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Juventus-FC Porto. E pensar que tudo começou numa aula de geometria

O FC Porto joga esta terça-feira (19h45, RTP1), em Turim, para tentar virar o 2-0 que sofreu na primeira mão. Os dragões precisam de vencer em casa da Juventus, onde perderam sempre. É lá que Gianluigi Buffon quer ver o amigo a ser o melhor em campo e a receber uma ovação dos adeptos. Esse amigo é Iker Casillas, que vai igualar o recorde de maior número de jogos feitos (173) em provas europeias

Diogo Pombo

TU ÉS O MELHOR. NÃO, TU É QUE ÉS! Casillas e Buffon são amigos e adoram-se, mas é o primeiro que vai passar a ser o futebolista com mais jogos feitos em competições europeias

Foto: Miguel Vidal/Livepic

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A vida é feita de aventuras, sejam elas longas, curtas, esporádicas, frequentes, repentinas ou esperadas.

Há duas semanas, aconteceu uma que encaixa em alguns destes adjetivos, e descrevê-la é a melhor forma de percebermos. De um lado estava uma equipa que nos meses que já levamos desta época tinha a sua quota-parte de curvas feitas a derrapar em Portugal, daquelas que se perde o controlo e o volante se torna apenas um adorno sem poder sobre as rodas.

Do outro, uma que era dona de um motor que não se estraga por nada, campeã das campeãs a manter-se numa linha reta por Itália, onde segue há anos num veículo que nunca empana.

Não era de esperar que a primeira, com piores jogadores, menos nome e tudo a pô-la do lado mau das probabilidades, fizesse tanta frente à segunda, cujos melhores jogadores, a maior reputação e o lado radiante dos prognósticos.

Foi uma aventura com outros adjetivos – prometedora, inesperada, poderosa, afirmativa.

Mas curta, também. Porque foi encurtada pelo controlo que Alex Telles não teve para pensar que, talvez, fosse imprudente precipitar-se sobre as pernas de dois adversários diferentes, em dois minutos. O par de cartões amarelos e o vermelho que viu não deixaram o FC Porto ser prometedor, poderoso e afirmativo mais do que 27 minutos.

Depois de ser melhor no onze para onze, acabou por quebrar no dez contra onze. Sofreu dois golos e piorou, de antemão, a aventura que lhe espera em Turim.

Foto: EPA/Estela Silva

Os dragões têm de virar uma eliminatória que, com um 2-0 contra, os tem no lado fechado da curva. A Juventus é pentacampeã de Itália, nunca recebeu o FC Porto sem lhe ganhar (mesmo que só tenha sido uma vez, com um 3-1 em 2001), é das equipas para as quais não chegar à final da Liga dos Campeões é derrota, e vai para campo com tipos como Higuaín, Pjanic, Bonucci, Cuadrado, Dybala ou Buffon. Os dois últimos levam-nos a outra aventura, tão grande que quase deixa de ser paralela ao jogo.

Ambos querem algo da mesma pessoa. Dybala, canhoto, argentino e tímido por admissão, gostava de ficar com a camisola dele no final do jogo, embora tenha vergonha de a pedir. Buffon, guarda-redes, italiano e com 39 anos de classe e golos evitados, quer vê-lo a ser o homem do jogo e a receber uma homenagem dos adeptos. Eles falam do mesmo homem: Iker Casillas.


No caso do italiano, é uma longa história. É uma das que dá razão à existência de uma palavra como “bromance” e vem tão de trás que o italiano sabe quantas vezes já se defrontaram (14), que estão empatados nas vitórias (quatro), que juntos têm quase meia centena de títulos (42), e até que vão com o mesmo número de jogos (167) pelas suas seleções. Mesmo que Casillas não demonstre a mesma sapiência de elefante de Buffon em relação aos números do amigo, eles adoram-se.

Mas, na terça-feira, o espanhol será o único em campo a atingir um marco. E talvez por isso o italiano tenha feito figas, em mais uma demonstração de carinho mútuo, agora em vídeo, para que Casillas seja o homem do jogo e receba um aplauso dos adeptos da Juventus: “Que [o jogo] acabe com a Juve na ronda seguinte, que é o mais importante. Com o Casillas como homem do jogo. E com o Gigi a ter uma boa prestação. E com um tributo especial do Juventus Stadium a Casillas”. Porque se o espanhol jogar – e certo é que o vai fazer – tornar-se-á no futebolista com mais jogos feitos em competições europeias.

Foto: Octávio Passos/Lusa

Iker ficará com 173 jogos, o mesmo número que Xavi levou com ele para o Qatar, onde está há duas épocas a preparar a reforma. É muita parra, muita uva e muito jogo, desde que interromperam uma aula de geometria, numa escola de Madrid, para levarem um miúdo de 16 anos ao gabinete do diretor. O adolescente Casillas era chamado para ouvir que tinha de ir o mais rápido possível para o aeroporto de Barajas, porque as lesões de outros o tornavam necessário para estar no banco do Real Madrid em Oslo, na Noruega. Viu de fora a derrota (2-0) contra o Rosenborg, em 1997. Apenas se estreou na Liga dos Campeões dois anos depois, frente ao Olympiacos.

Daí para cá, foi uma aventura de paradas, jogos épicos, finais e três conquistas (2000, 2002 e 2014) da competição, tudo escrito com o Real. Já acrescentou uns números com a temporada e meia que leva de FC Porto, embora longe de se aproximar da glória que viveu no clube que o formou e arrancou da sala de aula.

Mas fazer o que o amigalhaço Buffon lhe vaticina – em Turim, no estádio da Juventus, ser o melhor em campo e ovacionado pelos adeptos dos outros –, com o acrescento de ele e a equipa serem capazes de virar um 2-0, entraria diretamente para os highlights da aventura de Iker Casillas pela Europa fora.

Uma aventura longa, titulada e de se lhe tirar o chapéu.