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Liga dos Campeões

O jogo que todos querem ver hoje vai ser assim: um PSG mais atrevido, mas mais fraco sem Neymar, e um Real a acelerar no contra-ataque

Com a eliminatória praticamente sentenciada pelo Liverpool no Dragão (vitória por 5-0), todos os olhos, esta terça-feira, vão estar postos no outro jogo grande da Liga dos Campeões: PSG-Real Madrid. O analista de futebol Tiago Teixeira explica-nos o que aconteceu na 1ª mão e antecipa a 2ª mão

Texto Tiago Teixeira, analista de futebol e criador do blogue Domínio Tático

Cristiano Ronaldo marcou dois dos três golos com que o Real Madrid venceu o PSG, na 1ª mão dos oitavos de final da Champions (3-1)

KIKO HUESCA/ epa

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Um golo de Rabiot, um golo de Marcelo e dois golos de... Cristiano Ronaldo. No Bernabéu, o PSG até começou melhor, mas foi o Real Madrid a sair vencedor (3-1), e isso muda a abordagem que os parisienses vão ter no jogo desta terça-feira - mesmo não tendo o desequilibrador Neymar, indisponível por lesão.

Tendo em conta o resultado com que terminou o jogo da 1ª mão dos oitavos de final, é de prever agora um PSG muito mais agressivo e muito mais pressionante do que aconteceu no Santiago Bernabéu, isto porque procurará recuperar a bola rapidamente para atacar a baliza do Real Madrid durante o maior tempo possível. Algo que não aconteceu no jogo da 1ª mão.

Em Madrid, como exemplificado no vídeo que se segue, a equipa do PSG optou por uma estratégia cautelosa, mais de controlo dos espaços, no que diz respeito à sua organização defensiva. Em vez de pressionar a construção do Real Madrid em zonas mais altas para tentar recuperar logo a posse da bola, preferiu pressionar apenas quando esta se aproximava da linha de meio-campo.

Tendo em conta o lado onde a bola se encontrava, um dos médios interiores do PSG (Verratti como interior direito e Rabiot como interior esquerdo) saía ao portador da bola e a restante linha média (os extremos Neymar e Mbappé e o médio defensivo Lo Celso) basculava para o lado da bola de modo a garantir as coberturas defensivas e a manter o bloco compacto (para não deixar espaço entre a linha defensiva e a linha média).

No jogo da 2ª mão, pelo contrário, espera-se um PSG a iniciar a pressão logo perto da área adversária. Deste modo, a equipa de Unai Emery irá obrigar os defesas do Real Madrid a construir com menos tempo e espaço, o que pode proporcionar mais erros em zonas recuadas ou obrigar a um jogo mais direto, com bolas lançadas rapidamente para a frente.

Como exemplo de um possível posicionamento, podemos olhar para o que Emery preparou na época passada quando recebeu e venceu o Barcelona por 4-0, nos oitavos de final da prova. Quando a bola entrava num dos centrais, o extremo (nesse jogo Di Maria foi o extremo direito e Draxler foi o extremo esquerdo) do lado da bola pressionava-o, ao mesmo tempo que cortava a linha de passe para o lateral. O avançado - Cavani - fechava a linha de passe para um dos médios e o extremo do lado contrário aproximava-se do outro central adversário. E a linha defensiva parisiense posicionava-se muito alta no campo, de modo a tornar o bloco o mais compacto possível.

Com bola, devemos ter o habitual PSG - e isso quer dizer uma equipa cheia de qualidade individual (mesmo sem Neymar...) em todos os setores e muito paciente no seu processo ofensivo.

Com os laterais (Dani Alves do lado direito e Kurzawa ou Yuri do esquerdo) a dar largura e profundidade e os extremos (Di Maria e Mbappé) a procurar zonas interiores, o PSG procurará criar condições para fazer a bola chegar ao espaço entre a linha defensiva e a linha média do Real Madrid. Chegando a esse espaço, surgem os movimentos de rutura por parte dos extremos e de Cavani, com o objetivo de receber a bola já nas costas da linha defensiva do Real Madrid, de frente para o guardião Keylor Navas.

Neymar, que sofreu uma entorse e fraturou o quinto metatarso do pé direito frente ao Marselha, é o grande ausente da 2ª mão

Neymar, que sofreu uma entorse e fraturou o quinto metatarso do pé direito frente ao Marselha, é o grande ausente da 2ª mão

RODRIGO JIMENEZ/ epa

No que diz respeito ao Real Madrid, a pressão alta com que tentou condicionar a primeira fase de construção do PSG no jogo da 1ª mão deverá dar lugar a uma organização defensiva mais recuada e compacta.

Ofensivamente, terá de ser uma equipa capaz de retirar a bola das zonas de pressão, como por exemplo fez neste lance no jogo da 1ª mão, onde o uso da cobertura ofensiva permitiu variar o centro de jogo para uma zona com menos adversários e sair em ataque rápido - como bem gosta a equipa de Zidane.

Uma vez que a linha defensiva do PSG se posicionará muito perto da linha de meio-campo, é expectável que os jogadores do Real procurem realizar muitos movimentos de rutura com o objetivo de explorar o (muito) espaço nas costas dos parisienses.

Haverá primeiro movimentos de aproximação para “obrigar” um dos defesas a sair da linha defensiva e com isso abrir espaço para os movimentos de rutura.

Isco ou Bale? Paciência ou rapidez?

Com Isco em campo (o que aconteceu na 1ª mão) será sempre um Real Madrid mais capaz de manter a bola em sua posse, mais inteligente a gerir os ritmos do jogo, e com mais qualidade em ataque posicional. O médio espanhol é um dos jogadores do Real que mais qualidade apresenta em espaços curtos (drible curto e controlo de bola com muita qualidade) e poderá ser fundamental para ultrapassar a pressão do PSG e sair de forma apoiada para o ataque.

Mas, com Bale no onze em detrimento de Isco, adivinha-se um Real Madrid mais vertical e perigoso em transição ofensiva, uma vez que o galês é um jogador muito rápido e explosivo, podendo assim explorar com mais facilidade o espaço nas costas da linha defensiva do PSG.

JUANJO MARTIN/ epa

Ausência de Neymar e titularidade de Di Maria

Apesar do bom momento de forma que o extremo argentino atravessa (quatro golos marcados nos últimos quatro jogos disputados), a verdade é que o PSG é muito mais forte com Neymar do que com Di Maria.

O extremo brasileiro é o jogador mais criativo e com mais qualidade técnica de todo o plantel do PSG e por isso certamente que fará muita falta. Não há ninguém que tenha mais capacidade do que Neymar para, em condução por zonas interiores, ultrapassar as linhas defensivas do adversário, o que contra uma equipa com um bloco defensivo mais recuado poderá ser determinante para decidir.

Num jogo entre duas equipas com tanta qualidade individual, o mínimo que se espera é que seja um jogo muito aberto e com muitas oportunidades de golo. Isto é: um PSG à procura do golo desde o apito inicial e um Real Madrid sempre preparado para sair rápido em transição assim que recuperar a bola. Um verdadeiro jogo de Liga dos Campeões.