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Iker e Gianluigi, a história de um “bromance”

São os dois melhores guarda-redes da sua geração, mas também os maiores admiradores um do outro. Esta quarta-feira, Iker Casillas e Gianluigi Buffon enfrentam-se pela 17.ª vez, quando arrancar o FC Porto-Juventus, jogo dos oitavos de final da Liga dos Campeões (19h45, SportTV1)

Lídia Paralta Gomes

LENDAS Casillas dorme com umas calças de Buffon e o italiano nunca deixou de o defender. Entre ambos há amizade e 45 títulos

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Bromance, substantivo masculino: “Uma relação próxima mas não sexual entre dois homens”.

O termo é informal, mas já aparece no dicionário Oxford. Aplicação prática? Esta quarta-feira, pelas 19h45, no Estádio do Dragão, na 1.ª mão dos oitavos-de-final da Liga dos Campeões, quando Iker Casillas e Gianluigi Buffon, de 35 e 39 anos, respetivamente, se abraçarem pela 17.ª ocasião, numa história de respeito e admiração que começou há quase 14 anos, quando os guardiões se enfrentaram pela primeira vez.

Jogava-se então a meia-final da Liga dos Campeões 2002/03. Real Madrid-Juventus, 6 de maio de 2003. Na 1.ª mão, Iker sorriu em casa (2-1), mas uma semana depois, no Delle Alpi, Buffon ajudou a Vecchia Signora a dar a volta à eliminatória – a Juventus venceu por 3-1 e Casillas e Figo ficaram sem a final.

Nada que tivesse deixado o guarda-redes espanhol machucado. Aliás, desde aí cresceu uma relação de amizade, mais antiga que o próprio Twitter, onde por estes dias os dois trocam carinhos.

Como aqui, quando FC Porto e Juventus conheceram o sorteio dos oitavos-de-final:

Ou aqui, quando o UEFA perguntou quem era o melhor:

Ou até aqui, quando Casillas deu os parabéns a Buffon por ocasião dos 20 anos de carreira do italiano, recordando o tal primeiro confronto de 2003:

Mas os mimos vão para lá do Twitter. Em 2015, num documentário transmitido pelo canal espanhol Cuatro, Casillas falou de como aos 14 anos já admirava Buffon, que por essa altura, com 17 anos, era titular na baliza do Parma. E foi mais longe: até na hora do descanso, Buffon está presente. Como assim? “Pode parecer estranho, mas tenho umas calças do Gigi que visto para dormir”. Quem nunca fez uma coisa esquisita por um ídolo que atire a primeira pedra.

QUERIDOS AMIGOS. Iker bateu Buffon na final do Euro’2012

QUERIDOS AMIGOS. Iker bateu Buffon na final do Euro’2012

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Já Buffon foi sempre o melhor advogado de defesa do colega espanhol, principalmente nos maus momentos. Quando em 2005 se falou de uma possível ida do italiano para Madrid, Buffon recusou a abordagem e ainda deixou palavras simpáticas para o colega: “Parece-me que a baliza não é problema para o Real Madrid”.

E dez anos depois, numa altura em que as exibições de Casillas provocavam mais assobios que aplausos no Bernabéu, Buffon não teve meias medidas: “É um gesto muito pouco grato, inclusivamente inédito para com um profissional que sempre deu o máximo pelo Real Madrid. Tanto nos bons como nos maus momentos, os ícones não merecem este tipo de atitude dos adeptos”. É precisamente de 2015 o último confronto entre ambos, na meia-final da Liga dos Campeões: tal como em 2003, Buffon foi mais forte que Casillas.

Os números

Esta quarta-feira, Casillas e Buffon enfrentam-se pela primeira vez após a saída do espanhol do Real Madrid. Será o 163.º jogo de Casillas na fase final da Champions e o 102.º de Buffon, numa competição em que o espanhol tem sido bem mais feliz: venceu-a três vezes (1999/00, 2001/02 e 2013/14), ao contrário de Buffon, que perdeu as duas finais da Liga dos Campeões que disputou.

Curioso o facto de os dois terem o mesmo número de jogos pela seleção: 167. Ambos foram campeões do Mundo (Buffon em 2006 e Casillas em 2010), mas o espanhol tem no palmarés dois Campeonatos da Europa (2008 e 2012). Aliás, o único duelo entre ambos que valia um troféu jogou-se precisamente na final do Euro’2012: em Kiev, a seleção espanhola bateu a Itália por 4-0 e o capitão Casillas levantou a taça.

Os guarda-redes são dois dos jogadores mais titulados no ativo - Casillas tem 24 títulos e Buffon 21. A nível interno, o italiano ganha: conquistou o scudetto sete vezes, contra os cinco títulos nacionais de Casillas pelo Real Madrid.

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O confronto direto

Este será o 17.º jogo entre os amigos Casillas e Buffon e, tal como nas discussões sobre qual deles é o melhor, a coisa está claramente dividida. Assim, em 16 jogos há seis vitórias para Casillas, quatro para Buffon e seis empates pelo meio.

Se falarmos apenas de Liga dos Campeões, há três vitórias para cada lado e dois empates. Contudo, nos jogos a eliminar, Buffon saiu sempre por cima: deixou Casillas fora da liga milionária em 2002/03 (meias-finais), 2004/05 (oitavos-de-final) e 2014/15 (meias-finais) - eliminações que provavelmente o italiano trocaria por qualquer um dos três títulos da Liga dos Campeões que Casillas conquistou.

Nas seleções, em oito confrontos (oficiais e não oficiais), Casillas venceu cinco e Buffon apenas um, registando-se ainda dois empates entre Espanha e Itália.

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As comparações

Os estilos são diferentes e por isso as opiniões divergem. “Casillas é muito bom entre os postes e é melhor tecnicamente, mas Buffon tem mais personalidade e caráter”, disse o mítico Dino Zoff, campeão do Mundo pela Itália em 1982, ao “El País”, em 2008. Contudo, em 2015, numa entrevista à rádio espanhola 4G, Zoff reconheceu que Casillas é mais “preponderante nos momentos decisivos”.

Entre os jogadores que partilharam balneário com ambos, reina a diplomacia. “De Iker fico com os reflexos e de Buffon com o um contra um”, disse ao diário “Marca” Álvaro Morata, que jogou com Casillas em Madrid e com Buffon em Turim. À mesma publicação, Fernando Llorente, que esteve na Juventus com o italiano e com o espanhol na seleção, optou por frisar aquilo que os une: “Uma capacidade de trabalho infinita, a humildade e o grande companheirismo”.

O efeito das carreiras de Casillas e Buffon é de tal maneira transversal que até ‘the one and only’ Eros Ramazzotti tem algo a dizer sobre a comparação. “Há uma diferença entre os dois: Buffon não falha. Nos últimos anos, Casillas tem cometido erros. É a realidade, não sou eu a dizer. Buffon continua a ser um guarda-redes que dá máxima segurança à sua equipa”, disse o cantor italiano ao jornal espanhol “As” em 2015. Convirá dizer que Ramazzotti é adepto da Juventus, mas a análise falhará por pouco.

Tal como não falhará a certeza que esta quarta-feira, no Estádio do Dragão, estarão frente-a-frente os dois melhores guarda-redes da sua geração. Um privilégio que não durará muito mais (e daí...), logo aproveitemos.