a mais vezes e acumulavam menos passes que o Nápoles, que aproximava Hamsik de Insigne, projetava os laterais bem junto às linhas e, depois, fazia quase sempre uma coisa - concentrava-se à esquerda, convidava o Benfica a fechar ao engano e esperava até ter espaço para encontrar Callejón, do outro lado do campo.

Os encarnados não perceberam isto, foram caíndo na armadilha e vendo os italianos a massacrarem as costas de André Almeida. E as de Luisão, por onde Gabbiadini se desmarcou sempre e, por duas vezes, recebeu a bola e a rematou contra Ederson. A equipa não conseguia ligar cinco passes seguidos e testemunhava a asneira de Nélson Semedo, quando ele quis proteger a bola que Goulam lhe roubou e cruzou para um remate de Callejón. Fora a bola que o argelino quis aliviar para Algés, ressaltou no corpo de Cervi e acabou a ser rematada ao lado por Gonçalo Guedes (na única vez que o Nápoles não saiu a jogar de trás), a equipa não dava boas notícias ao treinador.

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Só um adepto lhas deu, puxando pela linguagem gestual, quando o informou atrás do banco que o Dínamo de Kiev vencia o Besiktas por 2-0 a meio da primeira parte. E mais alguém lhe terá dado outra, no balneário, quando todos soubemos que os ucranianos já davam 4-0 aos turcos, que bastava não ganharem para o Benfica seguir para os oitavos-de-final.

Alguém estava a jogar no red line.

Não eram os jogadores do Benfica, que relaxaram, tiraram o pé do acelerador, foram puxando menos pelo motor e todas as demais analogias motorizadas. Um problema, porque a defesa recuou uns metros no campo, Fejsa e Pizzi seguiram-na e a equipa partiu-se. Desorganizou-se sem a bola e passou a tentar recuperá-la sem um todo e com muitas partes a cansarem-se, sozinhas.

Os italianos, que desejavam o primeiro lugar do grupo, tentaram ir jogando mais rápido e com passes perpendiculares à baliza. E, como já se sabia, às costas de André Almeida, onde apareceu um dos extremos que mais jeito tem para saber quando e como se tem de desmarcar. Quando Callejón picou a bola (60’) sobre o corpo de Ederson, o Besiktas já perdia por cinco em Kiev e jogava só com nove.

O que dava ao Benfica o luxo de perder e de não perder nada com isso.

Rui Vitória viu, como toda a gente, que o ponteiro fugia cada vez mais da zona vermelha do conta-rotações, e aproveitou para tirar os que mais costumam correr (Cervi, Guedes e Salvio) e guardá-los para domingo, quando perder ou ganhar significará muito (para os mais esquecidos, há dérbi frente ao Sporting). O Benfica abrandou ainda mais até Mertens bailar perante Luisão, o mais lento dos encarnados, que ficou pregado à relva enquanto o belga se desviava e rematava para o 2-0.

Os cerca de 15 minutos que ainda se jogaram puseram toda a gente à espera que o relógio se apressasse, menos Jiménez, que teve pressa em apertar Raúl Albiol para o obrigar a errar e perder a bola com que o mexicano amenizou a derrota, a três minutos do fim. Pela forma como correu e não parou de dar às pernas, talvez fosse o único a importar-se com o resultado, que se tornou irrelevante porque alguém fez o que Rui Vitória pediu - o Dínamo, que acabou a vencer o Besiktas por 6-0.

Para bem dele, do treinador e do Benfica, houve mesmo uma equipa a jogar no red line. A que não era suposto fazê-lo, mas que os deixou seguir para os oitavos-de-final de Liga dos Campeões pelo segundo ano consecutivo e a pior defesa de sempre (10 golos sofridos).