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Liga dos Campeões

28 dias depois, cá estamos

Voltemos a ter motivos para sorrir: a Liga dos Campeões e o futebol a meio da semana estão de volta. Os quartos-de-final da prova começam-se a jogar esta terça-feira, com o veloz Monaco de Leonardo Jardim frente à máquina do Borussia Dortmund, e os donos da bola do Barcelona a reeditarem a final de 2015 com a Juventus

Diogo Pombo

É a segunda vez em três épocas que o AS Monaco está nos quartos-de-final da Liga dos Campeões. Sempre com Leonardo Jardim

Reuters/Eric Gaillard

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Estávamos no início do século e este era o título de um filme britânico. Foi dos primeiros a reavivar a moda de nos retratar, seres humanos, como raivosos, animalescos e inumanos uns para os outros. De nos pôr tão mortos quanto vivos, a movimentar-nos como quem nunca aprendeu o bê-á-bá da coordenação motora e a só pararmos quando conseguíssemos cravar os dentes em carne humana.

O filme era o 28 Dias Depois e, durante uma hora e cinquenta e três minutos, falava-nos de um vírus inexplicável, dos zombies que ele criou e da mão cheia de pessoas que iam tentando escapar a isto tudo.

Há umas quantas razões para este filme vir à baila.

Ele passava-se numa Londres desprovida de gente, com ruas cheias de um caos apocalíptico que nos fazia perceber que ali não tinha acontecido coisa boa. Nada se passava por lá, como não se passará esta semana, em que a Liga dos Campeões se volta a jogar e nos dá a cura para deixarmos de ser zombies sem futebol a meio da semana. Esta época não se viram clubes londrinos na prova e foi por um triz que escapámos a não ver equipas inglesas nestes quartos-de-final.

Teve que ser uma equipa que se julgava mais morta do que viva, a ressacar do êxtase que um conto de fadas lhe deu, há menos de um ano, a não tirar à Inglaterra o futebol de terça e quarta-feira. Desde que o Leicester City despediu Claudio Ranieri, o treinador com cara de avô simpático que os transformou num conto de fadas, os jogadores regressaram ao modo jogar-acima-das-possibilidades e, em sete jogos, ganharam seis e perderam um.

Rapazes como Vardy, Mahrez, Drinkwater ou Kasper Schmeichel, que parou o penálti que os colocou aqui, estão de novo a superar-se e agora terão de o fazer contra o Atlético de Madrid (quarta-feira, 19h45, Sport TV2), cuja história recente é feita de autossuperação e esforço inegociável, como diz o tipo que os treina. A equipa de Diego Simeone não tem andado tão vivaça como nas últimas três épocas - em que chegou a duas finais da Champions -, mas tem recuperado o tino a defender e sabe o que é andar nesta vida, algo ao qual ninguém do Leicester pode acenar a cabeça em concordância.

O Bayern de Munique ficou-se pelas meias-finais da prova nas últimas três épocas e esta é a última oportunidade para vários graúdos ganharem a Champions

O Bayern de Munique ficou-se pelas meias-finais da prova nas últimas três épocas e esta é a última oportunidade para vários graúdos ganharem a Champions

Foto Reuters/Stefan Wermuth

O contrário vai acontecer no Bayern Munique-Real Madrid. Ali não haverá bem gente morta-viva, embora tenham uma fome insaciável de quem come tudo o que lhe aparece à frente até terem o que pretendem. Porque, aqui, estamos a falar de clubes que gastam, investem, compram milhões em treinadores, jogadores e recursos, dos quais exigem um retorno anual. É por isso que Cristiano Ronaldo, Sergio Ramos, Luka Modric ou Gareth Bale vivem num clube que faz as contas à vida com o número de Ligas dos Campeões que já venceu (são 11). Ou que malta como Frank Ribéry, Arjen Robben, Xabi Alonso ou Philipp Lahm, do outro lado, todos trintões experimentados, sintam o tempo a urgir para vencerem uma última Champions antes de cada um ir à sua vida. O primeiro jogo é em Munique (19h45, RTP1).

Antes de autossuperados se defrontarem e de papa-títulos verem quem continua vivo na quarta-feira, há coisas a acontecer esta terça

Uma deles terá bastantes portugueses pelo meio. É o AS Monaco, que já marcou 133 golos esta temporada, uma máquina vomitadora de bolas que entram na baliza dos outros e que foi inventada por Leonardo Jardim. A equipa, cheia de miúdos com uma relação desproporcional entre a idade que têm e o talento com que jogam, livrou-se do Manchester City de Pep Guardiola, nos “oitavos”, lidera o campeonato francês e será das mais rápidas na Europa a usar as bolas que recupera ou os contra-ataques que tem.

Os talentos precoces de Lemar, Mbappé, Bakayoko, Sibidé (não vai jogar por causa de uma apendicite) ou Mendy estão a ser colados por tipos como Fabinho, Falcao, Germain e Bernardo Silva, que vão a Dortmund (19h45, Sport TV2) jogar contra o Borussia que eliminou o Benfica. A equipa alemã, especial por ter como treinador alguém que inventa exercícios que puxam pelo intelecto dos jogadores e os faz produzir ácido láctico a níveis absurdos - quando o corpo é submetido a esforços físicos intensos -, é outra máquina, mais de pressão e contrapressão. O que nos faz presumir que teremos pela frente um jogo intenso e com jogadas rápidas para dar e vender.

O que não se deverá passar, à mesma hora (Sport TV1), em Turim. É lá que a Juventus eliminadora do FC Porto vai começar a tentar a sua sorte contra o Barcelona. Os catalães não estão a atravessar a fase mais feliz da vida deles - no último mês houve duas derrotas para o campeonato, ambas fora. Mas, lá está, eles são o Barça.

Neymar, Messi e Suárez, os três estarolas do Barcelona, podem voltar a infernizar a vida à Juventus

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Foto Reuters/Albert Gea

Também não estavam famosos há umas semanas, quando viraram um 4-0 para 6-1, jogo para mostrarmos à próxima pessoa que nos perguntar o porquê de as pessoas gostarem tanto de futebol. Mesmo sem moral, fora de forma ou com jogadores a não renderem o que deviam, há duas coisas que sempre têm: serem ditadores da bola e Lionel Messi. Daí que Marco Verratti, italiano que joga no Paris Saint-Germain que foi despachado por eles nos oitavos-de-final, disse isto a Leonardo Bonucci, italiano que lidera a defesa da Juventus: “Nunca vês a bola em Camp Nou”. Como não a viram em 2015, quando perderam a final da Liga dos Campeões para os catalães.

Assim é que eles estão bem - a reencontrarem-se, a jogarem, a lutarem uns contra os outros e a fazerem-nos perceber que o futebol a meio da semana faz muita falta. Assim é que se vive. Como o protagonista do tal filme de que vos falei se apercebe, no final, que terá de viver no mundo que se virou do avesso. Esse filme chama-se 28 Dias Depois.

E, vinte e oito dias depois, a Liga dos Campeões está de volta.

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