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Liga dos Campeões

Fica difícil competir assim

O FC Porto passou 111 dos 180 minutos da eliminatória contra a Juventus com menos um jogador em campo. Há duas semanas, por culpa de Alex Telles, agora, devido a Maxi, que cortou com a mão uma bola que ia entrar na baliza. A Juventus voltou a ganhar (1-0) e os dragões estão fora da Liga dos Campeões

Diogo Pombo

MIGUEL MEDINA

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É um exercício exigente, didático até, o de estar atento a uma conferência de imprensa de Nuno Espírito Santo, com o ouvido aberto para uma missão - contar o número de vezes que o treinador toca na palavra “competir”. Há de sobra para ele pegar no verbo e conjugá-lo em vários sujeitos e tempos. Ou para a usar e abusar como substantivo. NES usa, reusa, diz, rediz e carrega na competitividade por, imagino, ser uma qualidade da qual gosta, que apregoa aos jogadores e pretende ver em toda a equipa que treina.

Faz sentido, ainda mais agora.

Ele e os jogadores do FC Porto bem precisava de ser competitivos, de competirem ao máximo, e de darem competição a um adversário que compete a outro nível. Porque, com os títulos, a rodagem, a reputação e, sobretudo, com o dinheiro, a Juventus joga sempre com um onze em que quase todos são titulares das seleções de onde vêm. Quando muitos jogadores destes se juntam na mesma equipa, o mais provável é que joguem muito. E bem, e rápido, e com uma intensidade e percentagem de erro que só equipas que existam da mesma maneira conseguem igualar. Há poucas no mundo e o FC Porto não é uma delas.

Muito menos quando, em 111 dos 180 minutos de uns oitavos-de-final da Liga dos Campeões, apenas tem dez homens no campo. Chegou a esse ponto no momento em que Maxi, como Alex Telles fizera há duas semanas, competiu sem pensar e esticou o braço para, em cima da linha de baliza, impedir que a bola rematada por Higuaín entrasse. Foi expulso, Dybala marcou de penálti ao guarda-redes a quem tem vergonha de pedir a camisola e os dragões não voltaram ao zero, mas aos menos três golos que passaram a ter.

Até esse ponto, que aconteceu aos 40 minutos, a equipa de Nuno tentou manter os jogadores perto uns dos outros, trocar passes curtos, avançar juntinha em campo e, perto da área, tentar que Brahimi inventasse algo ou que arriscar um espaço em que pudesse encontrar Soares. Fez tudo com tanta prudência e auto-controlo no risco, que nunca arriscou uma bola longa para o lado oposto do campo. Ou seja, nunca obrigou os italianos a fazerem umas piscinas, e não a apenas darem umas ligeiras braçadas dentro da organização que mantinham incólume.

Enquanto isso, Dybala rematava duas vezes antes de marcar; Bonucci iniciava jogadas de perigo com um passe bem metido de trás; Alex Sandro e Cuadrado ganhavam sempre metros em velocidade; e Mandzukic, à esquerda, aguardava por bolas que fossem cruzadas para cima de Maxi, pois o croata é o dobro do que o uruguaio é em tamanho.

MIGUEL MEDINA

Para mal dos dragões, isto acontece numa equipa que acerta nove em cada 10 passes (acabou o jogo com 704 feitos e 91% de eficácia), que tem um extremo que podia correr os 100 metros e que enche o assador com a carne Mandzukic, Dybala e Higuaín - três avançados que, sem a bola, defendem, preocupam-se em estar no sítio certo e recuam a sprintar como humanos que não se cansam. É por montar equipas como esta que, em seis anos, a Juventus apenas perdeu cinco jogos no estádio onde o FC Porto tinha de ganhar.

Mesmo assim, com tanto contra eles, os jogadores do FC Porto fizeram melhor na segunda parte.

Deixou de haver André Silva, que passou uma eliminatória longe da área, encostado a uma linha e a ser substituído quando alguém foi expulso, e a Juventus, aos poucos, foi abrandando no conforto dos três golos e do jogador que tinha a mais. Os dragões, a defenderem mais atrás, ainda mais juntos, e a terem de correr o dobro, tiveram de abreviar as coisas e ganhar mais metros com menos passes.

Foi assim que Soares foi lançado para ultrapassar Benatia em velocidade (49’) e, à frente de Gianluigi Buffon, não acertar com a bola na baliza. E assim que Diogo Jota ousou picar a bola sobre o corpo da lenda que usa luvas (82’), mas acertou na malha lateral. O FC Porto competiu, e muito, até ao fim, porque levou o orgulho a jogo e, a reboque de Danilo, Marcano e Felipe, lutou contra jogadores que são melhores, jogam a outro ritmo e erram muito menos.

Numa expressão - eles são de outra liga. E por isso vão continuar na Liga dos Campeões. Podia o FC Porto ter competido mais e melhor contra isto? Sim, mas sem os dois jogadores que interpretaram com expulsões os pedidos de Nuno Espírito Santos para competirem.

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